Emmanuel Mounier (1905-1950) e sua filha Anne

Espaço para difusão da filosofia personalista de Emmanuel Mounier e para ponderações de vários temas importantes, tendo como referência essa perspectiva filosófica.

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domingo, 21 de novembro de 2010

Relevância da Filosofia Personalista em tempos hodiernos.

RELEVÂNCIA DA FILOSOFIA PERSONALISTA EM TEMPOS HODIERNOS

.Ao Prof. MS. Daniel da Costa, pelo seu empenho em encarnar os ideais personalistas e esforço em apresentá-los à sociedade..

Lendo Martin Buber fui levado a pensar na maneira inadequada em que nos relacionamos com a natureza que nos cerca e com as pessoas que nos rodeiam. Buber apresenta como ideal um modelo, a vivência de relacional apresentados nos termos EU-TU. Com prática dessa vivência nos encontramos no outro ao passo que o outro se percebe em nós. Em nosso atual modelo de vivência social essa forma de relacionamento destacado por Buber torna-se quase impossível de ser adotada, pois, usando os termos de Buber, assumimos o modelo Eu-isso, um modelo que nos afasta das coisas que nos evolvem - tornando-nos insensíveis a realidade do outro. Nossa sociedade burguesa vivenciadora do modelo Eu-isso está longe do alcance percepcional revelador de que as coisas, a natureza e as pessoas que nos rodeiam devem ser percebidas como um “um-conosco”, e não a maneira pragmática - um “para-nós”.
A partir dessa análise, recebendo estímulos de amigos personalistas com suas ideias manifestas, percebi, mais uma vez, a pertinência da filosofia personalista, mais uma vez fui levado a observar a filosofia personalista se configurando como imprescindível em tempos hodiernos.
Sabendo que somos tendenciosos, e, por conta disso, costumamos elevar nossas aspirações e tendências a categoria do indispensável, permiti que fossem desenvolvidas em minha mente algumas indagações, com o propósito de aferir a validade de minhas convicções sobre a pertinência da filosofia personalista. O caminho que me fez traçar essas perguntas reforçaram em mim a convicção de que um novo discurso deve ser lançado com a finalidade de incitar na sociedade um desejo de agir em prol da transformação de seu atual estado para um modelo mais harmonioso, que leva em consideração às reais necessidades do ser humano vivente em uma sociedade tão plural e complexa. Sabedor que minhas convicções não são definitivas, intento desde já abrir essas questões que se desenvolveram em minha mente para que mais pessoas possam ao menos seguir a trilha que me levou a crer na pertinência da Filosofia personalista, e a partir disso, pessoalmente se posicionar. Portanto não poso seguir essa assertiva sem apresentar as seguintes questões que permiti que agitassem a minha mente, a saber:
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. O que é a Filosofia Personalista?
. Seria o discurso da Filosofia Personalista realmente imprescindível?
. O que a Filosofia Personalista tem para contribuir em nossa sociedade? O que ela traz de diferente em relação às coisas que já foram ditas e construídas por uma grande diversidade de engenhosos sistemas de idéias?
.Creio que respostas honestas para perguntas honestas não devem ser respondidas instantaneamente, como uma peça substituída a compor a engrenagem. Creio que existem questões, de tão complexas, não podem ser respondidas de forma automática. Levo essa ideia como diretriz a todo o momento em que sou colocado diante de questões sérias.
Quando falamos sobre a filosofia personalista, devemos ter cuidado em não reduzi-la a um aspecto que a compõe. Por exemplo, não podemos apresentar a Filosofia Personalista como a filosofia comprometida com a pessoa ignorando sua preocupação e comprometimento em ser uma filosofia da ação, como também não podemos ignorar que o engajamento personalista, apesar de não ser um sistema, não dispensa totalmente a sistematização da ordenação do pensamento, da construção de uma efetiva Filosofia, pois agir e pensar sem ordem se configura em um desnorteio. Como já afirmara Mounier, “O Personalismo é uma filosofia, não é apenas uma atitude. (...) Não foge a sistematização. Portanto o pensamento necessita de ordem: conceitos, lógica, esquemas unificantes... (...) Porque define estruturas, o personalismo é uma filosofia, e não apenas uma atitude.” (1).


