Emmanuel Mounier (1905-1950) e sua filha Anne

Espaço para difusão da filosofia personalista de Emmanuel Mounier e para ponderações de vários temas importantes, tendo como referência essa perspectiva filosófica.

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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Jean LACROIX – Uma Biografia.

JEAN LACROIX – Uma Biografia.

Nascido em uma família burguesa católica, Jean Lacroix fez seus estudos secundários no Collège Dominicain d'Oulins, em seguida, no Collège Jésuite de la rue Sainte-Hélène. Matriculou-se na Faculdade Católica de Lyon, e obteve bacharelado em letras e licenciatura em direito. Volta-se então para a filosofia e apresenta uma tese em Grenoble, sob a direção de Jacques Chevalier: entra no "grupo de estudo", fundado por Chevalier com a ajuda de Jean Guitton. Matriculou-se na Sorbonne, onde Brunschvig o apresentou ao idealismo, e obtém agregação em filosofia em 1927. Passa a conhecer Laberchonnière e freqüenta com Guitton, o grupo de Davidées de Mlle Silve, onde conheceu Emmanuel Mounier 1928.

Nomeado professor do Liceu de Dijon, se envolve nos preparativos para o lançamento da Esprit engajando-se com Mounier. Fundou em Dijon um dos grupos mais antigos e mais animados da Esprit, no qual ele encontra várias pessoas, incluindo jovens e professores, cristãos e socialistas. Nessa ocasião, Lacroix em 1937 a 1968, em Lyon ele ensinou nas aulas preparatórias de letras superiores e escola primária superior do Lycée du Parc.

Pode-se dizer de sua educação - muito eficaz para a competição bem sucedida na escola superior normal, principalmente para estudantes que não são filósofos - que era clássico pelo seu método e moderno em sua abertura à todas as correntes do pensamento contemporâneo do existencialismo ao estruturalismo, do marxismo à psicanálise.

Desde de seu regresso à região de Lyon, Lacroix se juntou à intimidade intelectual e espiritual de P. Albert Valensin, professor de teologia na Faculdade Católica, discípulo e amigo íntimo de Maurice Blondel. Torna-se membro da Sociedade Lyonesa de Filosofia, liderado pelos ex sionistas (1) Victor Carlhian e por Auguste Valensin. Conheceu Vialatoux. Também foi o organizador do grupo Esprit de Lyon, que seria o foco principal do movimento na província.

Lacroix foi um membro do comitê de direção da revisão e até a morte de Mounier em 1950 permanecendo ao tempo da direção de Albert Béguin até 1957 ano da morte do colaborador suíço. Seus inúmeros artigos na revista dizem respeito principalmente sobre pensamento político, os socialistas e o sindicalismo, o papel do direito, da democracia, dos comunistas e da responsabilidade cristã. