Emmanuel Mounier (1905-1950) e sua filha Anne

Espaço para difusão da filosofia personalista de Emmanuel Mounier e para ponderações de vários temas importantes, tendo como referência essa perspectiva filosófica.

domingo, 21 de novembro de 2010

Relevância da Filosofia Personalista em tempos hodiernos.

Relevância da Filosofia Personalista em tempos hodiernos.
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Ao Prof. MS. Daniel da Costa, pelo seu empenho em encarnar os ideais personalistas e esforço em apresentá-los à sociedade.
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Lendo Martin Buber fui levado a pensar na maneira inadequada em que nos relacionamos com a natureza que nos cerca e com as pessoas que nos rodeiam. Buber apresenta como ideal um modelo, a vivência de relacional apresentados nos termos EU-TU. Com prática dessa vivência nos encontramos no outro ao passo que o outro se percebe em nós. Em nosso atual modelo de vivência social essa forma de relacionamento destacado por Buber torna-se quase impossível de ser adotada, pois, usando os termos de Buber, assumimos o modelo Eu-isso, um modelo que nos afasta das coisas que nos evolvem - tornando-nos insensíveis a realidade do outro. Nossa sociedade burguesa vivenciadora do modelo Eu-isso está longe do alcance percepcional revelador de que as coisas, a natureza e as pessoas que nos rodeiam devem ser percebidas como um “um-conosco”, e não a maneira pragmática - um “para-nós”.
A partir dessa análise, recebendo estímulos de amigos personalistas com suas ideias manifestas, percebi, mais uma vez, a pertinência da filosofia personalista, mais uma vez fui levado a observar a filosofia personalista se configurando como imprescindível em tempos hodiernos.
Sabendo que somos tendenciosos, e, por conta disso, costumamos elevar nossas aspirações e tendências a categoria do indispensável, permiti que fossem desenvolvidas em minha mente algumas indagações, com o propósito de aferir a validade de minhas convicções sobre a pertinência da filosofia personalista. O caminho que me fez traçar essas perguntas reforçaram em mim a convicção de que um novo discurso deve ser lançado com a finalidade de incitar na sociedade um desejo de agir em prol da transformação de seu atual estado para um modelo mais harmonioso, que leva em consideração às reais necessidades do ser humano vivente em uma sociedade tão plural e complexa. Sabedor que minhas convicções não são definitivas, intento desde já abrir essas questões que se desenvolveram em minha mente para que mais pessoas possam ao menos seguir a trilha que me levou a crer na pertinência da Filosofia personalista, e a partir disso, pessoalmente se posicionar. Portanto não poso seguir essa assertiva sem apresentar as seguintes questões que permiti que agitassem a minha mente, a saber:
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. O que é a Filosofia Personalista?
. Seria o discurso da Filosofia Personalista realmente imprescindível?
. O que a Filosofia Personalista tem para contribuir em nossa sociedade? O que ela traz de diferente em relação às coisas que já foram ditas e construídas por uma grande diversidade de engenhosos sistemas de idéias?
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Creio que respostas honestas para perguntas honestas não devem ser respondidas instantaneamente, como uma peça substituída a compor a engrenagem. Creio que existem questões, de tão complexas, não podem ser respondidas de forma automática. Levo essa ideia como diretriz a todo o momento em que sou colocado diante de questões sérias.
Quando falamos sobre a filosofia personalista, devemos ter cuidado em não reduzi-la a um aspecto que a compõe. Por exemplo, não podemos apresentar a Filosofia Personalista como a filosofia comprometida com a pessoa ignorando sua preocupação e comprometimento em ser uma filosofia da ação, como também não podemos ignorar que o engajamento personalista, apesar de não ser um sistema, não dispensa totalmente a sistematização da ordenação do pensamento, da construção de uma efetiva Filosofia, pois agir e pensar sem ordem se configura em um desnorteio. Como já afirmara Mounier, “O Personalismo é uma filosofia, não é apenas uma atitude. (...) Não foge a sistematização. Portanto o pensamento necessita de ordem: conceitos, lógica, esquemas unificantes... (...) Porque define estruturas, o personalismo é uma filosofia, e não apenas uma atitude.” (1).

Afirmar que o personalismo é uma filosofia, não evidencia sua pertinência. A importância dessa filosofia, não se encerra no fato de ser mais uma filosofia a ser conhecida, a ser estudada e discutida na ambiência acadêmica. A relevância da filosofia ardorosamente defendida por Emmanuel Mounier é que ela é um esforço para compreender o ser humano em sua integralidade, entendendo por integralidade humana, todos os aspectos que permeiam e envolvem a existência humana, e não somente um esforço para compreender. Esse esforço é uma forma de conhecer para agir - para, com isso, efetivamente e com propriedade, se envolver na problemática abordada. Por ser uma filosofia que aborda com efetivo envolvimento as questões que permeiam a existência humana – o personalismo torna-se imprescindível.
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Não podemos nos contentar em meio à crise social, moral, política, econômica e religiosa que envolve o mundo, com filosofias etéreas, idealistas, especulativas ou reducionistas - como as que são tratadas nas universidades. Filosofias inchadas, que emprestam um ar de erudição para quem as domina, porém, não tendo nenhuma relação com o ser humano integral – ser envolvido em uma série de crises. A filosofia Personalista é importante porque leva em consideração os problemas do ser humano enquanto pessoa, e não como uma ideia abstrata a ser desenvolvida, como uma massa coletiva ou como um indivíduo que resolve-se de maneira isolada.
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Na época de seu principal articulador, Emmanuel Mounier, a Filosofia personalista através do círculo intelectual que a delineava (Esprit), enfatizou o problema da crise da civilização, tão escandalosamente destacadas a partir da eclosão da primeira Grande Guerra (1914-1918) e na florescência da Segunda Grande Guerra (1939-1945). Hoje, apesar dos diferentes aspectos, essa crise ainda se faz vigorosa. A matéria prima dessa crise é a mesma de outrora, a saber, a desumanização nas instituições e nas relações entre os homens. Engajada através de seus interlocutores, a Filosofia Personalista denuncia essa crise e busca, através do diálogo -, porque dialogar é uma de suas vocações, superar essa crise propondo a instauração de uma nova vivência social, a civilização personalista e comunitária, uma civilização, segundo Mounier, “cujas estruturas e espírito estão orientadas para a realização da pessoa que é cada um dos indivíduos que a compõem”.
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Enfrentar a realidade da pessoa humana aceitando seus desafios e neles se envolvendo, aceitar a integralidade do ser humano, se envolvendo na vocação do homem encarnado na existência, sem rejeitar suas demandas espirituais, faz do personalismo de matriz mounieriana uma filosofia diferente daquelas oralizadas por pedantes intelectuais, filósofos profissionais e friamente academicistas, compromissados apenas com o seu ego e com a manutenção de suas vaidades, enquanto que, descompromissados com a realidade do ser humano integral e suas reais demandas.
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Denunciar a “desordem estabelecida”, se envolver com pessoas engajadas para a realização de uma nova civilização aponta o contributo do Personalismo como uma filosofia distinta e a sua pertinência.
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Há muito que se fazer -, como enfaticamente aponta o Prof. Daniel da Costa, é necessidade premente os personalistas se envolverem em todas as camadas da sociedade, em todos os campos de atividade para deles e neles extrair respostas e apontamentos visando os melhores meios de tornar a tão sonhada sociedade personalista uma realidade.
Temos muito trabalho pela frente, não podemos nos desanimar, afinal, de que adianta a prática do filosofar se dela não surja frutos a serem colhidos para proveito da a existência humana? Como personalistas admitimos com Mounier que “não basta compreender, é preciso fazer. O nosso fim, o fim último, não é desenvolver em nós ou em torno de nós o máximo de consciência, o máximo de sinceridade, mas assumir o máximo de responsabilidade e transformar o máximo de realidade à luz das verdades que tivermos reconhecido." (2)
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Citações
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(1) MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
(2) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
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Referências
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BUBER, Martin. Eclipse de Deus: considerações sobre a relação entre a religião e a filosofia. Tradução Carlos Almeida Pereira. Campinas: Verus editora, 2007.
MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
______. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
WARD, Keith. Deus: Um guia para os perplexos. Tradução Susana Schild; apresentação à edição brasileira Leonardo Boff. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.
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sábado, 30 de outubro de 2010

Temos de ser individualistas?

Temos de ser individualistas?
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Antonio Glauton Varela Rocha.
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No meio personalista a expressão vida pessoal engloba uma séria de atitudes e escolhas bem específicas, geralmente as que fomentam uma vivência livre e responsável, um tipo de vivência não individualista e que tem em vista o aspecto comunitário: não pensar só em si, não explorar os outros, ser espontâneo, ter vontade livre, esse tipo de coisa.
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Costuma-se objetar essa perspectiva com a afirmação de que os atos irresponsáveis, individualistas e egoístas não seriam menos humanos do que os citados acima, pois também são feitos por homens. Se isto for verdade o personalismo fica em maus lençóis, pois não poderia eleger atos específicos como sendo mais pessoais do que outros.
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Mas na realidade estas objeções surgem de uma equivocada equiparação entre o que e ato humano em sentido lato e em sentido estrito. Claro que matar e afagar são atos igualmente humanos se os entendemos em sentido lato. Usando um exemplo bem tosco, neste sentido arrotar também é um ato humano, isso é óbvio. Uma pessoa pode aprender a arrotar as sete notas musicais, ou ainda melhor, arrotar uma sinfonia de Beethoven; ficaria muito interessante, daria até para passar em algum programa de auditório, mas ficaria a pergunta: o que isto acrescenta para o desenvolvimento deste indivíduo como pessoa? É possível sim ser egoísta, mas isto não representa um ato propriamente pessoal (num sentido estrito). Quando o personalismo fala de ato da pessoa, fala de outra coisa. O que as filosofias como o Personalismo ou as filosofias do diálogo entendem como atos pessoais (ou mais propriamente humanos) são atos que condizem com uma espécie de natureza ou condição humana; são atos que nos diferenciam da vida simplesmente animal. No caso do personalismo, o homem é compreendido como em contínua situação de relação (como um ser-com). A filosofia contemporânea apresenta muitas teses que demonstram que o poder do sujeito isolado é apenas aparente, tanto ao nível epistemológico, como no âmbito da linguagem ou das relações sociais. A hermenêutica gadameriana, a concepção heideggeriana sobre o homem como dasein, a noção de jogos de linguagem trazida por Wittgenstein, são ataques pesados às pretensões do subjetivismo e do solipsismo metodológico. Tudo isso é um bom embasamento para percebermos que o homem não é um ser isolado e que não apenas precisa dos outros, mas que é um ser "feito" para estar em relação.
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Os individualistas gostam de dizer que o pensamento comunitário não tem fundamento e que é preciso reconhecer o individualismo como a teoria mais coerente. De fato isto é muito fácil dizer quando se tem ao redor de si toda uma estrutura de relação, toda uma sociabilidade que o permite a vida física, o aprendizado dos costumes, da visão de mundo, da linguagem, e quando se tem o seu João para plantar feijão na roça, e depois o seu José para levar para o supermercado.
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Com o que foi dito acima, vemos que falar do homem como um ser de relação não é algo arbitrário. O homem pode até viver como se os outros não existissem, mas a sua condição sempre será a de um ser em relação. Ou seja, podemos dizer que o homem possui sim características específicas (como a da sociabilidade), distintivas, que alguns chamam de essência, natureza ou condição. Elas não esgotam o sentido da pessoa, mas se soubermos que elas existem e buscarmos entender quais são é possível dizer que alguns atos são mais humanos do que outros (no sentido estrito). Podemos dizer, por exemplo, que reconhecer o valor do outro é uma atitude mais humana do que ser egoísta. Estas diferenciações são possíveis e necessárias se queremos legitimar a crítica aos ordenamentos sócio-políticos que se voltam contra a pessoa.
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Mas por que é mais fácil ser egoísta do que ser solidário? Pode me pergunta um individualista convicto; assumo que esta questão não admite uma resposta simples, mas um dos motivos com certeza é este: FOMOS MUITO MAL EDUCADOS, ou melhor, fomos adestrados para sermos egoístas. Algumas tribos indígenas não têm a menor dificuldade para compartilhar o que se produz ou o que se consegue na natureza entre todos do grupo. Para eles é uma atitude muito estranha querer algo só para si ou acumular. Alguns estudiosos tratam disto, como o antropólogo Bartolomeo Meliá em suas pesquisas sobre a cultura guarani em seu país e no Brasil. Já para nós é estranho imaginar um ordenamento onde as pessoas não pensam só em si, pois a maioria age assim, aprendemos desde criança que a vida é assim (luta egoísta), vemos na televisão, nas ruas, em todos os lugares. Realmente é muito difícil sair da situação onde se está imerso para ver que a nossa realidade não é a única legítima, ou que talvez nem seja muito legítima, ou mesmo que exista outra realidade. Mas se é difícil, por outro lado não é impossível. Alguns homens conseguiram ver além dos limites do consensualmente aceitável e definido, e então conseguiram perceber o diferente... foi assim que se descobriu que a terra é redonda.
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Penso que é possível sim pensar em outra realidade, em outro modo de viver, penso também que se trata de uma mudança urgentemente necessária. Mas isto exigirá muito de cada um de nós. Agora é preciso saber se estamos dispostos a tal mudança.
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Antonio Glauton Varela Rocha
Mestrando em Filosofia pela UFC (Universidade Federal do Ceará).
Personalista em formação e Pesquisador da Filosofia de Emmanuel Mounier (atual pesquisa versa sobre o estudo da antropologia de Emmanuel Mounier como base de uma proposta de sociabilidade compatível com a dignidade humana e da crítica à “desordem estabelecida”).
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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Jean LACROIX – Uma Biografia.

Jean LACROIX – Uma Biografia.

Nascido em uma família burguesa católica, Jean Lacroix fez seus estudos secundários no Collège Dominicain d'Oulins, em seguida, no Collège Jésuite de la rue Sainte-Hélène. Matriculou-se na Faculdade Católica de Lyon, e obteve bacharelado em letras e licenciatura em direito. Volta-se então para a filosofia e apresenta uma tese em Grenoble, sob a direção de Jacques Chevalier: entra no "grupo de estudo", fundado por Chevalier com a ajuda de Jean Guitton. Matriculou-se na Sorbonne, onde Brunschvig o apresentou ao idealismo, e obtém agregação em filosofia em 1927. Passa a conhecer Laberchonnière e freqüenta com Guitton, o grupo de Davidées de Mlle Silve, onde conheceu Emmanuel Mounier 1928.

Nomeado professor do Liceu de Dijon, se envolve nos preparativos para o lançamento da Esprit engajando-se com Mounier. Fundou em Dijon um dos grupos mais antigos e mais animados da Esprit, no qual ele encontra várias pessoas, incluindo jovens e professores, cristãos e socialistas. Nessa ocasião, Lacroix em 1937 a 1968, em Lyon ele ensinou nas aulas preparatórias de letras superiores e escola primária superior do Lycée du Parc.

Pode-se dizer de sua educação - muito eficaz para a competição bem sucedida na escola superior normal, principalmente para estudantes que não são filósofos - que era clássico pelo seu método e moderno em sua abertura à todas as correntes do pensamento contemporâneo do existencialismo ao estruturalismo, do marxismo à psicanálise.

Desde de seu regresso à região de Lyon, Lacroix se juntou à intimidade intelectual e espiritual de P. Albert Valensin, professor de teologia na Faculdade Católica, discípulo e amigo íntimo de Maurice Blondel. Torna-se membro da Sociedade Lyonesa de Filosofia, liderado pelos ex sionistas (1) Victor Carlhian e por Auguste Valensin. Conheceu Vialatoux. Também foi o organizador do grupo Esprit de Lyon, que seria o foco principal do movimento na província.

Lacroix foi um membro do comitê de direção da revisão e até a morte de Mounier em 1950 permanecendo ao tempo da direção de Albert Béguin até 1957 ano da morte do colaborador suíço. Seus inúmeros artigos na revista dizem respeito principalmente sobre pensamento político, os socialistas e o sindicalismo, o papel do direito, da democracia, dos comunistas e da responsabilidade cristã. Ele colabora, em 1938-1939 com a Voltigeur, folha política bimestral, lançada pela equipe da Esprit, em Munique. Na tarefa confiada a Lacroix na famosa edição especial sobre o marxismo Esprit (maio-junho 1948), de destacar a linha da revista, fez em um artigo intitulado "Marx e Proudhon," com clareza e o espírito de síntese que o distinguiu nos seus escritos.

De 1940 a 1942 deu a École Nationale des cadres d'Uriage uma série de conferências sobre a pátria, sobre Peguy, Marx, Marx, e sobre vários temas da pedagogia, psicologia e ética. Esta educação contribui para a orientação de abordagem educativa e saúde espiritual da l'équipe d'Uriage vers la Résistance (equipe Uriage para resistência), e no sentido de uma revolução social e humanista.

