Emmanuel Mounier (1905-1950) e sua filha Anne

Espaço para difusão da filosofia personalista de Emmanuel Mounier e para ponderações de vários temas importantes, tendo como referência essa perspectiva filosófica.

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

É POSSÍVEL DEFINIR O PERSONALISMO?

É POSSÍVEL DEFINIR O PERSONALISMO?

JUAN MANUEL BURGOS*


1. UMA OPINIÃO CORRENTE

Ante a esta pergunta cabem variadas posições que podem ir desde a negação completa, entendido como a negação da existência de tal corrente de pensamento, até a afirmação convencida da importância e interesse desse movimento filosófico. Existe também a possibilidade de uma posição intermediária, relativamente difundida, que se coloca a meio caminho entre os dois extremos. (1)

Para os representantes desta postura o personalismo pode ser caracterizado como uma corrente filosófica que nasceu na França com Emmanuel Mounier ao redor dos anos 30 e tem conseguido alguns êxitos intelectuais importantes: enfatizar a centralidade da pessoa; servir como um freio para as tendências totalizantes do marxismo e o nazismo como o individualismo exagerado; colocando em prática uma série de conceitos anteriormente negligenciadas em algumas áreas de reflexão filosófica: amor, doação, diálogo, relações interpessoais, etc.

Estas conquistas se refletiria, por exemplo, na maior frequência com que aparecem todas estas questões no atual debate cultural, em sua contribuição para o enfrequecimento ideológico dos grandes sistemas totalitário e sua influência mais ou menos explícita, sobre toda uma série de eventos culturais, que variam desde a Declaração Universal dos direitos do Homem pela ONU as Categorias antropológicas usadas na Constituição Italiana, após a Segunda Guerra Mundial ou formulações do Concillio Vaticano II, com um exemplo particularmente importante da Constituição Pastoral "Gaudium et spes".

Juntamente com estes elementos positivos deve notar, no entanto, um importante limite teórico do personalismo: sua baixa densidade e sua pouca consistência especulativa. O personalismo seria uma doutrina muito instável, muito flexível e genérica, e isto significativamente limitaria suas possibilidades intelectuais. No fundo, se você pensa a partir desta posição, já teria obtido praticamente tudo aquilo que seus recursos teóricos lhe permitem e não seria possível ir mais longe sem cair já em concepções tão neutras e adoçadas que perderiam toda força e significado. Em outras palavras, querendo obter mais fruto do personalismo, não levaria mais que a insistir em uma série de temas e conceitos já assumidos parcialmente pelo ambiente cultural e que, portanto, não possuem sua força inicial.

É correta esta postura? Na realidade, o problema não é novo. Um problema semelhante, com efeito, já se levantou com respeito ao personalismo francês. Era esse movimento, se perguntavam os participantes neste debate, uma corrente filosófica em sentido estrito ou devia ser considerado como um movimento cultural de certa força, mas sem um programa especulativo próprio?

A este respeito tem sido sempre emblemática a resposta que, já em 1947, Maritain deu a esta questão em sua obra La personne et le bien commun. “Não havia nada mais falso, afirmava que falar do ‘personalismo’ como uma doutrina. É um fenômeno de reação contra dois erros opostos sim inevitavelmente um fenômeno completo. Não há uma doutrina personalista, senão aspirações personalistas e uma boa dúzia de personalistas que talvez não tem em comum mais que o nome de pessoa, e das que algumas tendem em maior ou menor grau para um dos erros opostos entre os quais se colocam. Há personalismo de caráter nietzscheano e personalismos de caráter proudhoniano, personalismos que tendem para a ditadura e personalismos que tendem para a anarquia. Uma das grande preocupações do personalismo tomista consiste em evitar um e outro excesso” (2).

Jean Lacroix adotou uma posição similar em sua obra O personalismo como anti-ideologia (3). Para este autor, como observa Rigobello, “o personalismo não seria uma filosofia própria e autêntica, como queriam seus seguidores mais entusiastas, nem um tipo de ideologia, como o definem seus inimigos, senão uma anti-ideología, ou seja, um "fenômeno" de reação.” (4). O personalismo surgiria fundamentalmente como reação aos opostos excessivos e erros do individualismo e do totalitarismo, de modo que sua força principal residiria nesta capacidade de negação e não poderia se falar de uma doutrina personalista positiva em sentido estrito.

2. MOTIVOS PARA UMA REVISÃO

A posição que acabamos de descrever nos parece medida e, em alguns pontos, acertada, porem estimamos que não faz justiça completa ao fenômeno personalista. Exporemos algumas das razões que nos levam a realizar esta afirmação.

Em primeiro lugar esta posição se move em um horizonte histórico e geográfico muito limitado. O personalismo, com efeito, não pode ser simplesmente identificados com o personalismo francês. É certamente de Mounier o mérito de ter popularizado e elevado à categoria de corrente de pensamento através do Movimento Cultural que tinha como um centro de gravidade, a revista "Esprit". Mas, precisamente em virtude do sucesso que ele conseguiu a esta iniciativa, o personalismo se deteve com o desaparecimento de Mounier.

Se deixarmos de lado o personalismo norte americano do início do século que, com autores como Bowne, Howison, Flewelling e Brightmann, que tem percorrido uma via original e própria, e nos limitamos ao âmbito europeu, podemos detectar hoje em dia numerosas escolas e pensadores que se referem de um modo mais ou menos explícito ao personalismo: a escola polaca com representantes da estatura de de K.Wojtyla; em território italiano com autores como Stefanini, Pareyson, Carlini, Buttiglione(5); R. Guardini, F. Ebner y H.U. von Balthasar no âmbito da língua alemã; J. Marías, A; López Quintás e outros e no âmbito da língua espanhola, etc. (6)

Mas, para além do aspecto histórico, há outra questão mais importante que permite pôr em dúvida a descrição anterior. O personalismo, na realidade, não tão genérico do ponto de vista especulativo como poderia deduzir a partir de esta caracterização e sem um análise tão atenta e adequada é fácil descobrir um estremado quadro conceitual relativamente claro, preciso e potente.

