Emmanuel Mounier (1905-1950) e sua filha Anne

Espaço para difusão da filosofia personalista de Emmanuel Mounier e para ponderações de vários temas importantes, tendo como referência essa perspectiva filosófica.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A revolução Personalista de Jean Lacroix.

Carlos Gurméndez - El País. 22/07/1986

Algumas semanas atrás, em 27 de junho, morreu um dos grandes pensadores cristãos contemporâneos, Jean Lacroix, cujo nome está intimamente ligado ao núcleo da revista Esprit, uma publicação que exerceu grande influência sobre o pensamento humanista e religioso nas últimas décadas, incluindo o espanhol. A Filosofia de Jean Lacroix, ao mesmo tempo personalista e comunitária, é um dos enclaves de uma convulsão que para o cristianismo renovador atual, assumiu a penetração de uma filosofia social e uma ética marxista nas sociedades ocidentais.
Desapareceu uma das grandes figuras do personalismo cristão. Era um homem poderoso, jovial, cheio de vigor e entusiasmo, aberto a todas as ideias, mesmo sendo elas opostas ao cristianismo essencial, como marxismo, a psicanálise, o estruturalismo. Possuia o dom de ouvir os pensamentos dos outros, dizendo que o mesmo era o Outro. Em uma de minhas viagens a Paris ele me apresentou Bergamin. Uma tarde, na redação da revista Esprit fiquei impressionado ao ouvir como Lacroix e Albert Beguin criticavam a política de Pio XII, eles tão fervorosamente católicos.

Cristianismo e o marxismo.

Muitos anos depois, voltei a encontrá-lo no instituto francês de Madrid, onde tivemos uma longa conversa sobre a relação entre cristianismo e marxismo, um de seus temas preferidos, deixando uma entrevista, publicada no El país (04 de novembro de 1977). Este grande pensador Francês nasceu em 23 de dezembro de 1900 em Lyon. Começou sua carreira universitária no ano de 1925, no Liceo de Chalon sur Saône. Leciona em Lons Saumier, Djon, e detem a cátedra de Filosofía no Instituto de Lyon em 15168. Com Emmanuel Mounier funda em1932 a revista Esprit, e desde 1945 até 1980 foi colunista filosófico do Le Monde. Entre suas obras importantes cabe destacar: Marxismo, existencialismo, Personalismo (1949); O sentido do ateísmo moderno (1956); O desejo e os desejos (1975), e Kant e o kantismo (1980).

Qual é a essência de seu pensamento e do personalismo, cristão? Parte de um conceito da pessoa como dádiva, entrega aos outros. Em oposição a Max Scheler, para quem a pessoa transcende a individualidade para uma afirmação hierárquica de valores espirituais do Eu, afirma Jean Lacroix que se é pessoa, pelo simples e natural fato de se abrir, de expor-se aos outros. A experiência real da pessoa pensa que é a do Outro, "meu ser é com", Mitsein o ser para os outros, e só nos fazemos pessoas convivendo com eles. Esta atitude é denominada "revolução personalista", pois cada ser é capaz de desprender-se de si mesmo, fazendo-se disponível aos outros. Para o personalismo cristão os atos de expropriação são a ascese da vida pessoal. Pois, como não é fácil renunciar a si mesmo, é necessário um exercício da vontade, uma práxis que libere o Eu de seus egoísmos, uma desencarnação da individualidade possessiva.

O personalismo continua a mais profunda tradição do cristianismo primitivo evangélico: luta contra o amor próprio, o egocentrismo, o narcisismo. Ao abandonar le moi haissable (eu odiava-o) se situa no ponto de vista do Outro, que não significa abdicação da realidade do Eu. Lacroix, em sua obra O sentido do realismo, explica que esta abertura total não implica deixar de ser, d'être moi (ser eu), pois existe uma forma de compreender tudo o que equivale a não amar a nada, não ser nada, dissolver-se no outro e não querer sua compreensão. Lacroix insiste em que a doação de si, em que radica a essência da pessoa, não significa suicídio nem generosidade gratuita. Este dom, de si mesmo constitui uma reafirmação da existência pessoal. "O homem se torna em Eu, através do Tu", sentencia de Martin Buber, o filósofo judeu germânico, que poderia servir de divisa ao personalismo cristão.

Segundo Lacroix, o Tu e o Nós precedem ao Eu, ou ao menos os acompanham. A revolução personalista é, a uma vez, comunitária, pois somente podemos nos realizar como pessoas no seio de uma comunicação real permanente e livre, ou seja, sem coerções opressivas exteriores, mas também sem egoísmos possessivos individualistas. Não é estranho que a filosofia de Jean Lacroix e de Enmanuel Mounier culmine em uma teoria do Amor.

Ser e amar.

Em oposição a Heidegger e Sartre, que pensam que a existência em comum, o Mitsein, se frustra pela luta infernal dos indivíduos que aspiram a controlar-se: reciprocamente. Lacroix afirma a realidade do Amor, devido a que o Eu só pode existir na medida em que existe para Outro. Ser é, pois, amar. Assim de radical e simples é esta filosofia do Amor. No entanto, o amor por si mesmo não cria identificação, e os amantes podem ignorar-se, arrebatados por sua paixão ofuscante. Também a simpatia descobre afinidades que se julga amor espontâneo. Pelo contrário, para o personalismo não é possível um amor sem conhecimento, ou seja, sem a consciência da presença de outra pessoa diferente. "O amor é cego", disse Lacroix, "porém é um cego perfeitamente lúcido".

O personalismo cristão, ao combater o individualismo e centrar sua filosofia em uma unidade comunitária, se aproxima do marxismo. Lacroix considera que os Manuscritos econômico-filosoficos de Marx é uma obra assombrosa em que se esboça uma teoria do Amor baseada na reciprocidade das consciências, e que significa a apertura entre todos os homens. Mas, como cristão, não crê que esta utopia possa se realizar na Terra. Porém disse: "O pensamento de Marx é muito rico e coerente para sofrer deformações cristianizastes. O ateísmo é uma das bases de toda sua filosofia. O cristianismo comunista é o fruto de uma confusão ou de uma mascarada". Porém, cristãos e comunistas podem ser bons e leais companheiros de viajem, ainda que Bergamin pontuasse: "Estou com os comunistas até a morte, porém, nem um passo mais".

Jean Lacroix manteve íntima relação com a revista espanhola Cruz y Raya, tanto afim com a Esprit, e com seu diretor, José Bergamín, de quem costumava recordar em suas conferencias uma citação que considerava ser a essência do personalismo: "A solidão do artista não é a de uma ilha, mas a de ria", e ao que acrescentou: "la mer toujours recommencé" (J. Paul Valery), ( o mar sempre recomeça). Para o recém falecido filósofo francês, José Bergamín e Joaquim Xirau são pensadores mui intimamente ligados ao personalismo cristão, influenciados ambos pela mística espanhola, sobre todo a de São João da Cruz.

Tradução de Lailson Castanha

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Fonte:
El País. Quarta - feira 15/6/2011
Perfil: EN LA MUERTE DE UN FILÓSOFO CRISTIANO (Na morte de um filósofo cristão).
http://www.elpais.com/articulo/cultura/FRANCIA/revolucion/personalista/Jean/Lacroix/elpepicul/19860722elpepicul_1/Tes
Imagem: Jean Lacroix.

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