Em 1945, Hubert Beuve-Méry confiou-lhe coluna mensal de filosofia no jornal Le Monde. Lacroix irá cumprir esta tarefa regularmente até 1980. Seus artigos foram reunidos em uma série intitulada "Panorama da Filosofia Contemporânea (1968, 1990).
Jean Lacroix foi um participante ativo no e crônica social das Semanas Sociais da França, não só em artigos e palestras que ele deu a estas duas instituições de origem Lyonesas (oito cursos de Semanas Sociais, entre 1936 e 1964), mas através de uma cooperação eficaz no desenvolvimento de projetos e de definições de políticas (foi membro da Comissão Geral das Semanas Sociais de 1945). Em 1936, desempenhou um papel de mediação social entre os católicos (Duthoit, as equipes da revista política e crônica social) e seus amigos no movimento da Esprit que preferem engajamentos não confecionais.

Em 1947, suas palestras na Semana Social em Paris, "o homem marxista" provoca uma sensação de agitação. Ele dá o exemplo da atitude de "simpatia metodológica” que caracteriza a sua abordagem às correntes contemporâneas de pensamento da qual ele também manteve um diálogo aberto constante, por mais difícil que em muitas vezes se fizesse com os amigos intelectuais comunistas.

Tendo defendido, a partir de 1937-1938, a opção de união NMS, aderindo à CFTC, também participa, especialmente depois de 1945, do desenvolvimento da Paroisse universitaire " (membros católicos do ensino público), relator, em várias ocasiões par "jornal acadêmico" é também um dos colaboradores e amigos do P. Dabosville, capelão nacional de 1946 à 1963.

Lacroix também dá palestras na Sociedade Europeia da Cultura, dirigido por Umberto Campagnolo. É freqüentemente convidado a outros países: de grandes audiências, na Bélgica, Suíça, Canadá, ou em países do Magrebe e da América Latina, com a intenção de exprimir sobre as grandes questões que a sociedade e o homem moderno enfrentam.

Amigo dos jesuítas Varillon e Fraisse, e Hubert Beuve-Méry, ele mantém uma correspondência regular com as personalidades mais diversas, dos seus colegas filósofos a desconhecidos que reuniram em torno de sua assinatura no Le Monde. Em Lyon, como Lépin-le-Lac (Savoie), congratula-se com muitos visitantes com simpatia, brincando com seu humor e desajeitada solidez. Lacroix criou um personagem cujos alunos fizeram um mito sem fim e agradável. O paradoxo, da ironia a repetição de fórmulas são fortemente reforçados, servindo para expressar um pensamento também alimentado de leituras, referências eruditas à experiência e à cultura da vida cotidiana.

Lacroix é um filósofo personalista, ou seja, que para ele o centro de tudo é a pessoa, humana espiritual e encarnada. Essa pessoa pode encontrar sentido em sua própria liberdade interior pela relação com o outro. Ela pode ser ela mesma no envolvimento social dentro da família como na humanidade. E Deus é o único outro que poderiam justificar a realidade do sujeito individual, "eu" e dar-lhe uma a abertura a outros para formar um "nós". Esta dialética que Lacroix exprime alternadamente em uma metafísica moralista, atenta a todas às dimensões da experiência humana, permitindo, de acordo com ele, exceder ao mesmo tempo o marxismo e o existencialismo e de responder ao ímpeto integral do homem.
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B. Comte e X. de Montclos

Obras de Jean Lacroix em língua portuguesa:
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Kant e o kantismo. tradução de Maria Manuela Cardoso. Porto: Rés, 1979, 2001 (2ª), 128 pp.
A sociologia de Augusto Comte /A ordem politica e social Augusto Comte. - Jean Lacroix- Gian Destefanis. Curitiba:Editora Vila do Príncipe, 2003.
Os homens diante do fracasso. - Jean lacroix. Org. São Paulo: Editora Loyola, 1970.
Marxismo Existencialismo Personalismo. Tradução de Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Paz e e Terra, 1967
Timidez e Adolescência. São Paulo: Livrobras- comércio de livro.
O personalismo como anti-ideologia. Tradução de Olga Magalhães. Porto: Rés, 1977 .
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Tradução e adaptação: Lailson Castanha
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Fontes:
http://www.girafe-info.net/jean_lacroix/bio2.htm
(1) Sionistas: foi um movimento cristão, tanto cultural como politicamente, fundada em 1899 por Marc Sangnier (1873-1950) e de auto-dissolvido em 1910, quando os papas condenado por lesar tradição. O movimento, que desejava conciliar o catolicismo com a República e com a classe operária, teria contado até meio milhão de membros.
http://lucky.blog.lemonde.fr/2009/04/10/pour-mauriac-ne-pas-confondre-%C2%AB%C2%A0silloniste%C2%A0%C2%BB-et-%C2%AB%C2%A0sioniste%C2%A0%C2%BB/
Gravura: Jean Lacroix (em destaque)
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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Introdução aos existencialismos.

Introdução aos existencialismos - Emmanuel Mounier

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Nesta interessante obra, o filósofo francês Emmanuel Mounier faz uma reflexão panorâmica sobre a filosofia existencialista em sua diversidade de temas e abordagens, desde o seu nascedouro na antiguidade grega até a contemporaneidade.
Emmanuel Mounier faz-nos perceber que não existe uma exclusiva “filosofia existencialista”, pois a preocupação com o problema do homem envolvido na existência, e, existencialmente tentando entender a realidade, mesmo que de maneira rudimentar, fora abordada muito antes dos filósofos tidos como pais do existencialismo e da vertente contemporânea que assumiu o epíteto “filosofia existencialista”, e, de maneira vária, continua sendo abordada, por crentes e céticos, por diversos pensadores e diversas escolas. Por isso sua obra é intitulada “Introdução aos existencialismos”, ou seja, de maneira panorâmica Mounier nos apresenta os diversos existencialismos e suas vertentes.
Trata-se de uma abordagem inclusiva sobre os vários existencialismos, desde a sua raiz, antes mesmo de assumir a nomenclatura “existencialista” - em Sócrates, com sua preocupação de incitar o homem a se auto conhecer, se opondo as preocupações de ordem cosmogônicas, como também a intensa busca pelo princípio físico (arqué) que caracterizou a filosofia dos primeiros filósofos que o antecederam, até a filosofia existencialista contemporânea, precedida pela angústia Kierkigaardeana, que se levantou contra o absolutismo sistemático traçado pela filosofia de Hegel, onde tudo se encaminhava de maneira sistêmica e ordenada.

Além de descer até a raiz existencialista, o autor personalista aborda os existencialismos modernos e contemporâneos, por ele figurado como tronco e galhos da filosofia existencial. O personalismo nessa obra é apresentado como um dos galhos, como uma das últimas e atuais manifestações da filosofia da existência.

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Lailson Castanha

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MOUNIER, Emmanuel. Introdução aos existencialismos. Lisboa: Moraes editora. 1963.

Gravura: árvore existencialista elaborada por Emmanuel Mounier, impressa no livro Introdução aos existencialismos.

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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Juan Manuel Burgos Velasco e a continuidade da nova filosofia personalista.

Juan Manuel Burgos Velasco (11 de setembro de 1961 , Valladolid, Espanha). Filósofo personalista espanhol.

Recebeu seu doutoramento em astrofísica pela Universidade de Barcelona, na cidade de Barcelona no ano de 1988 e em Filosofia na Università Pontificia della Santa Croce, na cidade de Roma, em 1992.
Professor de psicologia na Universidade San Pablo CEU de Madrid, e no Instituto João Paulo II Madrid, membro do Instituto Internacional Jacques Maritain, em 2007, professor convidado na Universidade Galileo, Guatemala. No mesmo ano, tornou-se professor honorário no Instituto de Ciências da Família da Guatemala pela sua contribuição às ciências da família através de seus estudos de antropologia.

Dedicando-se ativamente para a investigação e difusão da filosofia personalista, Juan Manuel Burgos foi professor convidado nas universidades de Roma, México, Argentina, Uruguai, Paraguai, Guatemala e Colômbia. Ele é fundador e atual presidente da Associação Espanhola de personalismo, AEP, uma instituição dedicada a desenvolver e promover o personalismo, através de publicações, seminários e congressos internacionais sobre os pensadores personalistas, como Karol Woityla e Julian Marias.

Como filósofo, uma das grandes preocupações de Burgos, é apresentar a Filosofia Personalista como grande novidade, e como grande potência filosófica, apresentando nomes como Maritain, Mounier, Karol Woityla, Max Scheler, Nedoncelle e Gabriel Marcel como arquitetos ou construtores da filosofia personalista. O filósofo espanhol, faz questão de apresentar a filosofia personalista como efetivamente uma filosofia e uma filosofia viva, que não se limita a sua vertente francesa, como também, não findou com a morte de Emmanuel Mounier seu principal nome. Segundo Burgos, a filosofia personalista é muito mais extensa do que a matriz francesa manifestada nas páginas da Esprit, ouve uma continuidade na filosofia personalista, tanto em solo norte americano, quase que independente da vertente francesa, por exemplo, na obra de Edgard Sheffield Brightman, como também em território europeu, como na Polônia com K. Wojtyla; na Itália com autores como Stefanini, Pareyson, Carlini, Buttiglione; R. Guardini, F. Ebner , nos domínios da lingua alemã com Hans Urs von Balthasar e de língua espanhola, com J. Marias, A; Lopez Quintas, Carlos Diaz e outros .
Apresentando o personalismo como uma nova filosofia, Burgos procurou destacar os temas que envolvem o ideário personalista, que, por tratar a questão da pessoa, por conseguinte, abordou e aborda assuntos que direta ou indiretamente corrobora a ideia do universo da pessoa, como tema central da filosofia, como: valorização da pessoa diante das coisas, importância da afetividade para a construção de uma sociedade saudável, a necessidade da comunicação, que abrange a comunicação familiar e interpessoais para a formação da pessoa, homem e mulher, como duas distintas maneiras de ser pessoas, filosofia como tentativa de buscar a transformação da sociedade, em detrimento a filosofia como mero exercício acadêmico, valorização das necessidades fundamentais do ser humano, lembrando de sua formação integral como um ser de dimensões transcendentes e imanentes.
Em sua pesquisa, Burgos ressalta que, na busca pela valorização do aspecto transcendente do ser humano, a filosofia personalista inspirou-se na tradição judaico/cristã e nas questões imanentes, nas tradições de filosofias da existência. As inspirações da filosofia personalista também indicam a profundidade dessa filosofia, em outras palavras, o personalismo efetivamente é uma filosofia, como bem afirmou Mounier, em seu bojo, percebe-se elementos que caracterizam uma filosofia profundamente construída. No influxo cristão sobre o personalismo, por exemplo, não há como negar uma metafísica personalista. Sendo uma filosofia bem fundamentada, será que o personalismo está fadado a morte por conta da vivência da pessoa, como deu a entender Ricoeur em um de seus artigos? Burgos crê, que Ricouer não percebeu a abrangência do personalismo, por isso profetizou a sua morte após a afirmação da pessoa. Segundo ele, os outros personalistas ajudam a mostrar um personalismo mais abrangente do que aquele percebido por Ricoeur. Dialogando com eles já se percebe uma metafísica personalista, uma fenomenologia e até mesmo uma teologia.

Além de dirigir duas coleções de filosofia em Word Publishing, editora espanhola que publica livros, revistas e CD-Rom visando a formação humana e espiritual da pessoa e da família, Juan Manuel Burgos publicou numerosos livros e artigos, especialmente sobre personalismo, antropologia filosófica, bioética e sociologia da família.

Dentre os seus livros, podemos destacar: La inteligencia ética. A proposta de Jacques Maritain, 1995; El personalismo. Madrid:2.ed. Palabra, 2003; Antropología: una guía para la existencia. Madrid: 2. ed. Palabra, 2005; Diagnóstico sobre la familia. Madrid: Palabra, 2004 e Para comprender a Jacques Maritain. Madrid: Mounier, 2006.
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Lailson Castanha
FERNÁNDEZ, José Luiz Canãs . Universidade Complutense madrid: Renacimiento del personalismo? Anales del Seminario de história de la filosofia, 2001.
Gravura: Juan Manuel Burgos

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O despertar personalista.

A Filosofia Personalista, em sua matriz francesa, se desenvolveu vigorosamente através do esforço de Emmanuel Mounier e demais filósofos, posteriormente chamados de personalistas, em buscar respostas para a questão da crise da pessoa humana na atual civilização – considerada por Mounier como civilização da desordem estabelecida – onde as coisas, os negócios, e o coletivismo são mais valorizados do que a pessoa em sua integralidade. Como alguns filósofos, eu também fui despertado por essa questão.
O despertamento personalista não encerrar-se no ato de despertar, no ato de perceber. A ação deve ser o ato consequente do despertar. Após acordarmos da distração que dante nos envolvia, não podemos permanecer parados, olhando a continuidade de práticas equivocadas. O despertar filosófico, tem que nos levar ao engajamento, ao compromisso em prol de mudanças em favor de uma ambiência histórico social que propicie a vivência integral da pessoa humana. Não podemos encerrar nosso despertar nas desafiadoras leituras de textos personalistas. Temos que aceitar o desafio provocada na prática da leitura e partir para a ação que ela nos incita.
Sabemos que a decisão não é fácil, ela naturalmente nos levará à confrontos - primeiro consigo mesmo, posteriormente, com ideias, coisas e pessoas. Ademais, nenhuma ação deve ser tomada sem orientação.
Apesar da dificuldade de se tomar decisão, decidir em prol da ação, sempre será a opção mais correta, pois agir é imprimir uma marca pessoal na história, é fazer parte dela, é dar liberdade criativa à peculiar vocação de pessoa humana, ou seja, vocação de comunicação, de interação, em uma palavra, de participação. Negar a ação, é negar-se a si mesmo, é negar a nossa condição de pessoa, vivendo uma aviltante existência demissiva, em que negamos o nosso fermento para construção do histórico e progressivo pão de cada dia, se bastando na alimentação de fatias ainda não ideais do progresso histórico, fermentada pelo notável esforço e ação de muitos.
Não estamos sós, ainda existem pessoas que vivenciam a sua condição natural de artífice, sem esquecer que toda a ação, é fecunda, toda ação, provoca uma reação. Mesmo no aparente isolamento de nossos esforços, lembramos com Mounier que “a história recompensa aqueles que se obstinam e que um rochedo bem situado corrige o curso de um rio”.(1)
Lailson Castanha
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(1) MOIX, Candide. O pensamento de Emmanuel Mounier. São Paulo, Paz e Terra: 1968.
Apud. MOUNIER, Emmanuel. Les Certitudes dificiles, 286p.
Gravura: Obras personalistas editadas em língua portuguesa
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segunda-feira, 26 de julho de 2010

Afrontamento personalista aos existencialismos pessimistas.

A filosofia existencialista acentuando os problemas existenciais, problemas que envolvem o ser humano, que impregna a existência humana, em sua vertente pessimista desconfia da possibilidade da existência de um prévio sentido para a vida que nos anima. Segundo essa linha de pensamento, não há nenhum sentido, não existe sentido metafísico, nem ao menos nenhuma base ontológica por trás da mortal existência. Estamos sós, ou seja, só existe a existência do existente físico, a existência concreta, e como tal, existência vazia de significação. Diante dessa fastiosa situação, como seres concretos e únicos devemos criar, ao menos, condições que possibilitem uma vivência menos dolorosa , uma ordem que propicie uma existência onde cada um possa exercer sua liberdade em conformidade com a liberdade do outro, uma liberdade com responsabilidade.
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Pensando de maneira muito próxima ao que posteriormente viera a ser tratado como existencialismo, já afirmara Karl Marx: “Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência”(1).Apesar de não ser contado entre os pensadores existencialistas, podemos interpretar sua destacada assertiva como um pensamento existencialista, entendemos que a sua afirmação em destaque elucida e sintetiza bem o pensamento do existencialismo. Cremos que não seriamos levianos se aproximássemos a citada ideia de Marx com a celebre afirmação de Jean-Paul Sartre: a existência precede a essência.
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Diante das duas afirmações em destaque, podemos compreender a filosofia existencialista. Na ambiência existencialista crê-se que fora da concretude existencial não existe nada de fundamental, não existe nenhuma lei basilar que oriente o ser humano em sua jornada existencial, a modo de Protágoras, o existencialismo também crê que “o homem é a medida de todas as coisas”.
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Apesar de entender a principal questão que incita a filosofia existencialista, não podemos deixar de perceber alguns dilemas que ela constrói, levando-se em consideração sua não aceitação a qualquer possibilidade ontológica.
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Contra os metafísicos é direcionada pelos existencialistas pessimistas toda espécie de expressões que os definem como fracos, tímidos e supersticiosos - pelo fato deles não desprezarem possibilidades metafísicas. Também, as questões por eles problematizadas são colocadas como delirantes, infundadas, que, por não serem concretas, não podem ser tratadas como questões sérias.
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Realmente o apegar-se excessivamente a ideias que estão fora ou que não dizem respeito a nossa existência concreta, beira a uma renúncia existencial, se aproxima, como diria Mounier, de um delírio, fruto da não aceitação da massiva e pesada existência. Mas, por outro lado, a não aceitação de possibilidades ontológicas, não indica uma espécie de malgrado com questões que não dominamos, que, por sua natureza metafísica não são clarividentes, como o são as questões de ordem existenciais? Não seria apropriado também, apresentarmos como delirante, demissiva e infundada, toda atitude que prefere desconsiderar problemas que não domina, desfazer-se de temas que não estão desvelados e de possibilidades que se levantam, pelo simples fato de por hora, não serem dominadas pelo saber humano? Rejeitar, refutar, tentar esconder o que não domina, não se configura como um malogro, não seria essa, uma atitude de má fé?