Podemos abordar esta questão usando um ponto de vista negativo, ou seja, estudando o modo em que se distingue de outras filosofias. Um ponto de referencia útil para esta linha é a neo-escolástica. Os laços que unem essas duas correntes são múltiplos e variados, porém, o que agora nos interessa sublinhar é que um setor da neo-escolástica sempre tem rejeitado as posições personalistas por considerar que modificam pontos essenciais de seu sistema. Esta recusa foi manifestada em algumas ocasiões de forma polêmica e, em muitas outras, como uma simples negativa de este grupo de pensadores para a possibilidade de definir ou de serem considerados personalistas. No entanto, nesta atitude já é possível encontrar a falta de neutralidade ideológica do personalismo a que nos referíamos. Este se apresenta, com efeito, como uma corrente capaz de propor ao nível técnico uma série de soluções inaceitáveis pelos representantes de outras correntes filosóficas.

É evidente, de todos os modos, que esta caracterização negativa é a todos claramente insuficiente. Se você deseja modificar de modo substancial a opinião que temos descrito a tarefa que deves levar a cabo é uma caracterização positiva do personalismo em uma ampla gama de questões: sua posição gnosiológica; o papel que desempenha a metafísica no interior de seu sistema; o papel que deve ser atribuído a subjetividade e a relacionalidade em sua articulação antropológica; o modo em que se coincide a relação entre filosofia e práxis, entre fé e razão; a possibilidade de encontrar um mínimo múltiplo comum entre os diversos pensadores personalistas que justifique una designação unitária; etc.

3. PESSOA E PERSONALISMO

Este programa excede, evidentemente, as possibilidades de uma comunicação e por isso nos temos limitado a tratar um único ponto. Temos procurado escolher, de todos os modos, uma questão que, em nossa opinião, é central e que permite caracterizar de um modo claro esta corrente filosófica: o papel que desempenha a pessoa no personalismo.

É evidente, praticamente tautológico, afirmar que a noção de pessoa exerce um papel central no personalismo. O que não é tão evidente, no entanto, é o modo em que se estabelece essa centralidade e os efeitos que daí se origina. É possível, com efeito, falar da centralidade da pessoa em uma determinada filosofia em dois sentidos diferentes.

A primeira possibilidade é de uma centralidade que poderíamos denominar genérica, ou seja, uma centralidade que se manifesta simplesmente em que neste tipo de filosofia se reconhece no homem um valor singular, uma dignidade importante e um papel relevante em alguns âmbitos precisos: a filosofia social, a filosofia política, a filosofia da história, etc. Filosofias deste tipo existem muitas e, em particular, pode se dizer que qualquer filosofia que queira ser compatível como cristianismo deve, em maior ou menor medida, estar configurada deste modo.

O personalismo, no entanto, não se limita a dar esta centralidade genérica a noção de pessoa mais vai mais longe, e dá o que poderíamos denominar uma centralidade estrutural . O personalismo, em outras palavras, não somente dá importância as pessoas em sua, mas se constrói tecnicamente em torno desse conceito. A pessoa não constitui simplesmente uma realidade relevante, mas o elemento de experiência e de noção de que depende e ao redor da qual se constrói o andaime conceitual deste tipo particular de filosofia.

Parece-nos que pode ser útil dar alguns exemplos para especificar o que queremos dizer.
A filosofia neo-escolástica é uma filosofia claramente personalista (ou pessoal) no sentido genérico que acabamos de indicar. Dentro desse sistema intelectual, o homem tem sem nenhuma dúvida um papel importante, uma individualidade e um destino, uma dignidade elevada. Agora bem, podemos perguntar: a noção de pessoa desempenha um papel central nesta estrutura filosófica?

A resposta parece-nos ser necessariamente negativa. A neo-escolástica não se articula estruturalmente em torno da realidade da pessoa e sua conceituação em termos filosóficos, mas em outros conceitos, que desempenham um papel fundamental nesta construção: a essência e o ato de ser, o ato e a potência, substância e acidentes. Estes são os termos centrais desta filosofia, enquanto a pessoa é uma realidade secundária que se explica precisamente através de uma combinação específica e caracterização deste conjunto de categorias.

Julián Marías, a partir de sua particular posição filosófica, tem exposto esta questão com clareza "Quando, já na escolástica tentou-se pensar filosoficamente na pessoa, as noções que têm sido decisivas não são procedentes desses contextos, mas as de “propriedade” ou de “substância” (hipóstase). A famosa definição de Boécio, tão influente, persona est rationalis naturae individua substantia partiu da noção aristotélica de ousia ou substância, pensada principalmente para as "coisas", explicada sempre com os eternos exemplos da estátua e da cama, fundada no antigo ideal grego do "independente" ou suficiente, do "dissociável" (khoristón). Que esta substância ou coisa que chamamos de "pessoa" seja racional, é sem dúvida importante, mas não o suficiente para reabrir-se em relação ao caráter da ousia e mudar sua maneira de ser, sua maneira de realidade. A pessoa é uma hypóstasis ou suppositum como os demais, só que de natureza racional. (9)

Vamos ver agora, sem embaraço, qual é o papel que desempenha a noção de pessoa em dois autores personalistas de características diferentes: Karol Wojtyla e o próprio Julián Marías.

4. KAROL WOJTYLA

Podemos analizar o pensamento de Karol Wojtyla sobre este ponto recorrendo a sua obra principal, Pessoa e ação. O tíulo em si, já é significativo, porém, mais ainda é o titulo escolhido para a versão inglesa (que por sua vez, se ajusta mais fielmente ao original polaco) The acting person (10) Wojtyla, com efeito, pretende analisar nesta obra uma realidade unitária, “a pessoa que age” ou, mais precisamente, a pessoa através de sua ação. Este estudo se propõe em longo prazo como um momento necessário para a fundação da ética, já que Wojtyla, com efeito, é fundamentalmente um ético e seus trabalhos nesta área, o fizeram ver a necessidade de dispor de uma nova fundamentação antropológica de relação entre pessoa e ação. Esta é a tarefa global que acomete em Pessoa e ação, mas o que nos interessa agora é nos concentrar exclusivamente sobre um ponto: o papel do conceito de pessoa.

No entanto, neste texto a pessoa não aparece como uma noção última à que se chega na culminação de um discurso filosófico estruturado sobre outras noções, senão que constitui a estrutura primeira e central de toda a argumentação. Wojtyla parte de um fato experimental que se apresenta como um dado fenomenológico primário: “a pessoa que age”, isto é, a realidade do binômio inseparável da pessoa e de sua ação. Não existe uma pessoa que não age, e não existe uma ação sem pessoa. O que nos oferece a experiência é precisamente “the acting person”, a pessoa que está sempre atuando. Este binômio é o que se encontra na base de toda a ética e é o que Wojtyla quer explorar para conhecer com profundidade os diversos elementos que o articulam.