Afirmar que o personalismo é uma filosofia, não evidencia sua pertinência. A importância dessa filosofia, não se encerra no fato de ser mais uma filosofia a ser conhecida, a ser estudada e discutida na ambiência acadêmica. A relevância da filosofia ardorosamente defendida por Emmanuel Mounier é que ela é um esforço para compreender o ser humano em sua integralidade, entendendo por integralidade humana, todos os aspectos que permeiam e envolvem a existência humana, e não somente um esforço para compreender. Esse esforço é uma forma de conhecer para agir - para, com isso, efetivamente e com propriedade, se envolver na problemática abordada. Por ser uma filosofia que aborda com efetivo envolvimento as questões que permeiam a existência humana – o personalismo torna-se imprescindível.
.Não podemos nos contentar em meio à crise social, moral, política, econômica e religiosa que envolve o mundo, com filosofias etéreas, idealistas, especulativas ou reducionistas - como as que são tratadas nas universidades. Filosofias inchadas, que emprestam um ar de erudição para quem as domina, porém, não tendo nenhuma relação com o ser humano integral – ser envolvido em uma série de crises. A filosofia Personalista é importante porque leva em consideração os problemas do ser humano enquanto pessoa, e não como uma ideia abstrata a ser desenvolvida, como uma massa coletiva ou como um indivíduo que resolve-se de maneira isolada.
.Na época de seu principal articulador, Emmanuel Mounier, a Filosofia personalista através do círculo intelectual que a delineava (Esprit), enfatizou o problema da crise da civilização, tão escandalosamente destacadas a partir da eclosão da primeira Grande Guerra (1914-1918) e na florescência da Segunda Grande Guerra (1939-1945). Hoje, apesar dos diferentes aspectos, essa crise ainda se faz vigorosa. A matéria prima dessa crise é a mesma de outrora, a saber, a desumanização nas instituições e nas relações entre os homens. Engajada através de seus interlocutores, a Filosofia Personalista denuncia essa crise e busca, através do diálogo -, porque dialogar é uma de suas vocações, superar essa crise propondo a instauração de uma nova vivência social, a civilização personalista e comunitária, uma civilização, segundo Mounier, “cujas estruturas e espírito estão orientadas para a realização da pessoa que é cada um dos indivíduos que a compõem”.
.Enfrentar a realidade da pessoa humana aceitando seus desafios e neles se envolvendo, aceitar a integralidade do ser humano, se envolvendo na vocação do homem encarnado na existência, sem rejeitar suas demandas espirituais, faz do personalismo de matriz mounieriana uma filosofia diferente daquelas oralizadas por pedantes intelectuais, filósofos profissionais e friamente academicistas, compromissados apenas com o seu ego e com a manutenção de suas vaidades, enquanto que, descompromissados com a realidade do ser humano integral e suas reais demandas.
.Denunciar a “desordem estabelecida”, se envolver com pessoas engajadas para a realização de uma nova civilização aponta o contributo do Personalismo como uma filosofia distinta e a sua pertinência.
.Há muito que se fazer -, como enfaticamente aponta o Prof. Daniel da Costa, é necessidade premente os personalistas se envolverem em todas as camadas da sociedade, em todos os campos de atividade para deles e neles extrair respostas e apontamentos visando os melhores meios de tornar a tão sonhada sociedade personalista uma realidade.
Temos muito trabalho pela frente, não podemos nos desanimar, afinal, de que adianta a prática do filosofar se dela não surja frutos a serem colhidos para proveito da a existência humana? Como personalistas admitimos com Mounier que “não basta compreender, é preciso fazer. O nosso fim, o fim último, não é desenvolver em nós ou em torno de nós o máximo de consciência, o máximo de sinceridade, mas assumir o máximo de responsabilidade e transformar o máximo de realidade à luz das verdades que tivermos reconhecido." (2)
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Citações
.(1) MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
(2) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
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Referências
.BUBER, Martin. Eclipse de Deus: considerações sobre a relação entre a religião e a filosofia. Tradução Carlos Almeida Pereira. Campinas: Verus editora, 2007.
MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
______. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
WARD, Keith. Deus: Um guia para os perplexos. Tradução Susana Schild; apresentação à edição brasileira Leonardo Boff. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.
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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Introdução aos existencialismos.