Lailson Castanha

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(1) MARX, Karl. Economia, política e filosofia. ~Tradução de Sylvia Patrícia. Guanabara: Melso sociedade anônima, 1963.
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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Pessoa, Existência e Educação.

A filosofia personalista visando exaltar a integralidade da pessoa humana – encontra no tema “educação” um dos caminhos para abordar de maneira adequada a importância da construção de uma sociedade personalista e comunitária como um meio de possibilitar a vivência da pessoa na comunidade humana.
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No livro “Pessoa, existência e Educação”, o filósofo Adão José Peixoto apresenta com qualidade linhas gerais do personalismo de veia mounieriana, traços da carreira existencial de Emmanuel Mounier, o mais influente defensor da filosofia personalista. Aborda também as estruturas que constroem o universo pessoal, as relações personalistas – leitura personalista do cristianismo, aproximações e distanciamentos do personalismo com marxismos e existencialismos.

Depois de apresentar traços que formatam o personalismo, o Prof. Adão aborda a questão da educação. Transformando o tema num problema, poderíamos afirmar que, quando fala de educação – a obra de Adão José Peixoto – entra nas seguintes questões:

Qual é a finalidade da educação?
Como seria uma possível educação personalista?
Quais os movimentos que constroem uma possível pedagogia personalista?

Se o livro não traz respostas definitivas, pelo menos desperta o leitor para pertinência da filosofia personalista, bem como, sua importância para a construção de uma pedagogia que leve em consideração a dimensão pessoal do educando, a necessidade de uma educação que leve em conta o universo da pessoa, que trate o ser humano como um ser singular, que estimule os envolvidos à prática da comunicação e a participação efetiva nos projetos comunitários.

É um livro singelo, mas não deixa de cumprir o seu papel de provocar e despertar o leitor a questões, se não totalmente adormecidas, ainda sonolentas.

Adão José Peixoto é Mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica em Campinas (PUC Campinas), Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Professor na Faculdade de Educação da universidade federal de Goiás (UFG) e coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em fenomenologia da faculdade de educação da UFG. É autor e organizador de várias obras, como: Filosofia, educação e cidadania, Editora Alínea, 2001; Interações entre fenomenologia & educação, Editora Alínea, 2003; Formação de professores: política, concepções e perspectivas , Editora Alternativa, 2001; Concepções sobre fenomenologia, Editora da UFG, e A LDB do Estado de Goiás: análise e perspectivas, Editora Alternativa, 2001, além do já citado Pessoa, existência e educação, Editora Alínea, 2009.
Foi um dos palestrantes do I Encontro - Mounier, testemunha de seu tempo realizado na USP.
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PEIXOTO, Adão José. Pessoa, existência e educação. Goiânia: Ed da UCG, Alínea, 2009.
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sábado, 22 de maio de 2010

Reafirmando o personalismo como uma filosofia do engajamento em prol da pessoa.

O livro bíblico de Gênesis, logo em seu início, narra a tragédia do homem, a tragédia causada pelo pecado original, pecado esse que desencadeou na falência do homem e a sua consequente morte. A fatalidade dessa trama não se encerra na morte do homem enquanto um ser físico, se estende a todos os lugares perpassados por sua presença e a todos os projetos em que ele se envolve – mesmo sendo esses, bons projetos. Por conta disso, não basta agir de boa fé, faz-se necessário sempre, avaliar e reavaliar os projetos.
O apóstolo Paulo de Tarso dá-nos uma lição importante. Sabendo da inconstância de nossas motivações, e consequentemente da facilidade de nos desviarmos de nossos ideais, por conta da fraqueza que a queda nos imprimiu, afirma num sério tom admonitório: "Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos." (2Co 13.05).

O personalismo é uma filosofia que tem como sua principal diretriz, a ação engajada em prol da pessoa. Igualmente a qualquer filosofia, não deixa de ser um projeto formatado por homens. A ambiência em que as ideias personalistas são defendidas também é constituída por seres humanos – homens e mulheres ainda em construção, definindo e redefinindo o projeto de suas vidas. Nessa ainda construção, muitas ideias são reavaliadas, muitos projetos podem ser abandonados, - trocados por outros, ideais podem extraviar-se, ou quem sabe, já se perderam a tempos. Nesse ambiente de incertezas que assola a danada existência do homem, e que, consequentemente, envolve a ambiência personalista, a reflexão do apóstolo Paulo apresenta-se com grande pertinência. Embora o alcance dessa reflexão apostólica deva ser muito mais extenso, encaminho-a em particular, para os homens e mulheres, que de uma forma ou de outra, se envolveram no belíssimo projeto personalista, tão bem encarnado na pessoa de Emmanuel Mounier, de lutar contra a engenharia antipessoal promovida e legalizada pela desordem estabelecida que rege a nossa civilização, visando a instauração de uma comunidade personalista e comunitária onde as pessoas e não as coisas, onde a pessoa e não o título que representa seja a primazia.
A questão levantada aqui, como levantou o apóstolo Paulo aos crentes de Corintos, é se os companheiros personalistas ainda então compromissados com os ideais que os fizeram comungar. Se estão engajados nos projetos dantes defendidos com tanto amor pelos construtores da filosofia personalista e comunitária em prol da derrubada da desordem estabelecida.
Engajamento é uma palavra por demais forte para ser apresentada sem o viço e energia que ela incorpora. Essa palavra forte, é uma das palavras basilares do personalismo de raiz mounieriana; sendo assim, tão certo como o termo forte "engajamento" não pode ser enfraquecido, a filosofia construída a partir do conceito que esse termo representa, de forma alguma pode ser enfraquecida, ganhando contornos diferentes das linhas fundamentais já traçadas. Como personalistas, não podemos nos apegar apenas a discussões filosóficas ou nos nomes que direcionaram os temas, e com isso, nos esquecer do compromisso de se envolver e agir. Essa acentuada fixação, faz-nos a modo dos idólatras, apegados a imagens símbolos e formas, e nesse apego, preso na inércia contemplativa.
Personalismo sempre será a filosofia do engajamento em prol da pessoa e de uma comunidade que garanta a liberdade da autêntica vivência da pessoa humana.
Filósofo personalista sempre será um ser humano compromissado efetivamente nas propostas estabelecidas através do diálogo, em prol da construção de uma comunidade personalista e comunitária. Negar a efetiva vivência desse compromisso, é negar a filosofia personalista, é negar o envolvimento em prol da pessoa humana.
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“Porque não basta compreender, é preciso fazer. O nosso fim, o fim último, não é desenvolver em nós ou em torno de nós o máximo de consciência, o máximo de sinceridade, mas assumir o máximo de responsabilidade e transformar o máximo de realidade à luz das verdades que tivermos reconhecido." (1) Emmanuel Mounier

Lailson Castanha
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(1) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Reflexão personalista no Café filosófico São Bento

Pessoa e existência: a dramática existencial no personalismo de Emmanuel Mounier” – 31 de Maio de 2010 – Prof. Dr. Daniel da Costa

O Café Filosófico São Bento acontece às últimas Segundas -Feiras de cada mês no Café Girondino, na esquina da Rua Boa Vista com a Rua São Bento no Centro de São Paulo

O Café Filosófico São Bento acontece no Café Girondino das 17:00h às 19:00h.
Confirmar presença via e-mail: maritain@maritain.org.br

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Fonte: http://culturageralsaibamais.wordpress.com/cafe-filosofico/

terça-feira, 27 de abril de 2010

I ENCONTRO - MOUNIER, TESTEMUNHA DE SEU TEMPO - na USP

I ENCONTRO
MOUNIER, TESTEMUNHA DE SEU TEMPO - na USP

uma pedagogia crítica e libertadora

Este evento é uma promoção do Núcleo de Pesquisa e Estudos em Filosofia da Educação

Local:
auditório da Feusp - Faculdade de Educação da USP
Endereço: Avenida da Universidade, 308 - Cidade Universitária

Data:
20 de maio, das 8:00 às 19:30 horas
Das 8:00 às 8:30 recepção
Das 8:30 às 9:00 abertura com o Prof. Antonio Joaquim Severino

Palestrantes:

Adão josé Peixoto (UFG): Razão, pessoa e existência em Emmanuel Mounier
Alino Lorenzon (UFRJ): O sentido da comunidade humana e a nossa condição terrestre
Luiz Alberto Gomes de Souza (UCM): Emmanuel Mounier e nosso tempo

Almoço - das 12:00 às 13:30 h.
Mesa 2 - das 13:30 às 16:30 h.


Antonio Joaquim Severino (USP): Desafios da formação humana no mundo contemporânea: contribuições do Personalismo de Emmanuel Mounier
Carlos Roberto da Silveira (FECAPA): 60 anos da morte de Emmanuel Mounier e a novidade pós-personalista
Fraklin Leopoldo e Silva (USP): Personalismo e existencialismo

Café - das 16:30 às 16:45 h.
Mesa 3 - das 16:45 às 19:30 h.


Balduino Antonio Andreola (UNILASALLE): Emmanuel Mounier e Paulo Freire - por uma educação crítica e libertadora
Daniel da Costa: "Didascalicon" de Hugo de São Vitor,e Le Petit Peur du XX" "siècle" de Emmanuel Mounier: Natureza, técnica e o mundo do dinheiro - Uma leitura comparada
Constança Marcondes Cesar (PUCCAMP): Atualidade do conceito de pessoa: Ricoer e Mounier.
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Alberto Guerreiro Ramos e a pessoa negra.

O sociólogo Guerreiro Ramos nascido na cidade Baiana de Santo Amaro em 1915 e morto na cidade norte americana de Los Angeles no ano de 1982, foi um pensador fortemente influenciado pelo filósofo francês Emmanuel Mounier e pela filosofia personalista de sua inspiração. No ano de 1966, Guerreiro deixou o Brasil fixando residência nos Estados Unidos da América.
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Guerreiro Ramos tinha como um de seus temas principais a ressalva de ser o negro uma pessoa humana, e como tal, um ser humano, que por sua constituição, comum a todo o ser humano, jamais deveria ser figurado com esteriótipos que o desvincule da sociedade humana como um todo. Ramos, procurou separar as ideias que se fazem do negro, da efetiva pessoa negra, do negro real, ou seja, do negro pessoa humana. Com isso, destacou a existência figurativa do negro tema, aquela figura alvo de especulações acadêmicas, da genuína vida do negro, a saber, o negro real, o negro personagem existencial que no dia a dia constrói a sua pessoalidade. O sociólogo baiano defende a ideia de que a minoria branca brasileira na ânsia de se identificar com a estética branca europeia, trata o negro como um tema, para que, na figura de observador, se separar definitivamente do objeto de estudo que rejeita, tentando com esse distanciamento, reafirmar sua identidade branca.
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Além de lecionar em várias universidades no Brasil e no exterior, e de escrever numerosos livros sendo esses traduzidos para vários idiomas, Guerreiro Ramos também participou da política partidária brasileira, tendo sido deputado federal pelo Rio de Janeiro, além de ser membro da delegação brasileira na ONU.

Lailson Castanha
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domingo, 3 de janeiro de 2010

Personalismo: uma filosofia do diálogo. Acolhimento e afrontamento a marxismos e a existencialismos.