O método que adota é original. Normalmente, sobretudo na tradição da filosofia do ser, se tem estudado o ato como uma consequência da pessoa ou, em outras palavras, se tem estudado a ação humana pressupondo já a existência de uma pessoa constituída. “O objetivo de nosso estudo, afirma Wojtyla, entitulado Pessoa e ação, é inverte esta relação. Não se trata de uma dissertação sobre a ação em que se pressupõe a pessoa. Temos seguido uma linha distinta de experiência e entendimento. Para nós, a ação revela à pessoa, e vemos à pessoa através de sua ação. A própria natureza da correlação inerente à experiência, na própria natureza da ação do homem, implica que a ação constitui o momento específico por meio do qual se revela a pessoa. Conhecemos o homem enquanto pessoa A ação oferece-nos o melhor acesso para penetrar na essência intrínseca da pessoa e nos permite atingir o maior grau possível de conhecimento da pessoa. Nós experimentamos o homem enquanto pessoa, e estamos convencidos disso, porque realiza ações. (11) Mais adiante acrescento para responder uma possível objeção: “tem-se observado muitas vezes que o homem se manifesta a si mesmo através das ações, através de sua atuação, porém, estas afirmações não faziam referência necessariamente as estruturas do homem enquanto pessoa” (12)

Finalmente, podemos nos perguntar: qual é o ponto de partida desta pesquisa? - ou, mais precisamente: qual é o meio cognitivo que permite o acesso à realidade quer se deseja estudar? O meio cognitivo empregado por Wojtyla é a experiência do homem, ou seja, a experiência que cada pessoa possui de si mesma como uma realidade irredutível e original para o resto do mundo e as pessoas. Esta é a fonte da realidade da qual inicia Wojtyla para analisar a estrutura “o homem age”: a experiência peculiar que cada pessoa estabelece entre seu 'eu' e a sua atividade. (I3)

Pensamos que não é necessário prolongar este análise pois que já parece suficientemente claro o ponto que queríamos mostrar. O pensamento de Karol Wojtyla é personalista não só porque põe a pessoa no centro de sua reflexão, mas porque sua filosofia se estrutura tecnicamente em torno desta noção.

5. JULIÁN MAR1AS

Algo semelhante se pode dizer de Julián Marías, mas com as matizes que mais adiante indicaremos. Este autor trabalha com umas categorias filosóficas bastante distintas das de Wojtyla no qual foi realizado em Persona y acción uma análise inovadora, porém relativamente clássica (no sentido aristotélico-tomista) por sua forte carga ontológica. Marías, no entanto, estrutura sua visão antropológica de um modo muito diverso. Seu ponto de partida, com efeito, é a vida humana, a realidade dinâmica, móvel e vibrante da vida.

Por este motivo poderia parecer, talvez, que no seria possível encontrar pontos de contato entre estas duas posições, a saber, uma antropologia ontológica modernizada e uma antropologia do tipo vitalista. No entanto, não é assim e isto se pode prevenir se nos fixarmos no ponto de partida. A experiência que o sujeito possui de si mesmo e que constitui a fonte gnoseológica da filosofia de Wojtyla não está, com efeito, muito longe do ponto de partida da filosofia de Marías: a realidade de minha vida.

Marías é personalista em primeiro lugar porque não está interessado em elaborar noções filosóficas que se possam aplicar a todas as categorias do real senão que, consciente da originalidade da pessoa, sabe que o homem necessita, para ser adequadamente tratado pela filosofia, de umas categorias próprias e especiais. Porém, não se trata unicamente disto. Encontramos, ademais, uma convicção semelhante de que o aceso para a realidade do homem é fundamentalmente pessoal e próprio, isto é, que cada sujeito - e, portanto, também a filosofia - opera através de sua própria experiência vital. Eu sei o que significa ser homem, principalmente, porque tenho experiência de mim mesmo. Esta experiência, em Wojtyla, era o principio de sua antropologia ontológica. Pois bem, uma experiência semelhante é encontrada no inicio da filosofia de Marías: a experiência completamente singular e irrepetível de minha vida. “quando falamos de uma noção genérica de vida, afirma, perdemos toda intuição e todo sentido diretamente controlável. Deve-se proceder ao contrário: a única vida que me é diretamente acessível, que me é imediatamente patente, é a minha; partindo dela, removendo e colocando, posso, talvez, chegar a entender de alguma maneira o que quer dizer "vida" quando falamos da vegetal, a animal, a angélica e a divina”. (14)

E é da análise desta vida, da vida do homem que sou eu, de onde surgem as diversas categorias da filosofia de Marías: a estrutura analítica como descrita por Ortega, a estrutura empírica com todas suas determinações: a instalação corpórea, a condição sexuada, a mundanidade, a mortalidade, etc. Todas estas determinações são determinações da vida do homem, fazem sempre referencia direta a esta vida concreta e se estruturam em torno a ela; não são categorias obtidas de outras realidades e que, mais adiante, se aplicam ao homem. São categorias que surgem da análise estrutural da pessoa humana e que servem somente para ela.

Poderia objetar-se que Marías não estrutura sua filosofia em torno da noção de pessoa, mas da vida humana e que, portanto, em sentido estrito, não poderia ser considerado personalista. A objeção é pertinente e levanta a questão de até que ponto pode ser considerado como pertencentes ao personalismo autores cuja formação intelectual é muito diversificada. Marías constitui-se, talvez, um caso extremo deste problema pela originalidade de sua posição enquanto que outros autores, como Mounier ou Guardini, no expõem particulares problemas. (15)

No entanto, precisamente esta dificuldade pode servir para por a prova as hipóteses que temos dito. E, tendo em conta todos estes fatores, pensamos que é correto considerar como personalista Marías, porque o fundo de suas formulações responde as características que temos indicado. Por um lado, seu ponto de partida é a experiência da vida da pessoa individual; por outro, suas categorias filosóficas se estruturam em torno desta noção. E, o que é mais importante, toda a teoria de Marías tem como objetivo evitar o fenômeno de coisificação da pessoa que se tem produzido na filosofia ocidental, ou seja, a tendência a falar filosoficamente da pessoa com as categorias de uma coisa. Para evitar este problema, Marías achou conveniente usar categorias derivadas da experiência da vida humana e por isso se pode colocar plenamente no interior do personalismo, ainda que, dentro de uma área particular e com características singulares. (l6)

CONCLUSÃO

Podemos agora retomar a pregunta que nos fizemos no inícios das páginas para intentar valorar os resultados obtidos. É possível definir o personalismo? Já temos demonstrado que uma resposta adequada requereria um espaço muito maior do que aqui temos empregado. Parece-nos, de todos os modos, que temos mostrado a existência de um critério que permite discriminar com uma certa segurança entre filosofias que se limitam a valorar pessoa e filosofias que se podem denominar personalistas em sentido estrito.

Observamos também, aplicando-o na filosofia de Julián Marías, que este critério não resolve de modo automático todos os casos que se podem apresentar e isto sugere a possibilidade de por a prova sua validez em outros contextos e com outros autores. De todos os modos, e apesar destes limites, nos parece que se pode afirmar que estamos ante um instrumento conceitual útil para penetrar no significado do personalismo e para intuir tanto a originalidade das estruturas conceituais que se escondem sob este termo como sua capacidade para acercar-se com uma visão mais aguda e penetrante das raízes de novos e antigos problemas filosóficos.


*JUAN MANUEL BURGOS: Doutor em Filosofía (1992) com a tese: O conhecimento moral espontâneo em Jacques Maritain e Doutor em Astrofísica (1988), com a tese: Nucleossínteses hidrodinâmica em novas de O-Ne-Mg
Presidente e Fundador da Associação Espanhola de Personalismo (2003)
Professor da Universidade San Pablo- CEU (Madrid)
- Diretor Acadêmico do Instituto de Ciencias de la Familia (Guatemala)
- Profesor do Mestrado de Bioética da Universidad Rey Juan Carlos, a Universidad de Navarra e a Universidad Católica de Valencia.
- Editor em Ediciones Palabra
Tem sido professor convidado na Universidad Católica de Córdoba (Argentina), Universidad Austral (Argentina), Universidad Católica de Paraguay, Universidad de Montevideo, Universidad del Istmo (Guatemala), Universidad Galileo (Guatemala), Pontificia Universidad Bolivariana (Colombia), Universidad Católica de Chile, Universidad de Los Andes (Chile), Universidad Santo Tomás (Chile), Istitute of Hispanic Culture (Houston).
3. Pertence as instituições como:
- Membro do Instituto Internacional Jacques Maritain (1999)
- Miembro del Comité Científico de la Revista “Cuadernos de Bioética”, “Persona” (Argentina), “Personalism” (Polonia), Prospettiva Persona (Italia)
- Miembro del Observador de Bioética de la Universidad Católica de Valencia
É autor dos livros:
- La inteligencia ética. La propuesta de Jacques Maritain, Peter Lang, Berna 1995
- El personalismo. Autores y temas de una filosofía nueva, Palabra, Madrid (2ª ed., 2003). Traduzido para o polaco.
- Antropología: una guía para la existencia, Palabra (4 ed. 2009)
- Diagnóstico sobre la familia, Palabra, Madrid 2004
- Para comprender a Jacques Maritain. Un ensayo histórico-crítico, Ediciones Mounier, Salamanca 2006
- Hacia una definición de la filosofía personalista (ed., en colaboración con J. L. Cañas y U. Ferrer), Palabra, Madrid 2006; Promesa, Costa Rica 2008.
- La filosofía personalista de Karol Wojtyla (ed.), Palabra, Madrid 2007
- Repensar la naturaleza humana, Eiunsa, Madrid, 2007
- El vuelo del Alción. El pensamiento de Julián Marías (ed. con J. L. Cañas), Páginas de Espuma, Madrid 2009, 447 págs.
- Reconstruir la persona. Ensayos personalistas, Palabra, Madrid 2009, 304 págs.

Tradução livre: Lailson Castanha
______
(l) Sobre o personalismo pode-se consultar T. URDÁNOZ, História da filosofia, vol. VIII, BAC. Madrid: 1985, pp. 385-412 E G. REALE-D. ANTISERI, JI pemiero occidentale dalle origini ad oggi, Vol. 3, La Scuola, Brescia: 1985'. pp. 547-558 Em ambos os casos se faz referência, no entanto, apenas para personalismo francês.
(2) J. MARlTAIN, La personne et le bien commun, Oeuvres completes, vol IX, Édirions Universiraires-Éditions Saine Paul, Fribourg (Suisse)-Paris, p. 170.
(3) J. LACROIX, Le personnalisme comme anti-idéologie, Paris 1972.
(4) A. RIGOBELLO (a cura di), JI personalismo, Cirra N uova, Roma 1978, p. 13.
(5) Estimamos que na Italia o personalismo se converteu em uma auténtica koiné cultural em que transitam um grande número de intelectuais de variados e diversos âmbitos.
(6) Algumas indicações sobre as diversas correntes personalistas se encontram na
obra já citada de A. Rigobello.
(7) Existem diversos laços positivos. Por exemplo, Maritain pode ser considerado um representante do personalismo tomista e Wojtyla, que se diferencia de Maritain por ser um autor estritamente personalista, está também muito ligado a tradição da filosofia do ser.
(8) Não são alheias a esta questão algumas das polêmica ocasionadas pelas obras de Jacques Maritain, em particular por La personne et le bien commune y Humanisme lntégral. Embora Maritain não é no sentido estrito um personalista sua obra, em certos aspectos, representa uma tarefa de mediação entre o tomismo e algumas instancias personalistas. E são precisamente estes novos elementos os causadores de uma parte dos debates intelectuais e polémicos em que se viu envolvido. Algumas indicações mais precisas sobre esta questão se pode encontrar em J.M. BURGOS, Cinco chaves para comprender Jacques Maritain,
“Acta Philosophica”, 4-1 (1995), pp. 5-25 y ].M. BURGOS, A inteligência ética. A
proposta de Jacques Maritain, Peter Lang, Bern 1995. Esta última obra tematiza sua posição de mediação entre tomismo y personalismo no que se refere a um caso concreto: a concepção da inteligência prática e do conhecimento moral.
(9) J. MARlAs. Antropología metafisica, Alianza. Madrid 1987. p. 41.
(10) Un importante comentario a esta obra lo ha realizado Burriglione en R. BUTTIGLIONE. El pemamiento tÚ Karol Wojtyla, Encuentro. Madrid 1992. pp. 141-209.
11. K. WOJITLA, Pmonayacción, BAC, Madrid 1982, pp. 12-13.
12. ibid., nota 3 na p. 33 (grifo nosso, temos modificado ligeiramente a tradução espanhola para aproximá-la ao texto definitivo inglês).
13. “Quando falamos da experiência do homem, nos referimos principalmente
ao fato de que nesta experiência um homem tem que enfrentar-se a si mesmo, ou seja,
entrar na relação cognitiva com seu próprio eu” (ibid, p. 3).
14. J. MARtAS, Antropología metaftsica, cit., p. 54.
15. Pensamos que para justificar esta afirmacão, posto que agora não seja possível entrar em análises do pensamento destes autores, pode bastar a referencia a algumas de suas Obras. De Mounier pode-se citar, por exemplo, Revolution personnaliste et communautaire (1935), Manifoste au service du personnalisme (1936), Qu'est-ce que le personnalisme? (1947) y de Guardini, Welt und Person (1939).
16. Rigobello (cfr. A. RIGOBELLO, JI personalismo, cit., pp. 263 ss) qualifica Marias como um personalista do tipo ontológico-existencial. Talvez seria mais adequado denominar sua posição personalimo vital.

Fonte: Esse artigo foi traduzido a partir do texto em espanhol publicado no site Asociasión Españhola de Personalismo - personalismo.org no endereço: http://www.personalismo.org/recursos/articulos/es-posible-definir-el-personalismo/
http://dspace.unav.es/dspace/bitstream/10171/5564/1/JUAN%20MANUEL%20BURGOS.pdf
Foto: Juan Manuel Burgos

domingo, 21 de novembro de 2010

Relevância da Filosofia Personalista em tempos hodiernos.

RELEVÂNCIA DA FILOSOFIA PERSONALISTA EM TEMPOS HODIERNOS

.Ao Prof. MS. Daniel da Costa, pelo seu empenho em encarnar os ideais personalistas e esforço em apresentá-los à sociedade..

Lendo Martin Buber fui levado a pensar na maneira inadequada em que nos relacionamos com a natureza que nos cerca e com as pessoas que nos rodeiam. Buber apresenta como ideal um modelo, a vivência de relacional apresentados nos termos EU-TU. Com prática dessa vivência nos encontramos no outro ao passo que o outro se percebe em nós. Em nosso atual modelo de vivência social essa forma de relacionamento destacado por Buber torna-se quase impossível de ser adotada, pois, usando os termos de Buber, assumimos o modelo Eu-isso, um modelo que nos afasta das coisas que nos evolvem - tornando-nos insensíveis a realidade do outro. Nossa sociedade burguesa vivenciadora do modelo Eu-isso está longe do alcance percepcional revelador de que as coisas, a natureza e as pessoas que nos rodeiam devem ser percebidas como um “um-conosco”, e não a maneira pragmática - um “para-nós”.
A partir dessa análise, recebendo estímulos de amigos personalistas com suas ideias manifestas, percebi, mais uma vez, a pertinência da filosofia personalista, mais uma vez fui levado a observar a filosofia personalista se configurando como imprescindível em tempos hodiernos.
Sabendo que somos tendenciosos, e, por conta disso, costumamos elevar nossas aspirações e tendências a categoria do indispensável, permiti que fossem desenvolvidas em minha mente algumas indagações, com o propósito de aferir a validade de minhas convicções sobre a pertinência da filosofia personalista. O caminho que me fez traçar essas perguntas reforçaram em mim a convicção de que um novo discurso deve ser lançado com a finalidade de incitar na sociedade um desejo de agir em prol da transformação de seu atual estado para um modelo mais harmonioso, que leva em consideração às reais necessidades do ser humano vivente em uma sociedade tão plural e complexa. Sabedor que minhas convicções não são definitivas, intento desde já abrir essas questões que se desenvolveram em minha mente para que mais pessoas possam ao menos seguir a trilha que me levou a crer na pertinência da Filosofia personalista, e a partir disso, pessoalmente se posicionar. Portanto não poso seguir essa assertiva sem apresentar as seguintes questões que permiti que agitassem a minha mente, a saber:
.
. O que é a Filosofia Personalista?
. Seria o discurso da Filosofia Personalista realmente imprescindível?
. O que a Filosofia Personalista tem para contribuir em nossa sociedade? O que ela traz de diferente em relação às coisas que já foram ditas e construídas por uma grande diversidade de engenhosos sistemas de idéias?
.Creio que respostas honestas para perguntas honestas não devem ser respondidas instantaneamente, como uma peça substituída a compor a engrenagem. Creio que existem questões, de tão complexas, não podem ser respondidas de forma automática. Levo essa ideia como diretriz a todo o momento em que sou colocado diante de questões sérias.
Quando falamos sobre a filosofia personalista, devemos ter cuidado em não reduzi-la a um aspecto que a compõe. Por exemplo, não podemos apresentar a Filosofia Personalista como a filosofia comprometida com a pessoa ignorando sua preocupação e comprometimento em ser uma filosofia da ação, como também não podemos ignorar que o engajamento personalista, apesar de não ser um sistema, não dispensa totalmente a sistematização da ordenação do pensamento, da construção de uma efetiva Filosofia, pois agir e pensar sem ordem se configura em um desnorteio. Como já afirmara Mounier, “O Personalismo é uma filosofia, não é apenas uma atitude. (...) Não foge a sistematização. Portanto o pensamento necessita de ordem: conceitos, lógica, esquemas unificantes... (...) Porque define estruturas, o personalismo é uma filosofia, e não apenas uma atitude.” (1).


Afirmar que o personalismo é uma filosofia, não evidencia sua pertinência. A importância dessa filosofia, não se encerra no fato de ser mais uma filosofia a ser conhecida, a ser estudada e discutida na ambiência acadêmica. A relevância da filosofia ardorosamente defendida por Emmanuel Mounier é que ela é um esforço para compreender o ser humano em sua integralidade, entendendo por integralidade humana, todos os aspectos que permeiam e envolvem a existência humana, e não somente um esforço para compreender. Esse esforço é uma forma de conhecer para agir - para, com isso, efetivamente e com propriedade, se envolver na problemática abordada. Por ser uma filosofia que aborda com efetivo envolvimento as questões que permeiam a existência humana – o personalismo torna-se imprescindível.
.Não podemos nos contentar em meio à crise social, moral, política, econômica e religiosa que envolve o mundo, com filosofias etéreas, idealistas, especulativas ou reducionistas - como as que são tratadas nas universidades. Filosofias inchadas, que emprestam um ar de erudição para quem as domina, porém, não tendo nenhuma relação com o ser humano integral – ser envolvido em uma série de crises. A filosofia Personalista é importante porque leva em consideração os problemas do ser humano enquanto pessoa, e não como uma ideia abstrata a ser desenvolvida, como uma massa coletiva ou como um indivíduo que resolve-se de maneira isolada.
.Na época de seu principal articulador, Emmanuel Mounier, a Filosofia personalista através do círculo intelectual que a delineava (Esprit), enfatizou o problema da crise da civilização, tão escandalosamente destacadas a partir da eclosão da primeira Grande Guerra (1914-1918) e na florescência da Segunda Grande Guerra (1939-1945). Hoje, apesar dos diferentes aspectos, essa crise ainda se faz vigorosa. A matéria prima dessa crise é a mesma de outrora, a saber, a desumanização nas instituições e nas relações entre os homens. Engajada através de seus interlocutores, a Filosofia Personalista denuncia essa crise e busca, através do diálogo -, porque dialogar é uma de suas vocações, superar essa crise propondo a instauração de uma nova vivência social, a civilização personalista e comunitária, uma civilização, segundo Mounier, “cujas estruturas e espírito estão orientadas para a realização da pessoa que é cada um dos indivíduos que a compõem”.
.Enfrentar a realidade da pessoa humana aceitando seus desafios e neles se envolvendo, aceitar a integralidade do ser humano, se envolvendo na vocação do homem encarnado na existência, sem rejeitar suas demandas espirituais, faz do personalismo de matriz mounieriana uma filosofia diferente daquelas oralizadas por pedantes intelectuais, filósofos profissionais e friamente academicistas, compromissados apenas com o seu ego e com a manutenção de suas vaidades, enquanto que, descompromissados com a realidade do ser humano integral e suas reais demandas.
.Denunciar a “desordem estabelecida”, se envolver com pessoas engajadas para a realização de uma nova civilização aponta o contributo do Personalismo como uma filosofia distinta e a sua pertinência.
.Há muito que se fazer -, como enfaticamente aponta o Prof. Daniel da Costa, é necessidade premente os personalistas se envolverem em todas as camadas da sociedade, em todos os campos de atividade para deles e neles extrair respostas e apontamentos visando os melhores meios de tornar a tão sonhada sociedade personalista uma realidade.
Temos muito trabalho pela frente, não podemos nos desanimar, afinal, de que adianta a prática do filosofar se dela não surja frutos a serem colhidos para proveito da a existência humana? Como personalistas admitimos com Mounier que “não basta compreender, é preciso fazer. O nosso fim, o fim último, não é desenvolver em nós ou em torno de nós o máximo de consciência, o máximo de sinceridade, mas assumir o máximo de responsabilidade e transformar o máximo de realidade à luz das verdades que tivermos reconhecido." (2)
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Citações
.(1) MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
(2) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
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Referências
.BUBER, Martin. Eclipse de Deus: considerações sobre a relação entre a religião e a filosofia. Tradução Carlos Almeida Pereira. Campinas: Verus editora, 2007.
MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
______. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
WARD, Keith. Deus: Um guia para os perplexos. Tradução Susana Schild; apresentação à edição brasileira Leonardo Boff. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.
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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Jean LACROIX – Uma Biografia.

JEAN LACROIX – Uma Biografia.

Nascido em uma família burguesa católica, Jean Lacroix fez seus estudos secundários no Collège Dominicain d'Oulins, em seguida, no Collège Jésuite de la rue Sainte-Hélène. Matriculou-se na Faculdade Católica de Lyon, e obteve bacharelado em letras e licenciatura em direito. Volta-se então para a filosofia e apresenta uma tese em Grenoble, sob a direção de Jacques Chevalier: entra no "grupo de estudo", fundado por Chevalier com a ajuda de Jean Guitton. Matriculou-se na Sorbonne, onde Brunschvig o apresentou ao idealismo, e obtém agregação em filosofia em 1927. Passa a conhecer Laberchonnière e freqüenta com Guitton, o grupo de Davidées de Mlle Silve, onde conheceu Emmanuel Mounier 1928.

Nomeado professor do Liceu de Dijon, se envolve nos preparativos para o lançamento da Esprit engajando-se com Mounier. Fundou em Dijon um dos grupos mais antigos e mais animados da Esprit, no qual ele encontra várias pessoas, incluindo jovens e professores, cristãos e socialistas. Nessa ocasião, Lacroix em 1937 a 1968, em Lyon ele ensinou nas aulas preparatórias de letras superiores e escola primária superior do Lycée du Parc.

Pode-se dizer de sua educação - muito eficaz para a competição bem sucedida na escola superior normal, principalmente para estudantes que não são filósofos - que era clássico pelo seu método e moderno em sua abertura à todas as correntes do pensamento contemporâneo do existencialismo ao estruturalismo, do marxismo à psicanálise.

Desde de seu regresso à região de Lyon, Lacroix se juntou à intimidade intelectual e espiritual de P. Albert Valensin, professor de teologia na Faculdade Católica, discípulo e amigo íntimo de Maurice Blondel. Torna-se membro da Sociedade Lyonesa de Filosofia, liderado pelos ex sionistas (1) Victor Carlhian e por Auguste Valensin. Conheceu Vialatoux. Também foi o organizador do grupo Esprit de Lyon, que seria o foco principal do movimento na província.

Lacroix foi um membro do comitê de direção da revisão e até a morte de Mounier em 1950 permanecendo ao tempo da direção de Albert Béguin até 1957 ano da morte do colaborador suíço. Seus inúmeros artigos na revista dizem respeito principalmente sobre pensamento político, os socialistas e o sindicalismo, o papel do direito, da democracia, dos comunistas e da responsabilidade cristã. Ele colabora, em 1938-1939 com a Voltigeur, folha política bimestral, lançada pela equipe da Esprit, em Munique. Na tarefa confiada a Lacroix na famosa edição especial sobre o marxismo Esprit (maio-junho 1948), de destacar a linha da revista, fez em um artigo intitulado "Marx e Proudhon," com clareza e o espírito de síntese que o distinguiu nos seus escritos.

De 1940 a 1942 deu a École Nationale des cadres d'Uriage uma série de conferências sobre a pátria, sobre Peguy, Marx, Marx, e sobre vários temas da pedagogia, psicologia e ética. Esta educação contribui para a orientação de abordagem educativa e saúde espiritual da l'équipe d'Uriage vers la Résistance (equipe Uriage para resistência), e no sentido de uma revolução social e humanista.

Em 1945, Hubert Beuve-Méry confiou-lhe coluna mensal de filosofia no jornal Le Monde. Lacroix irá cumprir esta tarefa regularmente até 1980. Seus artigos foram reunidos em uma série intitulada "Panorama da Filosofia Contemporânea (1968, 1990).
Jean Lacroix foi um participante ativo no e crônica social das Semanas Sociais da França, não só em artigos e palestras que ele deu a estas duas instituições de origem Lyonesas (oito cursos de Semanas Sociais, entre 1936 e 1964), mas através de uma cooperação eficaz no desenvolvimento de projetos e de definições de políticas (foi membro da Comissão Geral das Semanas Sociais de 1945). Em 1936, desempenhou um papel de mediação social entre os católicos (Duthoit, as equipes da revista política e crônica social) e seus amigos no movimento da Esprit que preferem engajamentos não confecionais.

Em 1947, suas palestras na Semana Social em Paris, "o homem marxista" provoca uma sensação de agitação. Ele dá o exemplo da atitude de "simpatia metodológica” que caracteriza a sua abordagem às correntes contemporâneas de pensamento da qual ele também manteve um diálogo aberto constante, por mais difícil que em muitas vezes se fizesse com os amigos intelectuais comunistas.

Tendo defendido, a partir de 1937-1938, a opção de união NMS, aderindo à CFTC, também participa, especialmente depois de 1945, do desenvolvimento da Paroisse universitaire " (membros católicos do ensino público), relator, em várias ocasiões par "jornal acadêmico" é também um dos colaboradores e amigos do P. Dabosville, capelão nacional de 1946 à 1963.

Lacroix também dá palestras na Sociedade Europeia da Cultura, dirigido por Umberto Campagnolo. É freqüentemente convidado a outros países: de grandes audiências, na Bélgica, Suíça, Canadá, ou em países do Magrebe e da América Latina, com a intenção de exprimir sobre as grandes questões que a sociedade e o homem moderno enfrentam.

Amigo dos jesuítas Varillon e Fraisse, e Hubert Beuve-Méry, ele mantém uma correspondência regular com as personalidades mais diversas, dos seus colegas filósofos a desconhecidos que reuniram em torno de sua assinatura no Le Monde. Em Lyon, como Lépin-le-Lac (Savoie), congratula-se com muitos visitantes com simpatia, brincando com seu humor e desajeitada solidez. Lacroix criou um personagem cujos alunos fizeram um mito sem fim e agradável. O paradoxo, da ironia a repetição de fórmulas são fortemente reforçados, servindo para expressar um pensamento também alimentado de leituras, referências eruditas à experiência e à cultura da vida cotidiana.

Lacroix é um filósofo personalista, ou seja, que para ele o centro de tudo é a pessoa, humana espiritual e encarnada. Essa pessoa pode encontrar sentido em sua própria liberdade interior pela relação com o outro. Ela pode ser ela mesma no envolvimento social dentro da família como na humanidade. E Deus é o único outro que poderiam justificar a realidade do sujeito individual, "eu" e dar-lhe uma a abertura a outros para formar um "nós". Esta dialética que Lacroix exprime alternadamente em uma metafísica moralista, atenta a todas às dimensões da experiência humana, permitindo, de acordo com ele, exceder ao mesmo tempo o marxismo e o existencialismo e de responder ao ímpeto integral do homem.
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B. Comte e X. de Montclos

Obras de Jean Lacroix em língua portuguesa:
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Kant e o kantismo. tradução de Maria Manuela Cardoso. Porto: Rés, 1979, 2001 (2ª), 128 pp.
A sociologia de Augusto Comte /A ordem politica e social Augusto Comte. - Jean Lacroix- Gian Destefanis. Curitiba:Editora Vila do Príncipe, 2003.
Os homens diante do fracasso. - Jean lacroix. Org. São Paulo: Editora Loyola, 1970.
Marxismo Existencialismo Personalismo. Tradução de Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Paz e e Terra, 1967
Timidez e Adolescência. São Paulo: Livrobras- comércio de livro.
O personalismo como anti-ideologia. Tradução de Olga Magalhães. Porto: Rés, 1977 .
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Tradução e adaptação: Lailson Castanha
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Fontes:
http://www.girafe-info.net/jean_lacroix/bio2.htm
(1) Sionistas: foi um movimento cristão, tanto cultural como politicamente, fundada em 1899 por Marc Sangnier (1873-1950) e de auto-dissolvido em 1910, quando os papas condenado por lesar tradição. O movimento, que desejava conciliar o catolicismo com a República e com a classe operária, teria contado até meio milhão de membros.
http://lucky.blog.lemonde.fr/2009/04/10/pour-mauriac-ne-pas-confondre-%C2%AB%C2%A0silloniste%C2%A0%C2%BB-et-%C2%AB%C2%A0sioniste%C2%A0%C2%BB/
Gravura: Jean Lacroix (em destaque)
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segunda-feira, 26 de julho de 2010

Afrontamento personalista aos existencialismos pessimistas.

AFRONTAMENTO PERSONALISTA AOS EXISTENCIALISMOS PESSIMISTAS

A filosofia existencialista acentuando os problemas existenciais, problemas que envolvem o ser humano, que impregna a existência humana, em sua vertente pessimista desconfia da possibilidade da existência de um prévio sentido para a vida que nos anima. Segundo essa linha de pensamento, não há nenhum sentido, não existe sentido metafísico, nem ao menos nenhuma base ontológica por trás da mortal existência. Estamos sós, ou seja, só existe a existência do existente físico, a existência concreta, e como tal, existência vazia de significação. Diante dessa fastiosa situação, como seres concretos e únicos devemos criar, ao menos, condições que possibilitem uma vivência menos dolorosa , uma ordem que propicie uma existência onde cada um possa exercer sua liberdade em conformidade com a liberdade do outro, uma liberdade com responsabilidade.
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Pensando de maneira muito próxima ao que posteriormente viera a ser tratado como existencialismo, já afirmara Karl Marx: “Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência”(1).Apesar de não ser contado entre os pensadores existencialistas, podemos interpretar sua destacada assertiva como um pensamento existencialista, entendemos que a sua afirmação em destaque elucida e sintetiza bem o pensamento do existencialismo. Cremos que não seriamos levianos se aproximássemos a citada ideia de Marx com a celebre afirmação de Jean-Paul Sartre: a existência precede a essência.
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Diante das duas afirmações em destaque, podemos compreender a filosofia existencialista. Na ambiência existencialista crê-se que fora da concretude existencial não existe nada de fundamental, não existe nenhuma lei basilar que oriente o ser humano em sua jornada existencial, a modo de Protágoras, o existencialismo também crê que “o homem é a medida de todas as coisas”.
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Apesar de entender a principal questão que incita a filosofia existencialista, não podemos deixar de perceber alguns dilemas que ela constrói, levando-se em consideração sua não aceitação a qualquer possibilidade ontológica..
Contra os metafísicos é direcionada pelos existencialistas pessimistas toda espécie de expressões que os definem como fracos, tímidos e supersticiosos - pelo fato deles não desprezarem possibilidades metafísicas. Também, as questões por eles problematizadas são colocadas como delirantes, infundadas, que, por não serem concretas, não podem ser tratadas como questões sérias..
Realmente o apegar-se excessivamente a ideias que estão fora ou que não dizem respeito a nossa existência concreta, beira a uma renúncia existencial, se aproxima, como diria Mounier, de um delírio, fruto da não aceitação da massiva e pesada existência. Mas, por outro lado, a não aceitação de possibilidades ontológicas, não indica uma espécie de malgrado com questões que não dominamos, que, por sua natureza metafísica não são clarividentes, como o são as questões de ordem existenciais? Não seria apropriado também, apresentarmos como delirante, demissiva e infundada, toda atitude que prefere desconsiderar problemas que não domina, desfazer-se de temas que não estão desvelados e de possibilidades que se levantam, pelo simples fato de por hora, não serem dominadas pelo saber humano? Rejeitar, refutar, tentar esconder o que não domina, não se configura como um malogro, não seria essa, uma atitude de má fé?
Lailson Castanha
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(1) MARX, Karl. Economia, política e filosofia. ~Tradução de Sylvia Patrícia. Guanabara: Melso sociedade anônima, 1963.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Diálogo personalista com as questões contemporâneas

DIÁLOGO PERSONALISTA COM AS QUESTÕES CONTEMPORÂNEAS

Toda conceituação filosófica é fruto da busca de respostas a problemas que surgem ou que são reavivados. Na ânsia de solucionar os problemas, escolas ou filósofos sistematizam ideias que vão de encontro aos problemas levantados.

O movimento filosófico personalista, na pessoa de vários filósofos, dentre os quais, Emmanuel Mounier, Jean Lacroix, Jean-Marie Domenach, dentre outros, surgiu, também, como tentativa de responder as questões que se levantavam na ambiência histórica e social em que estava inserido. Diferente das demais escolas de pensamento da filosofia personalista não foi formatada em uma estrutura rígida de ideias, sistematizadas e fechadas em conceitos deterministas.

Emmanuel Mounier e os demais filósofos personalistas participantes do círculo da Revista Esprit, construíram um sistema filosófico, por mais paradoxal que pareça, sem as tradicionais sistematizações enrijecidas, conceitos fechados e estruturas rígidas. Com esse modelo flexível, os filósofos personalistas procuraram dialogar com as filosofias que se mostraram relevantes, principalmente o marxismo e o existencialismo. Foi neste caminho que se deu o diálogo personalista com as questões que se levantaram na Europa do pós I Grande Guerra e pré/ meados e pós II Grande Guerra Mundial.

A aproximação com os dois maiores pensamentos da Filosofia do Ocidente Contemporâneo, a saber, o marxismo e o existencialismo, se deu justamente porque tratavam das questões do homem enquanto participante da existência, sendo que a questão que se levantava, era a crise da civilização humana contemporânea engendrada pela crise dos valores, e por consequência, a crise da pessoa humana. Se preocupando com o homem enquanto sujeito existente, as filosofias marxistas e existencialistas tinham muito a colaborar com os pensadores que buscavam o diálogo com a finalidade de lutar contra a crise que se agigantava engendrada, pelo o que Mounier tratou como: desordem estabelecida.

O diálogo então se deu nos termos personalistas, com acolhimento e afrontamento. Isso significa que o diálogo era efetivo, e como tal, nem todas as posturas e colocações eram aceitas e nem todas rejeitadas. O personalismo acolheu a chamada de atenção do existencialismo e do marxismo em relação ao esquecimento do homem existente, do homem do devir, por parte das demais filosofias, mas afrontou a postura demasiadamente materialista, que reduziam o homem e eliminava a sua possibilidade de transcendência, e no caso,mais especificamente do marxismo, além do apego exagerado ao materialismo em detrimento as questões espirituais/metafísicas, a valorização da ação coletiva, em detrimento a ação do homem como pessoa humana e de suas escolhas pessoais.

Ainda hoje o diálogo personalista com a realidade que nos cerca deve ser baseado na dupla atitude de acolhimento e afrontamento. Deve-se acolher seriamente as questões e propostas que se levantam, procurando conhecê-las profundamente. A partir disso, é necessário afrontar a situação reinante que se mostra caótica, ou aquelas propostas que não trazem uma resposta adequada para o problema levantado.

Não existe no personalismo, nenhuma busca de entendimento e solução a qualquer tipo de problema, sem a construção de um diálogo com todas as partes envolvidas na ambiência do problema. A natural atitude personalista frente aos problemas frente a realidade que se constrói é a de acolhimento e afrontamento.
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*Foto: Emmanuel Mounier, Yvonne Leenhardt, Max-Pol Fouchet e Loÿs Masson em Lourmarin, em setembro de 1941.
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Intentamos propagar o personalismo, bem como suas principais ideias e seus principais pensadores, com a finalidade de incitar o visitante desse espaço a ponderar de forma efetiva sobre os assuntos aqui destacados e se aprofundar na pesquisa sobre essa inspiração filosófica, tão bem encarnada nas obras e nos atos do filósofo francês, Emmanuel Mounier.

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