INTRODUÇÃO AOS EXISTENCIALISMOS - EMMANUEL MOUNIER

Nesta interessante obra, o filósofo francês Emmanuel Mounier faz uma reflexão panorâmica sobre a filosofia existencialista em sua diversidade de temas e abordagens, desde o seu nascedouro na antiguidade grega até a contemporaneidade.
Emmanuel Mounier faz-nos perceber que não existe uma exclusiva “filosofia existencialista”, pois a preocupação com o problema do homem envolvido na existência, e, existencialmente tentando entender a realidade, mesmo que de maneira rudimentar, fora abordada muito antes dos filósofos tidos como pais do existencialismo e da vertente contemporânea que assumiu o epíteto “filosofia existencialista”, e, de maneira vária, continua sendo abordada, por crentes e céticos, por diversos pensadores e diversas escolas. Por isso sua obra é intitulada “Introdução aos existencialismos”, ou seja, de maneira panorâmica Mounier nos apresenta os diversos existencialismos e suas vertentes.
Trata-se de uma abordagem inclusiva sobre os vários existencialismos, desde a sua raiz, antes mesmo de assumir a nomenclatura “existencialista” - em Sócrates, com sua preocupação de incitar o homem a se auto conhecer, se opondo as preocupações de ordem cosmogônicas, como também a intensa busca pelo princípio físico (arqué) que caracterizou a filosofia dos primeiros filósofos que o antecederam, até a filosofia existencialista contemporânea, precedida pela angústia Kierkigaardeana, que se levantou contra o absolutismo sistemático traçado pela filosofia de Hegel, onde tudo se encaminhava de maneira sistêmica e ordenada.
Além de descer até a raiz existencialista, o autor personalista aborda os existencialismos modernos e contemporâneos, por ele figurado como tronco e galhos da filosofia existencial. O personalismo nessa obra é apresentado como um dos galhos, como uma das últimas e atuais manifestações da filosofia da existência.

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Lailson Castanha

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MOUNIER, Emmanuel. Introdução aos existencialismos. Lisboa: Moraes editora. 1963.

Gravura: árvore existencialista elaborada por Emmanuel Mounier, impressa no livro Introdução aos existencialismos.

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

O despertar personalista.

O DESPERTAR PERSONALISTA

A Filosofia Personalista, em sua matriz francesa, se desenvolveu vigorosamente através do esforço de Emmanuel Mounier e demais filósofos, posteriormente chamados de personalistas, em buscar respostas para a questão da crise da pessoa humana na atual civilização – considerada por Mounier como civilização da desordem estabelecida – onde as coisas, os negócios, e o coletivismo são mais valorizados do que a pessoa em sua integralidade. Como alguns filósofos, eu também fui despertado por essa questão.
O despertamento personalista não encerrar-se no ato de despertar, no ato de perceber. A ação deve ser o ato consequente do despertar. Após acordarmos da distração que dante nos envolvia, não podemos permanecer parados, olhando a continuidade de práticas equivocadas. O despertar filosófico, tem que nos levar ao engajamento, ao compromisso em prol de mudanças em favor de uma ambiência histórico social que propicie a vivência integral da pessoa humana. Não podemos encerrar nosso despertar nas desafiadoras leituras de textos personalistas. Temos que aceitar o desafio provocada na prática da leitura e partir para a ação que ela nos incita.
Sabemos que a decisão não é fácil, ela naturalmente nos levará à confrontos - primeiro consigo mesmo, posteriormente, com ideias, coisas e pessoas. Ademais, nenhuma ação deve ser tomada sem orientação.
Apesar da dificuldade de se tomar decisão, decidir em prol da ação, sempre será a opção mais correta, pois agir é imprimir uma marca pessoal na história, é fazer parte dela, é dar liberdade criativa à peculiar vocação de pessoa humana, ou seja, vocação de comunicação, de interação, em uma palavra, de participação. Negar a ação, é negar-se a si mesmo, é negar a nossa condição de pessoa, vivendo uma aviltante existência demissiva, em que negamos o nosso fermento para construção do histórico e progressivo pão de cada dia, se bastando na alimentação de fatias ainda não ideais do progresso histórico, fermentada pelo notável esforço e ação de muitos.
Não estamos sós, ainda existem pessoas que vivenciam a sua condição natural de artífice, sem esquecer que toda a ação, é fecunda, toda ação, provoca uma reação. Mesmo no aparente isolamento de nossos esforços, lembramos com Mounier que “a história recompensa aqueles que se obstinam e que um rochedo bem situado corrige o curso de um rio”.(1)
Lailson Castanha
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(1) MOIX, Candide. O pensamento de Emmanuel Mounier. São Paulo, Paz e Terra: 1968.
Apud. MOUNIER, Emmanuel. Les Certitudes dificiles, 286p.
Gravura: Obras personalistas editadas em língua portuguesa
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sábado, 22 de maio de 2010

Reafirmando o personalismo como uma filosofia do engajamento em prol da pessoa.