Ao Prof. MS. Isaar Soares de Carvalho, que me ajudou na orientação, para o desenvolvimento desse trabalho.
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Introdução
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O personalismo mounieriano é uma filosofia que tem o diálogo como base e motivo de ser. Desde o seu início o diálogo foi um fator decisivo que levou os pensadores personalistas esmerarem e a delinearem com mais clareza e convicção os temas em que estavam envolvidos. Os temas personalistas não surgiram de um ambiente isolado, em um mundo fechado anuviado por idéias particulares. Pelo contrário, surgiu a partir da chamada de atenção de outros grupos e pela necessidade de atender a essas chamadas. Por isso, podemos tratar o personalismo como uma filosofia do diálogo, como bem podemos também, tratá-lo como uma filosofia do engajamento e do envolvimento. Emmanuel Mounier assevera que o tema central do personalismo é a ação – mas a ação por si só não leva a nenhum avanço. Toda ação, para se que tenha sentido, tem que partir de um problema, tem que ser um combate ou resposta á um problema – sem esta caracterização, a ação torna-se por si só vazia e sem finalidade.
Para se chegar ou se perceber um problema filosófico-histórico-social, faz-se necessário estar envolvido e entranhado no contexto de cada problema. Por outro lado, para se combater um problema de maneira mais fecunda, não basta apenas estar situado na ambiência do problema, é necessário conhecer o problema em vários prismas. Para que isso seja possível, deve-se conhecer o problema a partir de uma situação próxima, e, também, de um ângulo distanciado, para que a caracterização do problema seja dada de maneira mais apropriada possível, principalmente em se tratando de um problema de grande complexidade. Interpretar o problema, a partir dum posicionamento muito próximo, pode redundar num erro, já que a proximidade só nos mostra o problema enquanto presente, enquanto aqui-agora. Geralmente, este tipo de interpretação, não leva em conta a anterioridade nem a posteridade do problema por estar envolvido diretamente com as demandas da atualidade. A interpretação de quem está distante, por não estar envolvido diretamente, tem a qualidade da observância fria e imparcial – sendo que isso também é o seu ponto negativo, pois devido à distância, a análise é quase que insensível feita sem a preocupação com as demandas atuais geradas pelo problema.
Entendendo esta dualidade interpretativa, de quem analisa o problema filosófico-histórico-social de perto e de quem estuda de longe, percebendo a existência de ênfases diferenciadas, o personalismo, como filosofia da pessoa nasce com a intenção de dialogar com as diferentes abordagens interpretativas do problema filosófico-histórico-social de sua época, percebendo que com esta ação dialogal, o problema do homem situado pode ser tratado de forma mais abrangente.
O personalismo é a filosofia do diálogo, porque, através do diálogo com os vários existencialismos, se preocupou em conhecer o problema do homem em seus mais vastos campos existenciais, mas, sem deixar de procurar a solução para o problema do homem na sociedade em que está inserido – principalmente em suas necessidades triviais suprida pelo trabalho, problema este, despertado com muita propriedade pelo marxismo.
Tendo como propósito fazer do personalismo uma filosofia para a pessoa humana, seria pertinente para os filósofos personalistas, o diálogo com filosofias que tratassem o problema do homem em suas mais variadas manifestações – realidade esta encontrada com muita riqueza nos diversos existencialismos e no marxismo.
Temos observado que, na filosofia personalista o problema filosófico-histórico-social, em que o homem é colocado como centro da discussão, é tratado como um problema complexo. Na consequente busca de respostas e ideias, os filósofos personalistas buscaram caminhos nos mais variados círculos do pensamento intelectual. Este fato é uma dos fatores que corrobora a afirmação de ser esta vertente filosófica, uma filosofia dialética, construída através do diálogo. Podemos constatar isso, tanto, num dos grandes veículos personalistas – a Revista ESPRIT, com os seus artigos publicados a partir das mentes, das mais diversificadas figuras do pensamento europeu, adivindas dos mais diversificados meios, como também nos livros de grandes autores personalistas como, e, por exemplo, Jean Lacroix, Paul-Louis Landsberg e principalmente Emmanuel Mounier, que insistiam em abordar os temas dos existencialismos e dos marxismos, como problemas a serem tratados ou no mínimo, investigados. Essa insistência e preocupação em não se isolar em um mundo de ideias particulares e por demais anacrônicas e individualistas, levando-os a considerar outras posições intelectuais, patenteia o personalismo como uma filosofia, além de ser a filosofia da pessoa e da ação, uma filosofia do diálogo. Ademais, por ter a preocupação de dialogar com outros sistemas filosóficos não se isolando num único sistema de pensamento, o PERSONALISMO, pode e deve ser tratado como uma filosofia do diálogo.
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Capítulo 1 - O que é o personalismo
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1.1 Outros personalismos
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Falar sobre personalismo, não é das tarefas mais simples. Não é simples porque o epíteto personalismo é usado no vulgo de maneira vária, coisa essa que dificulta a assimilação de quem aborda o tal tema porque já tem inculcado em sua mente conceitos diferentes dos que são tratados num ambiente acadêmico.
É complicado falar em personalismo, também, porque esse termo, além de ser usado no senso comum de forma diferente da usada em ambiente acadêmico, já foi usado por distintas correntes do pensamento ocidental e como tal, apesar de ter o mesmo nome, adotavam idéias diferentes e até mesmo divergentes. Por conseguinte, para dissertarmos sobre o personalismo, faz-se necessário primeiramente separá-lo das idéias do vulgo e de outras correntes do pensamento que se apropriaram do mesmo termo, para depois destacar o tipo de personalismo que iremos abordar.
O mesmo vocábulo serviu como epíteto para outras correntes filosóficas e teológicas, bem como, também é usado no vulgo com outra conotação, uso este que se afasta tanto do personalismo que destacaremos como dos demais personalismos de cunho acadêmico.
O personalismo na qual nos referimos, não é a idéia conhecida pelo senso comum, ou seja, meios políticos, artísticos ou partidários que destacam indivíduos aproveitando-se de seu carisma. Também não se refere à teologia de Friedrich Schleiermacher, que em seu trabalho “Reden an die Gebildeten” (1799; Discursos aos homens cultos), o significou como “crença num Deus pessoal”, que transcende as coisas criadas, diferindo da idéia do deus panteísta.(1)
O personalismo na qual destacamos, não é aquele surgido nos Estados Unidos da América principiado pelo filósofo norte-americano Borden Parker Bowne, (1847-1910), que em seu livro Philosophy and theism (Filosofia e teismo; 1887), defendeu a idéia de um caráter pessoal no universo, na qual, em meio a várias aderências na ambiência filosófica norte americana, foi divulgado pela revista The personalist fundada em 1920 pelo filósofo Ralph Taylor Flewelling (1871-1960)(2). Também não é, apesar de se aproximar em alguns aspectos, o personalismo de Charles-Bernard Renouvier (1815-1903) na qual publicou no ano de sua morte, obra intitulada Le personalisme (O personalismo).
Todos os chamados personalismos que não colocam em evidência a importância da pessoa humana, que não como fruto de uma consciência pessoal a ação engajada, que se distancia do diálogo contextual com sua época, que não apregoa e vivencia o efetivo envolvimento com a sociedade humana, lutando para incitar nessa, uma sociedade de pessoas, que coloca o materialismo acima do humanismo relacional e que se resigna diante de prováveis fatalismos e impossibilidades, acreditando em condições ontológicas já dadas, assentadas e pré-determinadas, não pode ser associado ao personalismo vivenciado pelos franceses colaboradores da Revista Esprit, inaugurado pelo pensador francês Emmanuel Mounier.
Qualquer filosofia que invoca fatalidades e impossibilidades que impeçam o homem transformar a comunidade de homens, nunca pode ser chamada e nem associada ao personalismo comunitário, que é a inspiração filosófica adotada por Emmanuel Mounier e seus demais companheiros de ação. Qualquer filosofia presa e enrijecida em sistemas descontextualizados e impessoais, jamais pode ser considerada identificada ao personalismo comunitário.
Como veremos o personalismo comunitário, não pode ficar preso em sistematizações, pelo fato dessa rigidez ser uma atitude incoerente com a proposta personalista e comunitária de incitar cada ser - humano a pessoalizar-se, formando, por conseguinte, uma civilização personalista vivenciadora da verdadeira comunhão de pessoa com pessoas.
Um sistema de idéias enrijecidas ao contrário da proposta personalista comunitária seria um convite a despersonalização. Sendo assim, filosofias que não levam em conta as peculiaridades de cada lugar e de cada época e cultura, que imprime fórmulas que não levam em conta a singularidade de cada pessoa, fechando-se em sistemas, nunca pode ser tida como um personalismo e sim, uma agressão a proposta civilizatória personalista; seria então um antipersonalismo, independente do epíteto que passe a adotar.
“O único personalismo possível é aquele que tiver em conta a totalidade do ser real.”(3)
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1.2 Personalismo a partir de Emmanuel Mounier
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O personalismo no qual este trabalho pretende destacar é a filosofia defendida pelo pensador francês, Emmanuel Mounier, nascido em Grenoble na França em 1905 e morto em 1950. Diferente das demais filosofias o personalismo é assistemático, é uma corrente de pensamento pertinente aos problemas de seu contexto. Essa pertinência não é ocasional, pois esse movimento filosófico passou a existir como resposta a problemas determinados, em situações e ocasiões especificas. Em seu nascedouro, o problema que se apresentava era a crise da civilização ocidental explicitada após a decorrência da I Grande Guerra Mundial (1914-1919) e nos rumores da realização da II Grande Guerra Mundial (1939-1945). Diante desse quadro, fez-se necessário apresentar a civilização uma nova proposta civilizatória, um novo humanismo, sendo este assentado na importância da pessoa humana(4). Esta resposta, oriunda das inquietações e de profundas ponderações de vários intelectuais franceses, juntamente com colaboradores de outros países, foi a oferta dada pelo círculo que passou a se chamar “personalismo”. Emmanuel Mounier trata o termo ‘personalista’ como
“toda a doutrina, a toda a civilização que afirme o primado da pessoa humana sobre as necessidades materiais e sobre os sistemas coletivos que sustentam o seu desenvolvimento”.(5)
Sobre este fundamento se engajou na luta de evidenciar a importância da vocação de todo o ser humano, ou seja, vocação de “pessoa”. Esta vocação está ligada diretamente com a vocação de comunicação e com a necessidade de pessoalização. Sem a vivência dessas expressões, o ser humano não se manifesta como pessoa, passando a viver uma vida aviltada, diminuído de sua condição integral. Se o personalismo tem a comunicação como vocação natural de todo ser humano, coloca também sobre o homem a necessidade de se engajar em favor da comunidade humana. Um homem que se personaliza, que percebe a necessidade de sua pessoalização, não pode negar a mesma necessidade no outro, por isso, deve ele lutar por uma comunidade que leva em conta as peculiaridades fundamentais de cada homem, lutando para que cada homem se aproxime e nessa comunicação se respeitem. Corroborando esta idéia, Mounier afirma: “Se a vocação suprema da pessoa é divinizar-se divinizando o mundo, personalizar-se sobrenaturalmente personalizando o mundo, seu Pão cotidiano não é mais penar ou se divertir, ou acumular riquezas, mas, hora a hora, criar próximos ao redor de si”.(6)
No ideário personalista é defendido que se deve lutar incansavelmente para despertar em cada ser humano a necessidade de se pessoalizar, pois a vivência deste imperativo fará o homem se divorciar do materialismo, fazendo-o conhecer e entender as coisas fundamentais para a sua existência. Usando uma linguagem cristã, Mounier afirmou: “peco contra a pessoa, toda vez que me abandono a esse anonimato e a sua irresponsabilidade” . Esse anonimato irresponsável, não é outra coisa que o esconderijo da pessoa no mundo impessoal. Continuando sua assertiva, Mounier se coloca na posição de pecador toda vez que força “um homem vivo a se identificar com uma de suas funções”.(8)
A partir dos posicionamentos de Emmanuel Mounier pode-se apresentar o personalismo como uma filosofia formatada em bases teológicas. Essa filosofia tem como preocupação conduzir o homem à essência de si próprio, separando-o assim de toda espécie de identificações ideológicas e institucionais impessoais. Defende a vivência do homem integral-real em detrimento ao homem departamentalizado vivenciado pelas culturas capitalistas, comunista ou nacionalista, onde ele é identificado pela condição ou papel social que exerce, pela classe que representa ou pela sua nacionalidade. É importante a ressalva de que a base teológica que inspirou o personalismo foi o Cristo como à palavra encarnada. Influenciado por este princípio, no personalismo, as idéias devem inaugurar ações engajadas, as idéias devem se encarnar na vida de quem as defende.
No personalismo é fundamental o alcance da personalidade por parte do sujeito humano e sua percepção como pessoa distinta e peculiar, juntamente com o entendimento de que o próximo é também dotado desta dignidade. Na base deste entendimento, o pensador de Grenoble afirmou que
“a igualdade espiritual das pessoas, seu direito natural de realizar-se em comunidades de sua escolha vai além não somente das fronteiras das nações, mais além das fronteiras das raças”.(9)
É muito importante na filosofia personalista a noção de civilização comunitária personalista, ou simplesmente, civilização personalista. Trata-se de uma civilização que leva em conta as necessidades pessoais de cada indivíduo que a compõe. Sabendo que, por necessidades pessoais, entende-se, no ideário personalista, não a realização de projetos individualistas, mas a realização ou a facilitação estrutural que permite a cada indivíduo vivenciar as suas vocações e exercer responsabilidades que dizem respeito tanto a si próprio, como também a coletividade. Para a construção da civilização personalista e comunitária faz-se necessário a prática do acolhimento e do afrontamento.
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1.3 Acolhimento e afrontamento
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Por acolhimento, podemos entender a aceitação da pessoa no que se refere a sua realidade existencial sem a negação de sua existência e, por afrontamento, entendemos todos os movimentos do homem na sua efetiva participação na existência visando transformar aspectos da realidade que se apresentam hostis.
A prática acolhimento/afrontamento deve existir em todos os aspectos da existência, seja na recepção de uma idéia – que só pode ser levada a sério a partir do desejo inicial de entendê-la e por outro lado, não pode ser recepcionada sem o afrontamento de suas elaborações com as possibilidades da realidade e com o seu entendimento pessoal, seja no aspecto social.
Quanto à sociedade, só podemos entendê-las se a acolhermos. Com o acolhimento vem o interesse em entender os seus problemas e as suas soluções. O afrontamento é a atitude posterior de confronto da realidade vivenciada com uma nova proposta. O afrontamento rejeita a desordem legalizada e impessoal a que Mounier chamou de “desordem estabelecida” apresentando uma nova proposta civilizatória assentada na valorização da pessoa humana, a “civilização personalista e comunitária”.
Por ter a preocupação de assentar, identificar e perceber o indivíduo em seu ambiente existencial, o personalismo é por princípio, um existencialismo. Esse assentamento do indivíduo na existência é o laço que une o personalismo a essa expressiva corrente filosófica. O próprio filósofo Emmanuel Mounier fazia questão de identificar o personalismo como um existencialismo, tanto que, em seu livro “Introdução aos existencialismos” ao desenhar uma “árvore existencialista”, colocou o personalismo como parte de um de seus galhos. Essa árvore é enraizada por Sócrates, pelo estoicismo e o agostianismo, tinha em seu tronco o filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard. Cada escola ou linha filosófica que partira dos princípios existencialistas iniciados por Kierkegaard, e que, por sua vez o transformou ou aprofundou seus conceitos, foram distribuídas em galhos ou ramos. Numas das extremidades dos galhos, na copa da árvore, se encontra o personalismo, juntamente com filosofias e filósofos como, a fenomenologia, Jaspers, Teologia Dialética, Nietzsche, Heidegger, J.P Sartre, entre outros.(10)
Entendendo que o personalismo se nutre de temas existencialistas, podemos aceitar o elemento existencialista do personalismo, sem deixar de ressaltar que visa ultrapassar as respostas existencialistas, apresentando diferentes propostas e resposta a sociedade humana. O mesmo se dá com a proposta marxista. O personalismo acolhe a sua pertinência, porém sem deixar se acomodar em suas aparentes soluções.
Tanto a marxismos quanto a existencialismos, o personalismo age com acolhimento e afrontamento, nunca dispensando a importância da chamada de atenção dessas linhas do pensamento, mas também, tomando a liberdade de discordar e afrontar suas propostas e posicionamentos, apresentando propostas entendidas como mais apropriadas para a construção de uma civilização mais humana – uma civilização personalista e comunitária. A própria atitude de acolhimento e afrontamento, impede de o personalismo cair no erro das sistematizações enrijecidas que prendem a mente e as ações do homem em modelos inadequados, impedindo-os de vivenciar de forma apropriada as novas perspectivas sociais e históricas que, por seu dinamismo, sempre nos ocorrem.
Tendo uma conexão direta com o existencialismo, passaremos a destacar as aproximações do personalismo mounieriano com o existencialismo a partir de Kierkegaard. Destacaremos o apreço de Mounier com alguns temas existencialistas e a maior afinidade de sua filosofia com esse pensamento filosófico.
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Capítulo 2 - Personalismo e existencialismo
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Que entre existencialismo e personalismo existem muitas coisas em comum é uma ideia aceita quase que sem nenhuma discordância. Como já foi destacado, o próprio Emmanuel Mounier em sua árvore existencialista ligou sua filosofia ao existencialismo. Mas também é correto afirmar que entre esses dois sistemas existem questões ambivalentes. Entender o porquê de tamanha aceitação e tamanha divergência são coisas que ainda precisam ser esclarecidas.
Diante disso, faz-se necessário saber o que é o existencialismo, qual matéria ou quais matérias ligam esses dois sistemas e quais as questões que os afastam.
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2.1 O que é existencialismo
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Por existencialismo entende-se toda a filosofia que tem no homem o seu tema central. Embora as primeiras manifestações de uma filosofia existencialista ocorreram desde a antiguidade, por exemplo, na antropologia Socrática já são percebidos elementos existencialistas, mas, foi na Europa contemporânea que a filosofia existencialista ganhou contornos mais definidos.
O filósofo que primeiro tratou de forma mais aprofundada os temas existenciais que permeiam a chamada filosofia existencialista e que serviu de influxo a outros pensadores que o adveio, foi o dinamarquês Søren Kierkegaard. Ele é considerado como o pai do existencialismo. Kierkegaard como existencialista começou a levar em conta a experiência pessoal na reflexão filosófica(11). A partir de então os filósofos posteriores colocam a existência humana como eixo de qualquer problema. Em qualquer discussão, após a trajetória filosófica do pensador dinamarquês, toda a reflexão ou deve se iniciar a partir das impressões existenciais do homem, ou deve passar pela crítica do homem como sujeito existente.
Se antes a filosofia separava um problema de sua pertença existencial, no existencialismo a busca de soluções a problemas levantados é sempre pertinente ao sujeito que investiga, porque o problema levantado na filosofia existencialista está sempre ligado ao sujeito inquieto. No existencialismo, os temas estão diretamente ligados à realidade humana.
Temas como o sentido da vida, angústia do homem diante da morte, problema da liberdade e necessidade de tomadas de decisão, afirmação do homem pessoal diante das coisas, são temas que permeiam o ambiente intelectual existencialista. Além de Søren Kierkegaard, filósofos como os alemães Martin Heidegger e Karl Jaspers os franceses Jean-Paul Sartre, Gabriel Marcel, Merleau-Ponty, e o franco-argelino Albert Camus, esses os mais destacados dentre muitos, tratavam esses assuntos de forma profunda e exaustiva.
O existencialismo se destaca por vivenciar aspectos distintos. Em seu ambiente intelectual é nutrido tanto atitudes ateístas como religiosas, mais especificamente cristã.
Na corrente existencialista ateísta, toda a lógica da vida, assenta-se apenas na existência humana, não é uma lógica intrínseca, mas uma lógica construída, atitude totalmente coerente com a conhecida assertiva de Sartre - “a existência precede a essência”. É o homem com sua existência que deve criar um sentido existencial. O sentido não está dado, tem que ser criado pelo homem para que não viva um grande vazio. Ele deve se engajar em projetos humanos, não dando vazão a falta de sentido que o envolve.
O existencialismo cristão em comum com o existencialismo ateísta, aceita o fato de ser o homem a principal questão da existência, mas, diferentemente do ceticismo ateu, defende a ideia de que o sentido da vida não se resume a fatores materialistas. Os cristãos existencialistas acreditam que a fé ameniza a crise que a existência imprime no homem e o auxilia a encontrar sentido além das disposições da matéria. Em outras palavras, o existencialismo cristão admite a crise existencial sem, porém, admitir sua crise como uma fatalidade absoluta e imutável.
A ressalva de que o homem deve lutar para fazer e dar sentido a sua existência ecoou de tal forma nos intelectuais existencialistas a pontos de tê-los transformados em homens de ação, tanto que Sartre como Camus, dentre outros, se envolveram de forma ativa nas questões políticas e sociais, hora panfletando com suas revistas ora combatendo de maneira árdua em comícios ou, no caso de Camus, em alistamento pró-França contra o nazismo, além de sua revista Combat. Nos demais existencialistas a atitude de engajamento também pode ser percebida. J. P. Sartre, por exemplo, fundou o movimento socialismo e liberdade, e, a exemplo de Camus, juntamente com Merleau-Ponty, institui a revista Les Temps Modernes além de colaborar em alguns jornais de cunho socialista.
No existencialismo, dar sentido a existencia de pronto, significa agir. A ação é por demais importante. É através da ação que o homem se constroi e constroi o sentido da sua existência. Por outro lado, sem a ação, tudo torna-se um imenso vazio, consequentemente, a vida então, se arrasta numa sequência de eventos insignificantes.
A existência precede a essência. Diante desse pensamento, agir passa a ser essencial, pois, viver sem agir, é viver sem ser, é ser, não sendo. É vivenciar um insulto a condição humana de ser que pensa.
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2.2 Acolhimento aos existencialismos
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Ao afirmar que o existencialismo “é uma reação da filosofia do homem contra os excessos da filosofia das idéias e da filosofia das coisas” , Emmanuel Mounier está a nos indicar a matéria que liga o personalismo ao existencialismo: a preocupação em colocar o homem no centro da questão filosófica, ou, em outras palavras, o tratamento da existência do homem como centro da filosofia.(13)
O personalismo se aproxima do existencialismo na medida em que se preocupa com os problemas do homem, sendo esse, encharcado de existência. Se distanciado do excesso da ¬¬ etérea filosofia das idéias, naturalmente se achega a filosofia concreta da existência onde as problemáticas da temporalidade são questões a serem enfatizadas.
Um personalista, assim como um existencialista busca no temporal compreender um sentido, no tempo-espaço está à procura de uma identidade e se angustia com os aparentes absurdos existenciais. A atitude personalista diante dos problemas da existência é de enfrentamento. Não existe personalismo fatalista, e, muito menos, personalismo divorciado da ação.
A aproximação natural entre as duas idéias fez com que pensadores personalistas estudassem o ideário existencialista. Nessa busca de compreensão ao pensamento existencialista, Mounier percebeu que até os vários aspectos que indicavam um distanciamento de um sistema para o outro, na verdade evidenciava uma aproximação. Em seu livro “A esperança dos desesperados – Malraux – Camus – Sartre – Bernanos", faz-nos acreditar que por detrás da desesperança amarga, os existencialistas pessimistas na verdade nutriam uma esperança, embora esta estivesse maquiada de desespero irreversível. Ele sustenta o seu argumento no fato de que esses filósofos, que apregoavam a falta de significação e a absurdidade da vida, não demonstraram em suas vidas nenhum traço de resignação, coisa que seria coerente com a idéia por eles apregoada da absurdidade da vida e da falta de real sentido.(14)
Para Mounier, a justificação para uma vida não terminar em suicídio, a exemplo dos grandes nomes do existencialismo, reside na idéia de que nela há sentido.
Por outro lado, na insistência dos existencialistas em não se render diante da aparente absurdidade, o personalismo encontrou a matéria que proporcionou um diálogo franco e aprofundado. Corroborou as teses sartrianas da liberdade do homem e da necessidade de se responsabilizar diante dessa liberdade. Sobre isso, Emmanuel Mounier ressalta que o homem coisificado, que vive a modo de uma coisa está negando a sua real condição, e, esse estado em que ele se encontra, não é o pleno estado do homem, na verdade se aproxima a uma demissão vocacional.
Na aceitação dessa tese, percebe-se o personalismo em franca sintonia com os filósofos da existência. O estado negativo do homem em que o filósofo personalista denuncia, que em sua linguagem é tratado como “homem que tenta justificar uma demissão”, encontra similaridade com variantes negativas descritas por existencialistas, como o “divertissement" de Pascal, "estágio estético" de Kierkegaard, a "vida inautêntica" de Heidegger, a "objetivação" em Berdiaeff a satisfação egoística no em-si juntamente com à "má fé" resultante dele, em Sartre”(15). A modo existencialista Mounier afirma que “aquele que invoca fatalidades naturais para negar as possibilidades do homem, abandona-se a um mito ou tenta justificar uma demissão”.(16)
Sendo o existencialismo, um sistema filosófico ligado ao engajamento, a tarefa de perceber algum tipo de diálogo com o personalismo torna-se fácil, já que o personalismo por definição é uma filosofia da ação. O homem personalista, que se percebe como pessoa, naturalmente é um homem de ação, pois se uma pessoa, por natureza, não pode ser impessoal, destarte, deve, por intermédio da ação, se pessoalizar e personalizar o seu mundo. Reforçando a idéia de ser o personalismo uma filosofia do engajamento, Mounier afirma: “uma teoria da ação não é, pois o apêndice do personalismo é seu capítulo central”.(17)
Percebemos na asseveração do maior expoente personalista, que a ação não é um acréscimo ao personalismo, é, pois, uma base. No existencialismo sartriano, por exemplo, temos um homem livre, mas sempre encontrando resistências no existente. A reafirmação da liberdade se dá justamente no enfrentamento do homem livre com a coisa que resiste(18). Esse entendimento se aproxima da visão de existência da filosofia personalista que afirma a existência da pessoa por meio da ação, tanto que Mounier de forma negativa reafirma este princípio: “O que não age não é!”(19). Se aproximando ainda mais do pensamento de Sartre em relação ao esforço para consolidar a liberdade, o filósofo de Grenoble afirma: “A batalha da liberdade não tem fim”.(20)
Na vida prática, percebe-se a coerência desses sistemas como sistemas de engajamento existencial. Os grandes filósofos tanto do existencialismo como do personalismo viviam intensamente aquilo em que defendiam. Numa rápida investigação histórica, pode-se ver Jean-Paul Sartre num palanque em porta de fábrica gritando em prol da causa trabalhista ou um pouco mais atrás, Kierkegaard denunciando na porta da igreja estatal dinamarquesa, a corrupção daquela instituição. Como já foi ressaltado, relembramos que Sartre também foi editor da revista Les Temps Modernes, na qual expôs idéias políticas e filosóficas. Sendo livre, acreditou ser necessário, através de atitudes efetivas, exercer e sustentar a liberdade.
Albert Camus, mesmo sendo recusado de ingressar no exercito francês por causa de uma tuberculose, agiu intensamente contra o nazismo através de sua revista “Combat”, em sintonia com sua filosofia do absurdo em que exalta a necessidade de ação, delineada mais claramente em seu livro: “O mito de Sísifo”. Nesta citada obra, mesmo diante do absurdo existencial vivenciado pelo homem, Camus defende a idéia que o ser humano deve enfrentar a situação de absurdidade que lhe foi imposta, talvez até, diante da possibilidade de nunca ultrapassá-la. O homem, portanto, deve-se revoltar agindo, nunca deve covardemente buscar o suicídio ou a renúncia de sua vida real em idéias transcendentais.
Foi isso o que fez através de sua revista Combat, lutar contra problemas que se afiguravam em sua época, consciente de que se vencesse seria apenas mais uma vitória, e nunca “a vitória” final, pois, problemas e mais problemas adviriam. Como o Sísifo mitológico, que era fadado a sempre levar ao o topo da montanha a pedra roliça que por várias vezes erguera segundo Camus, a empresa do homem é fadada a um insucesso semelhantemente absurdo. Apesar disso, deve agir, pois resignar-se seria se negar.
Ao afirmar “compreender o mundo, para um homem, é reduzi-lo ao humano, marcá-lo com o seu selo”(21) . Camus reafirma a necessidade do homem de viver inteiramente como homem, e foi assim que viveu. Essa posição é corroborada pelo personalista Mounier. Apesar de seu cristianismo Mounier não discordava do filósofo franco-argeliano no que se refere a importância de se aceitar como homem no mundo de homens, e de agir com as ferramentas que como homem dispõe, tanto que afirmara de maneira enfática: “recusar o engajamento é recusar a condição humana”(22) . Apesar de admitir o transcendente, ele não nega a realidade da ação natural do homem a partir da solidão de suas escolhas e da sua responsabilidade(23) . Com isso, pode-se perceber em Mounier a importância da identificação do homem como pessoa-no-mundo, e, como tal, com uma vocação humana.
A exemplo de Sartre e Camus, como já foi evidenciado, Mounier, também agiu encarnando suas idéias incansavelmente. Esse filósofo engajado, por encarnar suas teses foi preso por duas vezes, prisão decretada pela sua resistência a invasão nazista e sua indignação a, até então, passividade francesa.
Mounier justamente com outros filósofos personalistas se envolveu também em batalhas verbais. Por ocasião do desenvolvimento da REVISTA ESPRIT, revista político literária de cunho personalista, fundada por Emmanuel Mounier, temas e fatos diversos eram tratados com acolhimento e afrontamento.
Os filósofos personalistas jamais se cercam de confortos metafísicos para servir de consolo à dureza da crua realidade existencial Não buscam respostas para situações verticais em planos horizontais. Pelo contrário, a natural disposição do filósofo personalista é encontrar respostas em sua situação horizontal. Essa procura de soluções para problemas existenciais deve ser feita através do diálogo. Isso explica o estabelecimento da REVISTA ESPRIT. Essa revista foi criada como uma ferramenta, como busca de esclarecimentos e respostas para situações existenciais vividas na Europa no período pós I Grande Guerra Mundial (1914-1918), subseqüentemente ao pré e meados da II Guerra Mundial (1939-1945). O primeiro número se deu no ano de 1932.
Falando de seu entendimento sobre o significado dessa revista para Mounier, o filósofo brasileiro Antonio Joaquim Severino diz que ela nasceu primeiramente como movimento para responder as “exigências de uma nova geração inconformada com o estado de coisas e com a atitude que diante dele tomava a velha geração”(24).
Como se percebe na assertiva de Severino, a atitude basilar dessa revista é a atitude de engajamento contra o sistema (mal)estabelecido, ou, usando uma expressão idiomática de Emmanuel Mounier, contra a “desordem estabelecida”. Corroborando a mesma tese, Candide Moix, profundo conhecedor do pensamento de Mounier destaca que “o personalismo e o existencialismo, de maneira geral concordam num ponto: a luta contra o sistema” para Moix “ambos afirmam a primazia do existente”(25). O citado pesquisador destaca em seu trabalho em uma abordagem comparativa “existencialismo-personalismo” a seguinte fala do próprio Mounier sobre o existencialismo: “é uma reação da filosofia do homem contra os excessos da filosofia das idéias e da filosofia das coisas”(26). O próprio entendimento de Mounier sobre o existencialismo deixa-nos claro a proximidade que existe entre as duas filosofias. Fica claro que, assim como o existencialismo, o personalismo coloca a questão da essência num plano secundário, colocando em destaque a questão da existência. Em relação a essa disposição, podemos lembrar a fala de Jean-Paul-Sartre que caracterizou a sua filosofia: “a existência precede a essência”.
Essas aproximações/envolvimento com temas existencialistas, além de legitimar a atitude de Emmanuel Mounier de colocar o personalismo como um dos ramos da árvore existencialista(27), evidencia a existência de um diálogo personalismo/existencialismo. Sem esse diálogo não seria possível o personalismo, pois a problemática em que se desenvolveu o pensamento personalista está intricada na base da filosofia existencialista que é o problema do homem enquanto ser existente.
É percebendo o problema do ser que existe, que se destaca a necessidade do envolvimento em prol dessa existência.
Assumir a responsabilidade de procurar saciar as exigências da existência e de lutar em prol de uma existência mais humana foi uma luta em comum do existencialismo e do personalismo. Antes dessa proximidade, existiu a acolhida da filosofia personalista, ou seja, houve o interesse dos pensadores personalistas por esse intrincado tema existencialista.
“O homem não é interessante em si, ele o é por aquilo que o faz realmente homem.”(28)
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2.3 Afrontamento aos existencialismos
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Depois de colocar em destaque aspectos do personalismo que corrobora com alguns existencialismos e por que não, alguns aspectos existencialistas que corroboram o personalismo, passaremos a destacar os pontos de distanciamento; falando numa linguagem personalista mounieriana, buscaremos conhecer os diversos afrontamentos personalistas a levantamentos e apontamentos defendidos por pensadores de inspiração existencialista. Procuraremos então perceber onde a filosofia personalista se distancia do existencialismo, ao mesmo tempo em que aponta para outras idéias e direções.
É sempre importante relembrarmos, que o afrontamento, não significa uma total ou desconsideração radical à filosofia afrontada, mas sim, um ajuste ou um apontamento a outro caminho ou a uma direção mais apropriada.
Quando Mounier tratava temas controversos entre posturas existencialistas clássicas com tomadas de posições personalistas, nunca detratou o pensamento existencialista, quando os rejeitava, nunca fazia numa atitude solitária, sempre era através do diálogo com posturas divergentes que suas posições se firmavam e solidificavam.
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2.4 Afrontando a absurdidade
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Em linhas gerais, a maior desavença do personalismo com os demais existencialismos, se dá na idéia de a existência estar envolvida em um grande absurdo da falta de sentido e por ignorar a totalidade da condição humana.
Rejeitando a este imperativo comumente aceito nos diversos existencialismos, Mounier então afirma: “é absurdo que tudo seja absurdo”(29).
A incisiva negação a absurdidade existencial revela em Mounier uma profunda convicção da existência de um sentido existencial, esta convicção é o que daria o sentido para qualquer engajamento. O sentido da vida seria no personalismo o fundamento para o compromisso comunitário, para qualquer ação visando o benefício de um não-eu. Sem esta convicção em mente, por que então nos preocuparíamos com algo externo a nós mesmos; por que sacrificaríamos nossos desejos pessoais visando beneficiar o outro?
Uma vida sem sentido, se efetiva no apego ao que se apresenta como mais vantajoso a nossos instintos; negar-se em prol do outro, pode ser o indício para algum tipo de sentido, mesmo que este, ainda não esteja nítido à nossa percepção. Diante disso, a primeira ação de qualquer personalista é acolher o homem integral e sua realidade, com sua história e contexto existencial, para poder entender sua postura e seu comportamento.
Sabendo que na maioria das vezes o “sentido existencial” é anuviado pelos problemas existenciais, Mounier, e os demais personalistas não açoitam os existencialistas por conta de suas posições fatalistas, porque entende que suas cosmovisões por demais absurdistas são o retrato de um problema vivenciado na existência, que, de alguma forma, impede-os de entender com clareza, e, por conseguinte, admitir, um sentido existencial.
Mounier, mesmo diante de toda complexidade existencial, e, entendendo esta complexidade, se define em favor da idéia de um sentido pessoal para a existência da vida: “Tenho uma idéia muito nítida, sim, do sentido da minha vida. Compreendei com isso uma impulsão e uma luz antes que uma direção traçada”(30).
Notemos em sua fala, que Mounier não concebe o sentido da vida como uma idéia clara e por demais nítida, contrariando as praticidades, ele entende que o sentido da vida se afigura como um chamado ao engajamento, como um despertamento da pessoa em direção a uma proposta que se apresenta ainda informe, uma luz a ser decifrada. Esta impulsão de que se refere tratada com muita ênfase no personalismo e ignorada na maior parte dos existencialismos, é a vocação. Essa idéia é a mesma formatada em base teológica, oriunda do termo grego Kletos. No grego, vocação conota chamamento; chamado ou convocação.
A vocação da pessoa no personalismo é esse chamamento, num sentido aberto é o chamamento ao despertamento pessoal e ao engajamento, visando proporcionar a cada homem e mulher a vivência de sua integralidade, ou seja, sua vocação de ser pessoa. Vocação é a chamada ao compromisso que cada ser humano, participante da comunidade de homens deve assumir, de vivenciar integralmente sua pessoalidade, desfazendo toda espécie de culturas e atividades que despersonalizem e avilte a sua condição de pessoa.
Mounier afrontou os existencialismos dominantes em sua época com muitas críticas direcionadas a filósofos e romancistas de inspiração existencialista absurdista, por não encontrar neles nenhum apego a idéia de vocação. Não distante desse problema, outro ponto de discórdia, era o profundo ceticismo por parte dos maiores expoentes existencialistas, que não admitiam a possibilidade de transcendência, com isso, engendrando fundamentos para uma disposição de vida apenas materialista, levando o homem a se isolar em si mesmo e em suas conveniências. Essa problemática levou o personalismo a confrontar não só o existencialismo da angústia e da absurdidade difundido principalmente em romances filosóficos, bem como o existencialismo formatado em bases fenomenológicas, mas, colocou a filosofia personalista em afrontamento com o pensamento de maior influência na civilização ocidental pós-moderna – o marxismo – não sem antes exercitar o acolhimento.
Não admitindo um limite materialista da vida, o cristão Emmanuel Mounier, como os demais cristãos integrantes do movimento personalista, não podiam admitir a totalidade de filosofias que descartassem o transcendente. Mesmo que se associasse a boa parte de seus temas e se preocupasse profundamente com os problemas levantados por essas linhas do pensamento filosófico, não abraçava a totalidade de suas propostas e nem absorvia suas respostas limitantes. Apesar da importância da chamada de atenção dos movimentos existencialistas, fez-se necessário ultrapassá-los, apresentando a comunidade humana respostas que levem em conta a totalidade do ser-humano e a totalidade de suas possibilidades.
Os filósofos personalistas franceses do círculo da Esprit entendiam que se faz necessário enfrentar a existência com a sobriedade de quem encara os problemas de frente sem fugir deles, porém, sem jamais apresentar como unicamente sóbria a opção de ignorar as demais potencialidades e possibilidades do homem, essas, que transcendem o material. É necessário levar em conta as necessidades do homem enquanto alguém também material, envolvido na matéria e necessitado de aparatos materiais, sem, portanto, desconsiderar o seu aspecto espiritual, e sua consequente necessidade de também se acercar, proteger e se alimentar de conteúdos, ações, vivências e opções espirituais, e de ter assegurada a busca para o acalento dessas necessidades, em uma comunidade de pessoas integrais.
A proposta personalista, longe colocar o homem no etéreo reino dos idealismos, é na verdade, a de assumir a concretude da vida, entendendo por concretude, todos os aspectos que permeiam a vida real do homem. O personalismo assume a realidade da vivência material de todo o ser humano, sem, porém, desligá-las da totalidade de suas possibilidades, de sua integralidade.
Uma atitude absurdista, que reduz a vida ao orgânico e aos limites materiais, jamais poderia ser abraçada por uma filosofia personalista formatada em bases cristãs.
Foi necessário afrontar a ala absurdista da filosofia existencialista, para mostrar aos defensores do materialismo integral, através do diálogo, a complexidade do ser humano, visando, com essa demonstração, esclarecer no que for possível, a verdadeira condição humana, sua potencialidades, suas possibilidades, os demais campos de suas necessidades, e sua também, condição espiritual. Em relação ao homem integral não existe dualidade espiritual e material, é necessário assumirmos uma postura que leve em conta essa condição integral, para não nos prendermos apenas a realidades parciais. Sendo bastante objetivo, Mounier fala sobre está integralidade do ser humano: “Existir subjetivamente, existir corporalmente são uma e a mesma experiência”(31).
Em Mounier e nos demais filósofos personalistas, é explícita a não aceitação da postura materialista, fatalista e por demais reducionista da ala existencialista ateísta que alcançou forte repercussão na Europa do pós I Grande Guerra e pré/pós II Grande Guerra Mundial. Sendo explícito no existencialismo ateísta o demasiado apego ao homem enquanto ser existente, entendendo com isso descrença de qualquer possibilidade de transcendência por parte desse homem, o maior afrontamento personalista a essa filosofia se deu nesta questão e na crença da absurdidade da vida. Em relação a este problema foram lançadas as bases para a superação do existencialismo, propondo desvencilhar o homem do ceticismo enrijecido engendrado pela filosofia existencialista, apresentando a possibilidade de superação do estado decadente da civilização humana por meio dos ideais e da luta assumida em prol da efetivação dos mesmos.
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Capítulo 3 – Personalismo e marxismo
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Assim como existem muitas coisas em comum entre o personalismo e o existencialismo, da mesma forma, muitas questões que permeiam a ambiência marxista foram, e, ainda são trabalhados pela filosofia personalista. Ou seja, muitas questões que fazem parte do universo marxista também envolvem o personalismo. Diante desse envolvimento, a postura personalista nem sempre é de concordância com as tomadas de posição do marxismo. Muitas respostas marxistas são corroboradas pelo personalismo, bem como, por outro lado, muitas delas são negadas e até mesmo afrontadas.
Mounier, o principal nome da filosofia personalista, defendeu o marxismo, principalmente na sua relação e identificação com o homem em seu devir, com o sujeito envolvido, dependente, participante e transformador da natureza em que está envolvido. Por se ater as questões concretas do homem, Emmanuel Mounier louvava o marxismo, pois despertado por essa questão, juntamente com outros filósofos personalistas, passou a buscar respostas com a finalidade de amenizar o clima desconfortável vivido na contemporânea civilização humana, na qual muitos estão privados de um conforto por não possuir meios de subsistência, enquanto uma minoria goza de privilégios adquiridos pelo acúmulo de capital. Diante desse quadro, Mounier propôs uma reforma civilizatória, numa atitude semelhante a de Karl Marx que anos antes propôs uma revolução visando a mudança no quadro social da sociedade civilizada.