REAFIRMANDO O PERSONALISMO COMO FILOSOFIA DO ENGAJAMENTO EM PROL DA PESSOA

O livro bíblico de Gênesis, logo em seu início, narra a tragédia do homem, a tragédia causada pelo pecado original, pecado esse que desencadeou na falência do homem e a sua consequente morte. A fatalidade dessa trama não se encerra na morte do homem enquanto um ser físico, se estende a todos os lugares perpassados por sua presença e a todos os projetos em que ele se envolve – mesmo sendo esses, bons projetos. Por conta disso, não basta agir de boa fé, faz-se necessário sempre, avaliar e reavaliar os projetos.
O apóstolo Paulo de Tarso dá-nos uma lição importante. Sabendo da inconstância de nossas motivações, e consequentemente da facilidade de nos desviarmos de nossos ideais, por conta da fraqueza que a queda nos imprimiu, afirma num sério tom admonitório: "Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos." (2Co 13.05).

O personalismo é uma filosofia que tem como sua principal diretriz, a ação engajada em prol da pessoa. Igualmente a qualquer filosofia, não deixa de ser um projeto formatado por homens. A ambiência em que as ideias personalistas são defendidas também é constituída por seres humanos – homens e mulheres ainda em construção, definindo e redefinindo o projeto de suas vidas. Nessa ainda construção, muitas ideias são reavaliadas, muitos projetos podem ser abandonados, - trocados por outros, ideais podem extraviar-se, ou quem sabe, já se perderam a tempos. Nesse ambiente de incertezas que assola a danada existência do homem, e que, consequentemente, envolve a ambiência personalista, a reflexão do apóstolo Paulo apresenta-se com grande pertinência. Embora o alcance dessa reflexão apostólica deva ser muito mais extenso, encaminho-a em particular, para os homens e mulheres, que de uma forma ou de outra, se envolveram no belíssimo projeto personalista, tão bem encarnado na pessoa de Emmanuel Mounier, de lutar contra a engenharia antipessoal promovida e legalizada pela desordem estabelecida que rege a nossa civilização, visando a instauração de uma comunidade personalista e comunitária onde as pessoas e não as coisas, onde a pessoa e não o título que representa seja a primazia.
A questão levantada aqui, como levantou o apóstolo Paulo aos crentes de Corintos, é se os companheiros personalistas ainda então compromissados com os ideais que os fizeram comungar. Se estão engajados nos projetos dantes defendidos com tanto amor pelos construtores da filosofia personalista e comunitária em prol da derrubada da desordem estabelecida.
Engajamento é uma palavra por demais forte para ser apresentada sem o viço e energia que ela incorpora. Essa palavra forte, é uma das palavras basilares do personalismo de raiz mounieriana; sendo assim, tão certo como o termo forte "engajamento" não pode ser enfraquecido, a filosofia construída a partir do conceito que esse termo representa, de forma alguma pode ser enfraquecida, ganhando contornos diferentes das linhas fundamentais já traçadas. Como personalistas, não podemos nos apegar apenas a discussões filosóficas ou nos nomes que direcionaram os temas, e com isso, nos esquecer do compromisso de se envolver e agir. Essa acentuada fixação, faz-nos a modo dos idólatras, apegados a imagens símbolos e formas, e nesse apego, preso na inércia contemplativa.
Personalismo sempre será a filosofia do engajamento em prol da pessoa e de uma comunidade que garanta a liberdade da autêntica vivência da pessoa humana.
Filósofo personalista sempre será um ser humano compromissado efetivamente nas propostas estabelecidas através do diálogo, em prol da construção de uma comunidade personalista e comunitária. Negar a efetiva vivência desse compromisso, é negar a filosofia personalista, é negar o envolvimento em prol da pessoa humana..

“Porque não basta compreender, é preciso fazer. O nosso fim, o fim último, não é desenvolver em nós ou em torno de nós o máximo de consciência, o máximo de sinceridade, mas assumir o máximo de responsabilidade e transformar o máximo de realidade à luz das verdades que tivermos reconhecido." (1) 

Lailson Castanha
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(1) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Diálogo personalista com as questões contemporâneas

DIÁLOGO PERSONALISTA COM AS QUESTÕES CONTEMPORÂNEAS

Toda conceituação filosófica é fruto da busca de respostas a problemas que surgem ou que são reavivados. Na ânsia de solucionar os problemas, escolas ou filósofos sistematizam ideias que vão de encontro aos problemas levantados.

O movimento filosófico personalista, na pessoa de vários filósofos, dentre os quais, Emmanuel Mounier, Jean Lacroix, Jean-Marie Domenach, dentre outros, surgiu, também, como tentativa de responder as questões que se levantavam na ambiência histórica e social em que estava inserido. Diferente das demais escolas de pensamento da filosofia personalista não foi formatada em uma estrutura rígida de ideias, sistematizadas e fechadas em conceitos deterministas.

Emmanuel Mounier e os demais filósofos personalistas participantes do círculo da Revista Esprit, construíram um sistema filosófico, por mais paradoxal que pareça, sem as tradicionais sistematizações enrijecidas, conceitos fechados e estruturas rígidas. Com esse modelo flexível, os filósofos personalistas procuraram dialogar com as filosofias que se mostraram relevantes, principalmente o marxismo e o existencialismo. Foi neste caminho que se deu o diálogo personalista com as questões que se levantaram na Europa do pós I Grande Guerra e pré/ meados e pós II Grande Guerra Mundial.

A aproximação com os dois maiores pensamentos da Filosofia do Ocidente Contemporâneo, a saber, o marxismo e o existencialismo, se deu justamente porque tratavam das questões do homem enquanto participante da existência, sendo que a questão que se levantava, era a crise da civilização humana contemporânea engendrada pela crise dos valores, e por consequência, a crise da pessoa humana. Se preocupando com o homem enquanto sujeito existente, as filosofias marxistas e existencialistas tinham muito a colaborar com os pensadores que buscavam o diálogo com a finalidade de lutar contra a crise que se agigantava engendrada, pelo o que Mounier tratou como: desordem estabelecida.

O diálogo então se deu nos termos personalistas, com acolhimento e afrontamento. Isso significa que o diálogo era efetivo, e como tal, nem todas as posturas e colocações eram aceitas e nem todas rejeitadas. O personalismo acolheu a chamada de atenção do existencialismo e do marxismo em relação ao esquecimento do homem existente, do homem do devir, por parte das demais filosofias, mas afrontou a postura demasiadamente materialista, que reduziam o homem e eliminava a sua possibilidade de transcendência, e no caso,mais especificamente do marxismo, além do apego exagerado ao materialismo em detrimento as questões espirituais/metafísicas, a valorização da ação coletiva, em detrimento a ação do homem como pessoa humana e de suas escolhas pessoais.

Ainda hoje o diálogo personalista com a realidade que nos cerca deve ser baseado na dupla atitude de acolhimento e afrontamento. Deve-se acolher seriamente as questões e propostas que se levantam, procurando conhecê-las profundamente. A partir disso, é necessário afrontar a situação reinante que se mostra caótica, ou aquelas propostas que não trazem uma resposta adequada para o problema levantado.

Não existe no personalismo, nenhuma busca de entendimento e solução a qualquer tipo de problema, sem a construção de um diálogo com todas as partes envolvidas na ambiência do problema. A natural atitude personalista frente aos problemas frente a realidade que se constrói é a de acolhimento e afrontamento.
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*Foto: Emmanuel Mounier, Yvonne Leenhardt, Max-Pol Fouchet e Loÿs Masson em Lourmarin, em setembro de 1941.
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Equívocos a respeito de Emmanuel Mounier e o personalismo.

Muitas idéias que são identificadas como ideias de Emmanuel Mounier ou como ideias do personalismo mouneriano, não podem ser identificadas como tais.
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O grande problema das indevidas atribuições dadas a Mounier, reside principalmente no epíteto, “personalismo”, que identifica o pensamento do pensador de Grenoble.
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Por personalismo, comumente, entende-se como: “atitude ou conduta de quem refere tudo a si próprio”, e, como personalista, vulgarmente entende-se como: “pessoal, individual ou egocêntrico"(1). Por essas abordagens advindas do senso comum, crê-se erroneamente ser o personalismo de Mounier, uma doutrina baseada na individualização do ser humano diante da realidade que o cerca, uma espécie de individualismo indiferente, fechado em conceitos subjetivos”.
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Também alguns autores qualificam erroneamente o engajamento personalista, na defesa do estado francês, contra uma cultura externa dominante – como um movimento de ação ultra direita.
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O personalismo também é indevidamente considerado uma filosofia antimarxista e antiexistencialista.
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Sobre o termo personalismo aplicado ao pensamento filosófico de Emmanuel Mounier, ele se distancia do termo usual. O personalismo de Mounier é uma filosofia do homem situado. Diferente do subjetivismo individualista, ou da ação egocêntrica da exaltação da personalidade individual diante de uma comunidade, o personalismo francês situa o homem diante de seu contexto existencial, incitando-lhe, por estar situado em um contexto específico, a se engajar em prol do meio em que se está inserido. Nessa descoberta, não pode haver mandonismo e culto a personalidade, porque, percebendo-se como uma pessoa em meio a outras pessoas, o cidadão personalista percebe que o seu compromisso no meio de pessoas com suas pessoalidades, é, justamente, garantir a dignidade a cada uma delas, coisa essa que constrange uma possível exaltação forçosa da sua personalidade ou de suas ideias.
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No que se refere a opinião de alguns comentaristas de ser o engajamento de Mounier coadunado a um movimento de ação ultra direita francês, é um pensamento inadequado, pois, o grande influxo do pensamento de Emmanuel Mounier, foi humanismo marxista e existencialista. Ser um nacionalista, aos modos de Mounier, não significa necessariamente ser um adepto de uma política ultra direita, pelo contrário, no contexto histórico em que se encontrava, lutava ideologicamente para salvar a França do domínio de uma nação efetivamente, ultradireitista, a nazista Alemanha. Em seu livro “manifesto serviço do personalismo”, vemos explicitamente sua rejeição aos fascismos, movimento caracterizado como ultra direitismo. Dissertando sobre dois modelos vigentes em sua época, de orientação facista, Mounier afirma:
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"Assim, de um lado como do outro, vemos a independência e a iniciativa da pessoa, ou negadas, ou constrangidas nas exigências de uma coletividade, ela própria ao serviço de um regime. Os facistas, não obstante, não saem de modo algum do plano individualista. Eles nasceram em democracias esgotadas, cujo proletariado, aliás, se encontrava muito pouco personalizado. Eles são a febre e o delírio resultante desse estado de coisas. Uma massa de homens desprotegidos, e sobretudo desamparados de si próprios, chegaram a esse ponto de desorientação em que só lhes restava um único desejo: A vontade, frenética à força de esgotamento, de se desembaraçarem da sua vontade, das suas responsabilidades, da sua consciência, depondo-a nas mãos de um Salvador que julgará em lugar deles, deliberará em lugar deles, agirá em lugar deles. Nem todos são, certamente, instrumentos passivos desse delírio, que, chicoteando o país, despertou energias, suscitou iniciativas, elevou o tom dos corações e a qualidade dos atos. Mas isso é apenas uma efervescência de vida. As opções derradeiras, as únicas que forjam o homem na liberadade, permanecem à mercê da coletividade. A pessoa é espoliada: já o era na desordem, é-o agora, por uma ordem imposta. Mudou-se de estilo, não de plano." (2)
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Sua afirmação em destaque, deixa bem clara sua desaprovação aos sistemas totalitaristas ultradireitista, facista e nazista
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Continuando no mesmo raciocínio, é também imprópria a assertiva que coloca o personalismo como uma filosofia antimarxista e antiexistencialista, porque, estes sistemas, longe de causarem asco em Mounier, despertaram em seu espírito o interesse em abordar o ser humano e suas demandas, de forma situada e personalizada.
Sobre o marxismo, apesar de Mounier entender que o personalismo o ultrapassa, ou seja, além de levar em conta sua chamada de atenção, percebe e problematiza questões desprezadas pelo marxismo, mesmo assim, Mounier o tinha em grande consideração. Percebe-se essa realidade na sua seguinte afirmação de Mounier citada por R. Cosso:

“É um ponto, escreve ele, em que realismo personalista muito se aproxima do método marxista, de seu esforço para livrar os problemas da história do à priori e para unir o conhecimento a ação”.(3) .

Podemos também perceber a aproximação de Mounier ao existencialismo, até mesmo na interpretão que faz a filosofia existencialista. Sobre o existencialismo, afirma Mounier:

“é uma reação da filosofia do homem contra os excessos da filosofia das idéias e da filosofia das coisas”
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Mesmo não se limitando aos ideários marxistas e existencialistas, Mounier, continuou tratando e abordando as preocupações contidas nestes sistemas dando um tratamento personalista. .

Apesar de levar as questões a caminhos por vezes diferentes dos que levavam os dois sistemas, a relação de Mounier com o marxismo e com o existencialismo era dialogal, longe de ser uma interrupção de diálogo.
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(1) Dicionário Aurélio - Século XXI. Nova Fronteira - versão 3.0.
(2) Mounier, Emmanuel. Manifetos ao serviço do personalismo.Lisboa: Livraria Moraes editora. 1967.
(3) DOMENACH, Jean Marie – LACROIX, Jean – GUISSARD, Lucien – CHAIGNE, Hervé – COUSSO, R – TAP, Pierre – NGANGO, Georges – PELISSIER, Lucien. Presença de Mounier. São Paulo: Duas Cidades, 1969.
(4) MOUNIER, Emmanuel. Introdução aos existencialismos. Lisboa: Moraes editora. 1963.
NETO, Henrique Nielsen. Filosofia Básica. São Paulo: Atual Editora Ltda, 1986. 3.ed.
SEVERINO, Antonio Joaquim. A antropologia personalista de Emmanuel Mounier. São Paulo: Saraiva, 1974.
MOUNIER, Emmanuel. O compromisso da fé. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1971.
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Uma abordagem personalista sobre o sentido existencial.

A sensação que tenho em relação ao ser humano, é que ele é privado de total conforto espiritual, para que essa indisposição lhe faça buscar e finalmente chegar ao sentido de sua existência. Diferente da síndrome de Sísifo, que o tal é privado da resolução de seu problema, pois a solução que ele tem, de colocar a pedra redonda no topo da montanha é o seu próprio problema, parece-me que conosco essa ideia não persiste. A sensação que eu tenho é que as nossas indagações existenciais nos levam a algum caminho lógico, parece-me que elas nos preparam para alguma solução, pois caminhando na história da filosofia ou até mesmo na história geral percebemos progressos consideráveis na grande sociedade humana.
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A própria capacidade de indagar, leva-nos a ideia de termos também capacidade de encontrar respostas factuais. Onde existe fumaça, tem, ou teve fogo - pressuponho então que se existe indagação existe resposta objetiva. Devo questionar sobre o sentido de minha existência? - Kant declara que "dever significa poder"; destarte se devo procurar o sentido da vida é porque eu posso encontrar! O Personalismo de Emmanuel Mounier, em resposta a crença de ser a existência um absurdo, e na falta de sentido da vida, percebido em Albert Camus e no existenciaismo sartriano, afirma que: "é absurdo que tudo seja absurdo" e acerta quando afirma que: "Aquele que invoca fatalidades naturais para negar as possibilidades do homem,abandona-se a um mito ou tenta justificar uma demissão".(1)
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Creio que a analogia das necessidades fisiológicas do corpo-humano ilustra bem o que estou a defender.
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Nascemos com necessidades físicas intrínsecas, como a necessidade de beber, comer e semelhante as necessidades fisiológica, nascemos também com necessidades existenciais intrínsecas, como a necessidade de se comunicar de receber afeto,etc. Se existe necessidades intrínsecas é porque existe solução real para as tais necessidades, tanto fisiológicas como existenciais. Fisicamente a sede nos leva a água, a fome nos leva a comida; existencialmente, nossas indagações devem nos levar a algum lugar de alento. Creio que nossas necessidades nos indicam um sentido existencial.
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Lailson Castanha.
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(1) MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
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O personalismo e sua importância.

O personalismo é uma conceituação filosófica defendida por Emmanuel Mounier, nascido em Grenoble, na França,em 1905 e falecido em 1950. O ponto forte dessa vertente filosófica é a pessoa humana, a existência pessoal - o indivíduo e sua pessoalidade acima e a frente de qualquer manifestação coletiva, ou de qualquer instituição.
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Seguindo à lógica personalista, as instituições devem servir o indivíduo, o contrário deve sempre ser considerado um escândalo, uma afronta ao Ser-Humamo.
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O cristianismo, que tem como mensagem principal um Deus encarnado, que valorizando tanto a sua criação que chega ao ponto de se apequenar tornando-se semelhante aos seres criados, provando assim seu amor pela raça humana, foi uma das grandes influências no pensamento de Mounier, seguido pelo existencialismo e marxismo.
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No existencialismo a preocupação com a existência aqui-neste tempo-agora, foi uns dos grandes chamarizes desta escola e no marxismo a preocupação de situar o individuo na economia, negócios e na sociedade foi o que chamou a sua atenção, idéia que formalmente conhecemos como luta pela desalienação do indivíduo.
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Os pontos dissonantes em relação a essas duas disciplinas foram:
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na primeira o absurdo como fundamento existencial. "É um absurdo que tudo seja absurdo", sentenciou assim o existencialismo extremista e cético.
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Comentando sobre o marxismo, disse que a revolução que desejava seria obra de um povo vivo, não tarefa administrativa de um estado.
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O coletivismo e o centralismo substituindo o pessoalismo, era uma falha gritante e insuportável na constituição do marxismo, e foi por isso que Mounier não o aceitou integralmente.
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Emmanuel Mounier gerenciou a Revista Esprit, que divulgava idéias personalistas de vários intelectuais, tendo como preocupação a troca de sentimentos que envolviam a crise da sociedade ocidental, e suas prováveis e possíveis soluções. O principal lider do movimento personalista escreveu também vários livros e se destacam:
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Revolução Personalista e comunitária(1935); Manifesto ao serviço do personalismo(1936); O afrontamento cristão(1945) Introdução aos existencialismos(1946); Liberdade sob condições(1946); Tratado do caráter(1946); O que é personalismo(1948); Sombras de medo sobre o século XX(1948); A esperança dos desesperados(1953).
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Alguns desses títulos foram publicados em língua portuguesa.
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Se passaram vários anos que Emmanuel Mounier partiu para a outra existência, mais sua ênfase na pessoalidade persiste, o debate tem que continuar, afinal, somos seres, servos de um engajamento existencial-pessoal, mais ao mesmo tempo altruista, pois eu sou um "eu-aqui-agora-assim-entre estes homens com este passado", sou individual mais não estou sozinho, em minha existência percebo outras existências,que exige de mim uma atitude dura contra qualquer tipo de egoismo individualista.
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SEVERINO, Antônio Joaquim. A antropologia personalista de Emmanuel Mounier. São Paulo: Saraiva, 1974.
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O que é personalismo.

O personalismo é uma filosofia que tem como maior ênfase conduzir o homem para sua realização como pessoa. Tendo esse pensamento como princípio ideológico, o sujeito que se percebe como pessoa, percebe a importância de sua pessoalidade e se desperta para ação vocacional, dando lugar a expectativas pessoalizadas.

Na visão personalista, ser completo como pessoa é levar a sério suas necessidades pessoais satisfeitas, ou pelo menos, percebidas e trabalhadas. Levando isso a sério, a filosofia personalista, destacando o valor da pessoa, coloca a questão pessoal sobre o as demais questões, por entender que todas as questões importantes da existência estão contidas nas questões pessoais. Nada, jamais, deve diminuir o valor e a primazia de uma existência personalista.

O personalismo coloca a pessoa acima de quaisquer instituições ou coletividade, pois o ser humano com sua pessoalidade é único e peculiar, e essa peculiaridade impossibilita que todo o seu querer e as suas ânsias, estejam totalmente em harmonia ou satisfeitos com as vontades, aspirações ou conquistas de uma classe, grupo ou instituição. Se como pessoa percebo uma grande distância entre o meu querer e o que recebo como paga num convívio trabalhista, entre o meu querer e o que me oferece um grupo e as instituições sociais, não posso deixar também de perceber e tratar o meu próximo como uma pessoa, justamente por entender que ele tem, como eu, aspirações pessoais, que, sendo pessoalizadas, naturalmente se chocam com as minhas por serem frutos de sua subjetividade e peculiaridade pessoal. Com a percepção da pessoa como um ser distinto, porém, próximo, tendemos a buscar proximidades pessoais sem desvalorizar a alteridade.

Destacando a importância da pessoa humana, destaca-se também um fator subsequente, ou seja, a integralidade do homem. Disse Mounier, "o homem é corpo exatamente como é espírito, é integralmente corpo e é integralmente espírito". Seguindo a mesma lógica, com Mounier podemos também afirmar: "Existir subjetivamente, existir corporalmente são uma e mesma experiência” ou "O que não age não é". Nessas três assertivas, Emmanuel Mounier ressalta que o que cremos deve coadunar-se com o que somos, ou seja, não pode haver diferença entre minhas motivações subjetivas e meus atos objetivos. Se o que não age, não é, não o faz, porque não crê efetivamente no que afirma. A encarnação da idéia é um dos pressupostos mais fortes do personalismo, o que eu afirmo crer deve consequentemente ser endossado pelos meus atos, pois um credo sem ação seria semelhante a um espírito sem carne, não existindo nisso nenhuma substância, e, se não existe substância, não é real. Não existe espírito vivo sem corpo - nem crença real sem ação encarnada. O cerne do personalismo é a ação, e é nesse ponto que ele se destaca das demais disciplinas filosóficas, pois não propõe apenas afirmações e sim ações afirmativas ou afirmações engajadas.

Sabendo, através do personalismo, que nossos atos e escolhas sempre indicam o caminho que nosso espírito está a trilhar, percebo que se eu ajo e estou engajado é porque verdadeiramente acredito em minhas afirmações, e consequentemente "sou" na minha ação a afirmação que defendo crer; se não o faço é porque não sou o que digo ser, nem verdadeiramente acredito no que afirmo e ostento ser.

Lailson Castanha

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MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes editora, 1967.



MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. Lisboa: Livraria Moraes editora, 1967.

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