A revolução apregoada por Karl Marx, juntamente com Friedrich Engels, foi a revolução comunista. Essa, animada pelo proletariado deveria ser tão radical chegando ao ponto de derrubar violentamente toda a ordem social até então existente. A finalidade dessa revolução era a de libertar o proletariado da opressão burguesa e ao mesmo tempo desbancar e tomar os meios de produção da classe dominante que os oprimiam. Com esta revolução em mente, Marx e Engels convocaram os proletários de todo o mundo para tomarem partido. Através do panfleto intitulado Manifesto do Partido Comunista, depois de explicitar em suas páginas os motivos para a efetivação da revolução comunista, os dois filósofos convocam a classe proletária, no encerramento do manifesto, com a vigorosa chamada: “Proletário de todos os países, uni-vos.”(32)
Mounier também defendeu uma revolução, crendo que só através dela as bases da atual civilização seriam rompidas, dando lugar há um novo modelo de sociedade, uma sociedade personalista e comunitária, rompendo com a ideia de que o governo da história é apenas realizado pelos determinismos políticos, técnicos ou econômicos, em detrimento a vocação pessoal de cada homem. Essa revolução seria provocada por homens que vivenciassem uma conversão integral, ou seja, homens que vivenciassem a sua integralidade. Não seriam os adeptos, ideólogos, tecnocratas, fatalistas que inaugurariam a revolução personalista e sim, homens inteiros, que nas palavras de Mounier, deveriam “ser para fazer, conhecer para agir”, preparados para a ruptura completa com o mundo moderno, seus sistemas, e princípios viciosos que regem o mundo e pervertem a civilização.(33)
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3.1 Karl Marx e o marxismo: uma pequena abordagem
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Marxismo é a filosofia que tem o primado do trabalho, o domínio do homem sobre a natureza (matéria) e seus meios de produção como o seu mote, bem como a desalienação do trabalhador e a derrubada da classe opressora. Preocupou-se também em desmistificar os idealismos, mais especificamente o idealismo hegeliano, que buscava dar um sentido ontológico a realidade. Esse idealismo entendia a realidade como manifestação do pensamento e reduzia o mundo a “Ideia Absoluta”, com isso, o homem e a realidade concreta eram completamente ignorados.
O principal idealizador do sistema marxista foi o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883) – daí a nomenclatura marxismo. Portanto, antes de se falar em marxismo temos que falar em Karl Marx.
Nascido na Prússia, em Tréveris no dia 5 de maio de 1818. Filho de pais judeus, cresceu sob uma forte orientação religiosa, especificamente judaica. Embora seu pai tivesse sido batizado em uma igreja protestante, isso, porém, não significou um afrouxamento nas convicções paternas, porque o feito só ocorrera visando a manutenção de seu emprego na Tréveris predominantemente protestante, onde era um prestigiado advogado. Sua mãe foi piamente devotada ao judaísmo.
Mesmo antes de seu ingresso no ensino superior, o jovem Marx já havia se aproximado das ideias políticas, principalmente as teses de Saint Simon. Seu ingresso na Universidade se deu na cidade de Bonn, aos dezessete anos, em 1835, quando se matriculou na Faculdade de Direito; nesta época, se identificou com o romantismo que influenciava os ambientes intelectuais daquela cidade.
Em 1836, por ordem do pai que buscava a evolução do filho, Marx se transferiu para a prestigiada Universidade de Berlim. Nos anos em que esteve estudando nesta Universidade sua atividade intelectual foi bastante produtiva, escrevendo uma diversidade de temas em diferentes abordagens. De sua pena saíram poemas, novelas, peças, questões relacionadas ao Direito e até um sistema de Metafísica. Ao passo que evoluía intelectualmente, foi migrando do direito para a filosofia e abandonando o romantismo pelo idealismo hegeliano, passando a se envolver posteriormente com o Movimento Hegeliano da Juventude.
Com o passar dos anos, após leituras de Rousseau, Montesquieu e Maquiavel, e vários livros sobre a Revolução Francesa, Marx muda de posição em relação a filosofia de Hegel, se desvencilhando do idealismo hegeliano que servia de base para algumas posições políticas na Alemanha de sua época. Essa rejeição e a consequente mudança de postura resultaram na obra intitulada Crítica da Filosofia do Direito de Hegel.
Em 1843 Marx se transfere para Paris, numa época onde efervesciam vários movimentos de cunho socialista, nesta época morou com alguns exilados alemães. A ambiência política parisiense o influenciou ainda mais a adotar definitivamente o comunismo. No período de abril a agosto de 1844, Karl Marx escreveu os quatro manuscritos chamados de “Manuscritos Econômicos e Filosóficos”, segundo o tradutor inglês dessa mesma obra, T. B Bottomore. Nesta obra Marx delineia seu ponto de vista sobre o trabalho, e alienação, a propriedade privada e sua relação com o comunismo, dinheiro, finalizando com a Crítica da Filosofia Dialética e Geral de Hegel. Pouco depois conheceu o seu amigo e parceiro de ideias Friedrich Engels, filho de um industrial. A amizade com Engels proporciona a Marx um profundo conhecimento da engrenagem capitalista, juntamente com forte apoio financeiro. Além disso, o entrosamento Marx/Engels em pouco tempo começou a produzir obras intelectuais. Lançaram o livro A sagrada família como uma crítica aos antigos companheiros do Movimento Hegeliano da Juventude. Pouco tempo depois, Marx transfere-se para Bruxelas. Saiu de Paris acusado de subversão.
Nesta época sua posição socialista já tinha ganhado contornos mais fortes, tanto que em 1845 Marx e Engels escreveram a Ideologia Alemã, que, nas palavras do pesquisador marxista David McLellan, “definia sua concepção materialista da história”(34). Pouco tempo depois, em 1847 se envolveu na Liga dos Justos, em Londres, que depois passou a se intitular como Liga Comunista. Para assentar suas idéias, juntamente com Engels, escreveu O Manifesto Comunista entre dezembro de 1847 e janeiro de 1848(35).
Depois das várias perseguições políticas sofridas na Bélgica e França, Marx acaba por se exilar em Londres onde vive até a morte. Como um homem de ação, participou de revistas de cunho político procurando destacar a importância da revolução, além de se envolver diretamente em associações trabalhistas.
Marx conheceu o lado amargo da vida, passara por sérias dificuldades financeiras, além disso, testemunhou a morte de alguns de seus filhos, sendo que o primogênito morreu sem tratamento médico. Em uma carta endereçada a Engels, afirmou não pode chamar o médico, por não ter dinheiro para os remédios. E por conta da falta de dinheiro, também passou a se alimentar, juntamente com sua família, precariamente(36).
Em relação a sua filosofia, podemos considerá-la como:
. Teoria e crítica da sociedade.
. Uma filosofia da ação e da realidade concreta (materialismo), que busca incitar uma revolução, visando a transformação da realidade social.
. Rejeição as filosofias idealistas, juntamente com sua concepção ontológica da realidade.
Como uma crítica e teoria da sociedade, Marx procurou demonstrar que a sociedade vive uma grande desarmonia de ordem econômica e social, situação essa fruto da descaracterização da ação criadora e transformadora do homem. Colocando como dependente de uma pequena elite, que direciona a manipula seus atos, toma posse tanto da matéria prima, quanto dos meios de produção, aliena o homem de seu trabalho fazendo-o perder a sua autonomia deixando-o dependente da burguesia.
Sendo a história construída pelo homem através de sua efetiva relação com a natureza, uma retirada desse mesmo homem de sua livre atuação na natureza, na extração de seus meios de subsistências, prejudica a harmonia na relação do homem com seu trabalho e consequentemente na sua relação com o mundo.
Na ambiência do Estado Burguês, Marx acreditava na existência de apenas duas classes de homens, a saber: o explorador e o explorado. A classe dos explorados é a classe dos proletários. O homem trabalhador em sua atual circunstância vivencia uma alienação. Por conseguinte, ignora a natureza que deveria dominar e os meios para promover esse domínio. Esse homem alienado, o homem explorado, não vive uma relação apropriada com os meios de produção – que possibilitam o domínio da natureza; esses meios de produção estão nas mãos de uns poucos homens, a quem ele designa como burgueses – os exploradores. Por conta dessa situação inapropriada, não tendo o trabalhador acesso aos meios de produção – ele vende a sua mão de obra, passando a trabalhar de forma alienada, não dominando a natureza que deveria conhecer e nem os meios que possibilitam a sua submissão. Nesta ambiência alienante, o trabalhador, além de não deter os meios de produção, por conseqüência, não detém os meios de seu sustento, passando a oferecer a sua mão de obra e a depender do capital oferecido pela burguesia.
Karl Marx acreditava que o trabalhador vivenciaria um progresso histórico que redundaria na volta de seu domínio a natureza e na posse dos meios de produção. Esta evolução histórica aconteceria necessariamente por meio de uma revolução proletária socialista e a posterior instauração de um regime comunista, regime esse que enfim daria ao trabalhador a posse dos meios de produção – eliminando de vez com a alienante burguesia, até então, detentora do capital e dos meios de produção.
Em sua Dialética Materialista, Marx traçou a teoria que explica a dinâmica social, a luta de classes e o progresso do proletariado. No método dialético, a atual fase em que a burguesia domina os meios de produção e detém o capital é chamada de tese. Mas, desgostosos de sua atual condição, o proletáriado nega a tese; essa negação é chamada de antítese que dá através da revolução, proporcionando um novo momento histórico. Esse novo momento é chamado de síntese, é o triunfo da revolução onde cai o estado burguês e triunfa o comunismo.
Falando sobre a Filosofia do filósofo em destaque, o escritor alemão Erich Fromm, afirma que “a filosofia de Marx é de protesto; um protesto impregnado de fé no homem, em sua capacidade para libertar-se e para realizar suas potencialidades"(37).
De forma mais aprofundada Fromm define o projeto de Marx:
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“Bem evidentemente, a meta do socialismo é o homem. É criar uma forma de produção e uma organização da sociedade onde o homem possa superar a alienação de seu produto, de seu trabalho, de seu semelhante, de si mesmo e da natureza; na qual ele possa regressar a si mesmo e apreender o mundo com suas próprias forças, tornando-se, dessarte, unido ao mundo. O socialismo, para Marx, era, nas palavras de Paul Tillich, “um movimento de resistência contra a destruição do amor na realidade social”(37).
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Diferente das ideias tidas como materialistas, o materialismo em Marx, nada tem a ver com o excesso de desejo por bens e ganhos materiais, Fromm esclarece esta questão com as seguintes palavras:
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“A interpretação “materialista e econômica” da História feita por Marx nada tem a ver absolutamente com um suposto anelo “materialista” ou “econômico” considerado como impulso mais fundamental do homem. Ela significa que o homem real e total, os “indivíduos vivos reais” – e não as ideias produzidas por esses indivíduos – são o tema da História e da compreensão das leis desta. De fato, a interpretação marxista da História poderia ser denominada uma interpretação antropológica da História caso quisessem evitar as ambigüidades dos termos “materialista” e “econômico”; ela é a compreensão da História baseada no fato de os homens serem “os autores e atores da sua história.” (39)
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Portanto, a interpretação materialista e econômica da História feita por Marx, não é outra coisa senão, a afluência coerente de todo o seu sistema filosófico, seja na sua rejeição as interpretações idealistas da história, como na busca de uma filosofia concreta, para homens reais.
Vivendo a coerência entre o que rejeitou e o que propôs, Marx também se viu obrigado a negar a figura de Deus por dois motivos: por este estar ligado a alguma espécie de idealismo e pela possibilidade de ser Deus um meio de a burguesia manter o povo subserviente e consequentemente, alienado. Seria então necessário também se desvencilhar da ideia de Deus, juntamente com toda a proposta civilizatória burguesa.
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3.2 Acolhimento aos marxismos
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Em vários personalistas participantes do círculo da Esprit a atitude de acolhimento para com idéias marxistas pode ser percebida sem muita dificuldade. Na pessoa de Emmanuel Mounier, o acolhimento a marxismos claramente pode ser observado em várias manifestações, por exemplo, em sua denúncia contra posturas e julgamentos equivocados de grupos antimarxistas franceses. Nesta atitude, se percebe certa preocupação de não tratar o marxismo como uma filosofia rival à atitude personalista como se esta não merecesse nenhuma atenção. Segundo Mounier, o bloco antimarxista visto na França de sua época, na verdade, servia os interesses do capitalismo . Não era uma posição legítima contra uma atitude desordenada, pelo contrário, era uma reação contra um sistema de idéias que se colocava em confronto com as idéias vivenciadas pela desordem estabelecida através do sistema capitalista vigente. Era uma reação em favor da desordem estabelecida e vivenciada, contra toda espécie de mudança.
Mounier também destaca que, muito do que se diz “antimarxismo” efetivamente não é um antimarxismo, na verdade não é uma rejeição, quando não se trata de uma afirmação aos instintos, é uma rejeição a pseudos marxismos que, como tais, não estão de acordo com o pensamento de Marx. Os antimarxistas, estão mais contra a deturpação do pensamento de Marx, do que contra o próprio Marx – sendo assim, os antimarxismos não são efetivamente Anti – Marx, mas o são “anti-pseudosmarxismos”
Entendendo a pertinência do pensamento marxista em relação ao trabalho, Mounier afirma que esse sistema de pensamento contava com a confiança do mundo da miséria, e que simbolizava para este mundo “libertação”. A partir dessa ênfase admitiu que os partidos marxistas contribuíram para a “inteligência e o progresso da organização social”(41).
O marxismo com sua preocupação em alcançar o homem enquanto trabalhador teve uma fecunda contribuição no personalismo do círculo da Esprit. Mounier chegou a admitir que, apesar de não ser totalmente dogmatizado pelo pensamento marxista, e de seguir orientações diferentes das de Karl Marx, parte de seu vigor intelectual e ideológico se deve a esse sistema, com bem destaca sua assertiva: “Nossa filosofia, que deve uma parte de sua saúde as águas marxistas, não recebeu, contudo dele o batismo. Mesmo que ela recubra muitas perspectivas do marxismo, outros são os seus fundamentos e daí tudo se modifica”(42).
Falando sobre a vocação dialogal do sistema personalista, o também filósofo personalista, Jean Lacroix de forma semelhante admitiu a importância do marxismo, mesmo quando apregoa uma superação. Dizia ele:
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O diálogo entre o conhecer e o existir não tem fim, e a nossa vocação é ser sistema ativo, que se ultrapassa a si mesmo, não por deixar de ser, mas por se abrir cada vez mais a este mais, a este mais além de todo o conhecimento e de toda a existência, pelo qual unicamente nos conhecemos e existimos. Assim se patenteia as grandes linhas de um personalismo, que interpreta todas as aquisições do existencialismo, e, sobretudo do marxismo, mas, ultrapassando-os.(43)
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Apesar de defender a necessidade de superar o marxismo, Lacroix admite que o personalismo também aproveitou os grandes temas marxistas para compor sua história engajada. Quando ele defende uma ultrapassagem ao marxismo, não faz isso como um menosprezo, toma uma atitude personalista de aplicar soluções que estejam em sintonia com as demandas da história, que atinjam de forma apropriada as necessidades de cada lugar em sua determinada época. Lacroix, como Mounier, aceita a chamada de atenção do marximo, acolhe-a, porém, não se atendo às suas fórmulas engessadas e enrijecidas.
Vemos também uma atitude de acolhimento para com o marxismo na atitude de encarnar a sua filosofia, ou e outras palavras, tê-la como um engajamento. Sobre isso R. Cosso, outro filósofo personalista transcreve a fala de Mounier: “É um ponto, escreve ele, em que realismo personalista muito se aproxima do método marxista, de seu esforço para livrar os problemas da história do à priori e para unir o conhecimento a ação”(44).
Reforçando a afirmação de Mounier, Cosso destaca sobre o líder da Esprit que, “em seu relacionamento prático com os comunistas foi fiel aos mesmos princípios e ao mesmo método. Há, é verdade, para explicar sua grande paciência, o fato de que ele se recusa separar-se deles por vê-los ao lado dos pobres e indefesos”(45).
Podemos perceber claramente no destaque de Cosso acolhimentos a pelo menos duas atitudes do pensamento marxista, a aproximação aos problemas dos pobres e indefesos e ao princípio de transformar o pensamento em práxis.
Tendo essa práxis em destaque, podemos enxergar outra atitude de acolhimento. A proposta marxista de, engendrar uma nova civilização, no caso, uma civilização comunista – inspira em Mounier à ideia de uma civilização personalista e comunitária. Em outras palavras, Mounier acolhe a ideia de ruptura ao que ele tratou como “desordem estabelecida”, ao sistema capitalista que aviltava o homem colocando as suas necessidades sob o império do capital. Dessa forma se aproxima da atitude profética de Karl Marx de denunciar a um sistema vigente profetizando o estabelecimento de uma nova ordem. Como Karl Marx, Emmanuel Mounier defendia uma revolução tendo por finalidade destruir a desordem estabelecida e lutar pela aplicação de um novo momento histórico.
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É preciso de início testemunhar nossa ruptura com a desordem estabelecida. Já é alguma coisa tomar consciência da desordem. Mas a tomada de consciência que não leva a tomada de posição, a uma transformação de vida e não apenas de maneira de pensar, será apenas uma nova traição do espiritualismo, na linha de todas as traições passadas. É preciso pois, definir uma primeira série de desordarizações e de engajamentos, a que chamamos ação de testemunho e ruptura. Esta ação implica em primeiro lugar na denúncia e na condenação pública, por todos os meios ao nosso alcance, da desordem combatida.(46)
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Na destacada assertiva, podemos perceber a semelhança do que seria uma atitude personalista diante a desordem estabelecida com o que seria, uma atitude marxista diante da sociedade burguesa.
A tomada de consciência, a consciência de pertencer à classe oprimida, que no ideário marxista é ponto chave para o estabelecimento da revolução proletária, é também uma das molas impulsionadoras da rejeição e uma consequente ação contra a desordem estabelecida. Para lutar pelo estabelecimento de uma nova ordem, é preciso primeiramente conscientizar-se de que a ordem vigente é na verdade uma desordem legalizada institucionalmente e como tal, é uma afronta a efetiva ordem social.
O acolhimento personalista a proposta marxista de conscientização e ruptura mostra-nos como os pensadores dessa inspiração filosófica absorveram idéias e posturas marxistas. Essas posturas aqui resumidamente delineadas, juntamente com algumas aqui omitidas, mostram que a atitude de acolhimento da filosofia personalista para com a chamada de atenção marxista e alguns de suas propostas e posturas, efetivamente se deu, e, portanto se houve rejeições a totalidade desse sistema, não foi por falta de acolhimento, não foi na falta de atenção aos seus embasamentos e questionamentos. Sendo assim, o posterior afrontamento aconteceu de forma legítima e sadia.
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3.3 Afrontamento aos marxismos
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Já tendo destacado os elementos que uniram o personalismo ao marxismo, os elementos que após atitude de acolhimento foram acatados e reconsiderados, faz-se necessário, doravante, processar em que e onde o personalismo afronta a atitude marxista, e, porque essas tomadas de posição do sistema construído por Marx e alguns outros marxismos são rejeitados.
Um dos pontos que mais negativamente chama atenção dos filósofos personalistas em relação ao marxismo é a diminuição do valor da pessoa humana. Mounier chegou a afirmar que a grande lacuna da filosofia marxista era o desconhecimento da realidade íntima da pessoa, em outras palavras, a grande lacuna do sistema marxista era “ignorar a realidade da vida pessoal”. Uma filosofia personalista jamais poderia acatar princípios filosóficos que acentuasse mais o coletivo do que o valor da pessoa, coisa essa encontrado com muita clareza na filosofia marxista. A proposta marxista eleva o sujeito enquanto pertencente a uma classe, enquanto representante de uma classe. Essa exaltação ao homem “representante” de uma classe, já significa a diminuição da consideração do homem enquanto um ser “pessoal”. Sobre isso Emmanuel Mounier afirma: “Parece, pois, no fim de contas, que a lacuna essencial do marxismo é a de ter desconhecido a realidade íntima do homem, e da vida pessoal. No mundo das determinações técnicas como no das idéias claras, a Pessoa não tem lugar”.(47)
A atitude proposta pela filosofia personalista caminha em sentido contrário. Crê-se, na ambiência personalista, que a verdadeira reforma comunitária se dá através de um sistema que priorize o valor da pessoa enquanto pessoa, caso contrário, cairíamos no erro da ditadura modeladora, uma ditadura que modela o indivíduo de forma despersonalizada, num sistemas de idéias uniformes, e com tais, impessoais, que, e por assim ser, não atende as demandas da pessoa em sua integralidade. As propostas coletivistas marxistas, acreditava Mounier, fora inspirada por um profundo desprezo da pessoa.(48)
Contrariando o pensamento de Marx de que a salvação da comunidade proletária só se dará através da uniformidade coletivista do pensamento, pois só a massa é criadora de valores revolucionários, Mounier por sua vez, defende que a salvação está na própria pessoa e somente ela é responsável pela transformação salvadora. A própria coletividade se dá através de pessoas, e a criação não é fruto da massa, é fruto de angústias e anseios compartilhados na comunhão entre pessoas. Mounier entende que o grito da massa é a repercussão do grito comunitário de pessoas evidenciado através da vocação de comunicação, comum a todo homem.
Defendendo ardentemente a integralidade do homem, e como tal, a valorização de sua pessoa, o personalismo afrontou com todo seu ânimo a proposta marxista de despersonalização do homem afigurada na exaltação da uniformidade coletivista de ideais e o consequente esmagamento da ação do homem enquanto ser pessoal. Afrontando esse aspecto da filosofia marxista, o personalismo afrontou também o tratamento reducionista que o marxismo dispensava ao homem. Neste aspecto, o marxismo reduz o homem a um ser de trabalho e de necessidades meramente materialistas. Com essa redução em mente, acredita que a ação do homem se reduz ao desejo de realizar suas necessidades materiais. Acreditando assim, o marxismo torna-se a filosofia da história puramente imanente. Em rejeição ao pensamento marxista, o personalismo evoca a capacidade e necessidade de transcendência do homem, e com isso ressalva outras características intrínsecas do homem que são negadas pela filosofia prática marxista. Assim, o personalismo se afigura como a filosofia da imanência de uma transcendência(49). Pensando assim, o personalismo afronta o marxismo em seu apego exagerado a fatores materiais e sua consequente negação as necessidades espirituais do homem, necessidades essas, que transcendem as praticidades da busca do homem por necessidades materiais.
A rejeição personalista a algumas posições chaves do marxismo, na verdade se resume a rejeição a indisposição dos ideólogos marxistas em buscar enxergar as questões do homem enquanto “pessoa humana”, enquanto ser peculiar. Entendendo e aceitando a peculiaridade de cada homem, uma filosofia que engrandece posturas coletivistas a apegos estritamente materialistas, não poderia ser abraçada. Neste sentido então, o marxismo foi afrontado. Tido por Emmanuel Mounier como materialista, coerentemente o marxismo foi tratado entre os personalistas como um sistema, apesar de importante, incompleto. Sendo assim, foi tratado como um sistema que ainda necessitava de aprimoramento. Pelo fato de não levar em conta as outras dimensões da existência humana o existencialismo foi considerado pela filosofia personalista um sistema materialista, e como tal, um sistema que apequena e aprisiona as potencialidades do homem.
Um homem jamais pode ser tratado como um ser coletivista. O ser - humano tem o potencial de transcender, se comunicando e percebendo realidades fora de si e também carrega em si uma interioridade que o difere de outros homens. Comunica-se consigo mesmo, com o outro e com realidades espirituais. Essa peculiaridade o impede de se acomodar em uma sociedade uniformemente coletivista, em que, as regras gerais são ditadas sem levar em consideração sua pessoalidade única, e toda transcendência é negada, por conta do exagerado apego a matéria.
Mounier, assim define uma filosofia materialista: “Designamos como materialista uma filosofia que, mesmo insistindo justamente sobre o humanismo do trabalho e da função fabricadora, considera como ilusória outras dimensões não menos essenciais do homem, principalmente a interioridade e a transcendência”.(50)
Percebendo a rígida posição materialista adotada pelo sistema marxista, a filosofia personalista, apesar de acolhê-lo em outros pontos, não teve como deixar de afrontá-lo, não teve como evitar o confronto com este aspecto reducionista, antiespiritual e antimetafísico do marxismo, que só consegue perceber nas relações humanas, a busca de satisfazer necessidades práticas e materiais.
Karl Marx acentuou tanto esse aspecto, que chegou a apresentar a linguagem como uma criação da consciência do homem, da necessidade do comercio entre si. Com isso, ele impossibilita uma visão mais intimista e espiritual da comunicação entre pessoas, fazendo com que tudo passe a fazer parte da ordem prática.
A seguinte assertiva de Marx contém os elementos que a pouco destacamos:
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A linguagem é tão velha quanto a consciência -, a linguagem é a consciência prática, existindo igualmente para outros homens, existindo portanto talvez para mim, real, e a linguagem somente nasce tal como a consciência, da necessidade, da necessidade de comercio com outros homens.(51)
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Seguindo um caminho totalmente diferente, Mounier enxergava a capacidade de comunicação como um atributo de um ser que transcende, que não se limita as necessidades físicas, mas mesmo se apercebendo delas, vivencia ânsias e carências que vão além de relações prático/físicas.
Mounier chega a afirmar, que toda espécie de diminuição da condição integral do homem, que consente que suas relações se tornem meramente objetivante é um pecado contra a pessoa, e, portanto, admitir semelhante tratamento, seria um ato pecaminoso.
Em tom bastante grave, afirma:
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Peco contra a pessoa todas as vezes que forço um homem vivo a se identificar com uma de suas funções, ou me comporto com ele, como se de fato a ela se reduzisse. Quando eu penso, por exemplo, que existem homens ou mulheres que são ‘feitos para’ talhar, todos os dias que Deus anima a mesma peça de ferro.(...) O pecado contra a pessoa comporta por sua vez, um pecado de omissão(...).(52)
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O personalismo afronta as propostas materialistas e coletivistas dos diversos marxismos, apontando a integralidade do homem, coisa essa que o impede de se assentar confortavelmente no limitado ambiente proposto pelo marxismo.
Um homem em sua totalidade, jamais poderia realizar-se com apenas um de seus aspectos. O marxismo com suas propostas materialistas e coletivistas foi importante na medida em que fez o homem enxergar o seu aspecto de ser encarnado, mas, lamentavelmente errou quando erradicou de seu sistema a realidade transcendente do homem. Contra este equívoco o personalismo direcionou e ainda direciona o seu afrontamento. Mounier questiona a dialética marxista que exclui do processo evolutivo a condição integral humana, fixando-se apenas no problema da infra-estrutura econômica, e esta, de seu meio e de seu tempo. Perdendo-se no limite da matéria, o marxista elimina atributos fundamentais da condição humana, a saber, a liberdade e o amor, pois se levando em conta essa peculiaridade humana, nenhum determinismo sistêmico poderia ser sustentado.
Mounier crê que o otimismo que o marxismo professa sobre o futuro do homem, seria um otimismo do homem coletivo, sendo que essa concepção, na verdade, oculta um pessimismo radical da pessoa, uma falta de crédito a capacidade do indivíduo de se superar e se transformar e na capacidade da pessoa a colaborar intimamente com a transformação de sua sociedade
Nas palavras de Emmanuel Mounier, podemos destacar com bastante clareza, o principal posicionamento marxista, afrontado pela filosofia personalista, que, ao contrário do desprezo marxista, no personalismo é um fator de maior valorização. “Parece, pois, no fim de contas, que a lacuna essencial do marxismo é a de ter desconhecido a realidade íntima do homem, a da vida pessoal. No mundo das determinações técnicas como no lugar de ideias claras, a pessoa não tem lugar”.(53)
Na ambiência personalista, crê-se que somente a pessoa pode ser responsável pela sua salvação, e qualquer efetiva salvação a vida do homem só se processa quando esse adere intimamente, ou seja, pessoalmente, as ferramentas de sua libertação se aproximando como escolha própria, numa atitude de comunicação personalista, com outros homens e mulheres, que pessoalmente também aderiram o movimento em prol da sua libertação da condição alienante em que vivencia. Se prender impessoalmente nos ditames de um partido, ou nas disposições predeterminadas das massas, é viver, outra forma de alienação, a alienação do sujeito, que separa o homem de sua condição potencial de pessoa humana, com a qual luta pela sua liberdade entendendo a necessidade da luta e as devidas e necessárias determinações para o sucesso de sua empresa libertadora.
Para um personalista, afrontar os marxismos se resume a afronta às coletivizações impessoais e ao reducionismo das relações e necessidades humanas a questões meramente materiais. Ao rejeitar a sociedade coletivista proposta por Marx, Mounier apresenta os princípios para uma sociedade personalista centrada na realização da pessoa integral.
“Uma civilização personalista é uma civilização cujas estruturas e espíritos estão orientados para a realização da pessoa que é cada indivíduo que a compõem.”(54)
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Capítulo 4 - A crise da pessoa na contemporaneidade e a pertinência da filosofia personalista
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4.1 A crise da pessoa na contemporaneidade
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Recentemente o mundo acompanhou uma crise econômica (crise de 2008-2009) que abalou as estruturas de quase todos os países que fomentam e alimentam a economia mundial globalizada. Essa crise, além de desestruturar as economias dos grandes Estados, instituições financeiras e de várias empresas, consequentemente desestruturou famílias, fazendo-as vivenciarem um intenso desconforto, provocado pela insegurança do desemprego e pela falência de suas economias. No âmago da crise, levou-se em consideração o problema da quebra de várias corporações, e, para impedir maiores incidentes com os grandes grupos, foram chamados para um entendimento, visando à amenização da crise, os representantes das maiores economias mundiais. Em meio às discussões, foi acentuada com muita convicção, a necessidade, por parte do Estado, de aplicar auxilio financeiro aos bancos e socorro as megaempresas. Nesta ênfase, percebemos com clareza a visão coorporativa transbordante em nossa época, sobrepondo-se a visão humanista. Em outras palavras, podemos afirmar que na cultura hodierna enxerga-se com mais facilidade as necessidades de corporações do que as necessidades fundamentais das pessoas. Hoje em dia, os negócios estão sendo mais valorizados do que as pessoas que os mantém.
É certo que essa tendência não foi cultivada na atual década, hoje, estamos apenas colhendo os frutos advindos de escolhas e ações tomadas há algumas décadas atrás, quando a tecnologia começou a ganhar contornos mais arrojados. Vemos, até mesmo na literatura romanesca de décadas atrás, testemunhos que denunciam o crescimento e a valorização da figura do Estado e dos negócios, em detrimento as pessoas. No romance “São Bernardo”, de Graciliano Ramos, lançado em 1934, por exemplo, vemos esse testemunho. Paulo Honório, um ambicioso camponês que sonhava em possuir uma grande fazenda, permitiu que o seu sonho já conquistado, anuviasse a também conquistada família. Vemos nessa tragédia sertaneja brasileira, o negócio, ganhando em importância o lugar da pessoa, tanto que o herói trágico do romance, só percebeu que teve a família que dantes sonhara possuir, quando a perdeu. A obsessão e a super valorização pelo negócio, no caso a fazenda São Bernardo, o impediu de valorizar as pessoas que fizeram parte de sua vida.
No outro romance de Graciliano Ramos, Vidas Secas publicado em 1938, o retirante Fabiano vê maior valor no Estado, representado pelo arrogante soldado amarelo, do que nele mesmo, quando, diante da possibilidade de vingança não a faz porque o mesmo representava o Estado. Diante desse quadro Fabiano afirma: “governo é governo”.
Na hodiernidade, a história é semelhante. Na atual época, coisas e representações são pensadas e valorizadas em maior intensidade do que pessoas. Lamenta-se um fracasso coorporativo com maior intensidade do que a miséria de um povo. Esses fatos testemunham-nos a vivência contemporânea da crise da pessoa; hoje a palavra de ordem é a individualidade. Em seu livro “Sociedade individualizada” o sociólogo polonês Zygmunt Bauman chega a dar idéia que hoje em dia as ações solidárias são tratadas como ações marginais. Esse tipo de ação não mais faz parte do cotidiano do cidadão, aliás, solidariedade na hodiernidade, é tida como um estorvo para a dinâmica individualista. Bauman chega a indicar que a manutenção do Estado de bem-estar-social, dantes tratado como um compromisso primaz do Estado, hoje perde em importância para o bem estar do mercado. O Estado de bem-estar social, nos tempos da globalização, tem que se submeter aos ditames do “(...) capital financeiro global, extraterritorial e livremente flutuante para vir e ficar. Segundo ele,”Do ponto de vista desse último, manter os pobres locais em condições humanas decentes, o principal objetivo do Estado de bem-estar social, é inteiramente desprovido de sentido econômico”. Por isso, continua Bauman, “não por acaso o Estado de bem-estar social não é bem visto pela imprensa”.(55)
Essa situação é tão perceptível, que os anos de miséria em que vive o continente africano, somados as calamidades de boa parte da Ásia e América do Sul, não causaram proporcionalmente, tanta comoção por parte da mídia, como a crise econômica atual. Destacou-se com mais pesar as quebras de grandes corporações, do que a miséria vivida há várias gerações por dezenas de povos e nações. A cultura da impessoalidade e da diminuição do valor da pessoa humana impregnou as mais diversas culturas do mundo. Independente da ideologia política dominante, as grandes nações do mundo estão a valorizar mais as coisas do que as pessoas, mais os mercados do que a qualidade de vida de seus cidadãos protege e acerca de segurança e de liberdade, mais ao cambio, dos que as pessoas que deveriam possui-lo.
Diante desse quadro, avolumam-se em importância os temas da filosofia personalista tais como: valorização da pessoa, vocação, diálogo, entre outros.
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4.2 A pertinência da filosofia personalista
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Vivemos em uma sociedade humana, como tal, um ambiente em que a comunicação tem que ser intensamente vivenciada, não de forma centralizadora, mas com cada homem encarnando a sua vocação comunitária, constituída por várias outras vocações, entre elas, a vocação de comunicação.
Não se pode fazer parte de uma comunidade excluindo-se do compromisso de lutar pela sustentação dos meios mais apropriados que permitem a essa sociedade adequar-se para possibilitar a vivência integral da pessoa humana, e das melhores condições para essa vivência. Nessa luta, a vocação de comunicação é assaz importante. Através da comunicação o homem pode entender e conhecer o outro, perceber a realidade vivenciada de cada indivíduo pertencente a comunidade de homens. A comunicação vivenciada impede que o homem se feche em si, incitando-o a perceber o outro, e a olhá-lo não mais como um estranho, e sim, como um próximo. A comunicação e sua consequente aproximação de pessoa a pessoa, engendra em cada uma o compromisso com o próximo, assumido na abertura provocada pela comunicação.
A sociedade contemporânea, passando pela crise da pessoa, está a ignorar os valores necessários para a construção de uma sociedade humanizada. Na atual exaltação as “coisas” em detrimento a “pessoa” o ser humano é aviltado e reduzindo a ser de consumo, a massa a ser aproveitada pelo sistema que domina e dirige nações e influencia várias culturas. Nesse clima antipessoal, e por conta dele, faz-se necessário evidenciarmos novamente o valor da pessoa humana e a sua real condição de dignidade. Com essa premente necessidade, a vivência da filosofa personalista torna-se oportuna. O personalismo se afigura como pertinente, justamente porque, destoando do atual momento de nossa civilização, destaca o valor da pessoa, e a coloca em importância, sobre as coisas e sobre qualquer sistema que pretende lhe dominar.
Exaltando a luta, o engajamento pela liberdade da vivência pessoal, a filosofia personalista tem muito que acrescentar e a influenciar a atual civilização que parece se acomodar aos ditames impessoais e a culturas artificiais que nada tem em comum com o andamento sadio da estruturação a afirmação da liberdade pessoal de cada ser humano.
O personalismo é importante em sua não aceitação a impessoalização. Essa não aceitação pode despertar nos homens a necessidade de empregar sua ação criadora e doadora, visando perceber na sociedade em que vive parte de seu esforço existencial, ou ter impressa sua participação, e com isso poder se identificar efetivamente com o ambiente ideológico-histórico-geográfico em que vive. É importante porque através do engajamento que apregoa, impede ou incentiva que cada homem saia da alienação e passe a viver ativamente na construção de uma comunidade personalista.
Sendo pertinente a luta pela construção de uma sociedade mais humana e pessoalizada, também se faz pertinente em nossos dias a re-valorização da filosofia personalista e os temas que lhe estruturam.
Hoje nos espaços onde as idéias são colocadas a disposição das mentes pensantes, vários problemas são abordados. Em espaços acadêmicos, diversos sistemas filosóficos são destacados, inclusive, sistemas que já não mais dizem respeito ao nosso contexto existencial, ou que até já foram ultrapassados, não cabendo mais em nenhum espaço sério de idéias. Invocamo-los pelo fato de estarem inseridos na tradição ou na vanguarda das ideias.
Se seriamente quiséssemos usar nossa razão e nossa intelecção para a resolução de problemas que realmente nos apresentam, que realmente se sucedem em nossa existência chegaríamos a questões e a respostas direcionadas aos problemas perscrutados que se apresentam a nós. Como hoje um dos grandes problemas que se apresentam é a crise da pessoa humana, o personalismo, por tratar profundamente esse tema seria uma filosofia naturalmente pesquisada. Por ter essa proximidade com os problemas tão destacados em nossa época, o acolhimento e a apresentação dos temas e propostas da filosofia personalista torna-se fundamental nos mais variados espaço de idéias e na vivência de uma intelectualidade sintonizada com as questões de nossa existência. Uma busca coerente ao entendimento ou a busca através do diálogo a superação da crise da pessoa em que vivemos naturalmente levará qualquer pesquisador coerente ao encontro da filosofia personalista.
A importância do personalismo para a nossa época, é que essa inspiração filosófica não ignora os temas já levantados em relação ao ser humano por outras tendências do pensamento. O personalismo procura, numa atitude dialogal, conhecer as questões levantadas, mas sempre nos orientando a recepcionar as respostas que levem em consideração o primado da existência humana e todas as possibilidades do homem, e entender que perceber a riqueza da pessoa humana é o que mais necessita a impessoal sociedade contemporânea. Eis ai a pertinência da filosofia personalista.
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Conclusão
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Expomos de maneira simples, um pouco do que conhecemos sobre o a filosofia personalista. Com essa exposição, intentamos, além de apresentar o personalismo a partir de Emmanuel Mounier tratado por alguns como o personalismo comunitário, e desvencilhá-lo de outros personalismos, também, destacar a peculiar formatação dessa inspiração filosófica, ou seja, uma filosofia construída no diálogo.
É certo que na busca do alcance desta proposta, nossas limitações se mostraram evidentes. Por conta da ainda existente barreira lingüística, ficamos devendo pesquisas a partir de fontes originais, maior aprofundamento temático e maiores informações sobre os demais filósofos que integraram e ainda integram o círculo personalista francês arregimentado por Emmanuel Mounier.
Falhas a parte, lutamos com as ainda precárias ferramentas que possuímos, para que nosso objetivo fosse alcançado. Esse, não é outro, do que colocar a filosofia personalista e seus mais diversos temas, sua maneira dialogal de se relacionar com outros sistemas, principalmente os aqui já destacados, a saber, marxismos e existencialismos, sua pertinência para a contemporaneidade, ao acesso daqueles que ainda a ignora e, relembrar sua importância àqueles que por questões diversas abandonaram seus temas ou, simplesmente relegaram-no a planos inferiores nos círculos do pensamento sistêmico.
Procuramos mostrar que a atitude personalista diante dos fatos e dos sistemas que se apresentam, é de acolhimento e afrontamento, ou seja, o diálogo personalista se afigura nesta atitude dupla.
Com a atitude de acolhimento nutriu-se de vários temas das filosofias que se apresentavam em sua época mais fecundos, principalmente advindos das filosofias marxistas e existencialistas. Essa apropriação, já denota a proposta dialogal dessa inspiração filosófica. Mostramos também, que na vivência de um verdadeiro diálogo, a filosofia personalista também afrontou as mesmas correntes que em vários aspectos acatara. Nessa atitude de afrontamento, o personalismo rejeita algumas propostas das destacadas correntes filosóficas, procurando apresentar respostas que não ignorem os vários aspectos e as várias possibilidades da existência, principalmente, quando relacionadas à existência do homem integral – a pessoa humana.
Procuramos mostrar que o personalismo com os seus temas, com ênfase no engajamento em prol de uma civilização personalista e comunitária, sempre a favor da valorização da pessoa humana, é uma filosofia que tem muito a dialogar com os temas de nossa época, que vive a decadência da vida pessoal prejudicada pela crescente valorização da vida impessoal, coisificada.
Entendendo que o a filosofia personalista com suas questões levantadas, suas propostas e sua chamada de atenção tem ainda muito a transmitir à atual geração, buscamos reavivar os seus temas já propondo que os possíveis leitores que se depararem com esta simples obra, possam se aprofundar na pesquisa dessa corrente filosófica, não ficando só nessa atitude, mas que, compartilhem os conhecimentos adquiridos a partir das leituras de obras pesquisadas, dentro ou fora dos círculos acadêmicos.
Enfim, depois de explicitar a atuação histórica da filosofia personalista, sua forma peculiar de abordagem procurando no diálogo a construção de suas ideias, espera-se que este trabalho influencie mais pessoas a perceber a importância do personalismo como uma filosofia, conhecendo e se aprofundando nas obras da filosofia personalista, no conhecimento de seu principal idealizador e nos seus demais representantes, como também, a entender sua importância e contribuição intelectual para a civilização ocidental contemporânea.


Lailson Castanha de Oliveira Santos

Gravura: primeiro número da Revista Esprit, fundada por Emmanuel Mounier e outros filósofos personalistas.

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.Citações..
(1) Enciclopédia de Filosofia – WebSiteZip(R) Viewer
(2) BOGOMOLOV, A.S. A filosofia americana no século XX. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1979.
(3) Lacroix, Jean. Marxismo, existencialismo, personalismo. Porto: Apostolado da Imprensa, 1964.
(4) SEVERINO, Antônio Joaquim. A antropologia personalista de Emmanuel Mounier. São Paulo: Saraiva 1974.
(5) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
(6) MOIX, Candide. O pensamento de Emmanuel Mounier. São Paulo, Paz e Terra: 1968.
(7) MOUNIER, Emmanuel. O compromisso da fé. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1971.
(8) Ibid.
(9) Ibid.
(10) MORA, Jose Ferrater. Dicionário de filosofia - tomo II (E-J). 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005.
(11) Enciclopédia de Filosofia – WebSiteZip(R) Viewer.
(12) MOIX, Candide. O pensamento de Emmanuel Mounier. São Paulo, Paz e Terra: 1968.
Apud. MOUNIER, Emmanuel. Introd. Aux exist. 8 p.
(13) Ibid.
(14) MOUNIER. A esperança dos desesperados –Malraux – Camus – Sartre – Bernanos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972.
(15) Ibid.
(16) MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974. 44 p.
(17) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
(18) LUIJIPEN, W. Introdução à fenomenologia existencial. 2. ed. São Paulo. E.P.U., 1973.
(19) MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
(20) SEVERINO, Antônio Joaquim. A antropologia personalista de Emmanuel Mounier. São Paulo: Edição Saraiva, 1974.
(21) CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. 6. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008.
(22) MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
(23) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes editora, 1967.
(24) SEVERINO, Antônio Joaquim. A antropologia personalista de Emmanuel Mounier. São Paulo: Edição Saraiva 1974.
(25) MOIX, Candide. O pensamento de Emmanuel Mounier. São Paulo, Paz e Terra: 1968. 199 p.
(26) Ibid.
Apud Introd. Aux exist, 8 p.
(27) MOUNIER, Emmanuel. Introdução aos existencialismos. Lisboa: Moraes editora. 1963.
(28) MOUNIER. A esperança dos desesperados –Malraux – Camus – Sartre – Bernanos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972.
(29) SEVERINO, Joaquim Antonio. A antropologia personalista de Emmanuel Mounier. São Paulo: Edição Saraiva, 1974.
(30) Ibid.
(31) MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
(32) MARX, Karl / ENGELS, Friedrich / COUTINHO, Carlos Nelson; FILHO, Daniel Aarão Reis (organizador). O manifesto comunista 150 anos depois. Rio de Janeiro e São Paulo: Contraponto e Fundação Perseu Abramo, 1998.
(33) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes editora, 1967.
(34) MCLELLAN, David. As idéias de Marx. 9. ed. Tradução Aldo Bocchini Neto, São Paulo: Cultrix, 1993.
(35) MARX, Karl / ENGELS, Friedrich / COUTINHO, Carlos Nelson; FILHO, Daniel Aarão Reis (organizador). O manifesto comunista 150 anos depois. Rio de Janeiro e São Paulo: Contraponto e Fundação Perseu Abramo, 1998.
(36) Ibid.
(37) FROMM, Erich. Conceito marxista do homem. Com uma tradução dos Manuscritos econômicos e filosóficos de Karl Marx, por T. B. BOTTOMORE da Escola de Economia e Ciência política de Londres. 5. ed. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1970.
(38) Ibid.
(39) Ibid.
(40) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
(41) Ibid.
(42) MOUNIER, Emmanuel. O compromisso da fé. Emmanuel. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1971.
(43) LACROIX, Jean. Marxismo, existencialismo, personalismo. Porto: Apostolado da imprensa, 1964.
(44) DOMENACH, Jean Marie – LACROIX, Jean – GUISSARD, Lucien – CHAIGNE, Hervé – COUSSO, R – TAP, Pierre – NGANGO, Georges – PELISSIER, Lucien. Presença de Mounier. São Paulo: Duas Cidades, 1969.
(45) Ibid.
(46) Ibid.
(47) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
(48) Ibid.
(49) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes editora, 1967.
(50) SEVERINO, Joaquim Antonio. A antropologia personalista de Emmanuel Mounier. São Paulo: Edição Saraiva, 1974.
(51) MARX, Karl. Economia, política e filosofia. Tradução Sylvia Patricia, Guanabara: Melso, 1963.
(52) MOUNIER, Emmanuel. O compromisso da fé. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1971.
(53) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes editora, 1967.
(54) Ibid.
(55) BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada: Vidas contadas e histórias vividas. Tradução José Gradel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

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Referências

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______. Vidas Secas. 91. ed. Rio de Janeiro, 2003.
ROGERS, Carl Ransom – ROSENBERG, Rachel L. A pessoa como centro. São Paulo: E.P.U - EDUSP, 1977.
SEVERINO, Antônio Joaquim. A antropologia personalista de Emmanuel Mounier. São Paulo: Saraiva 1974.

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Intentamos propagar o personalismo, bem como suas principais ideias e seus principais pensadores, com a finalidade de incitar o visitante desse espaço a ponderar de forma efetiva sobre os assuntos aqui destacados e se aprofundar na pesquisa sobre essa inspiração filosófica, tão bem encarnada nas obras e nos atos do filósofo francês, Emmanuel Mounier.

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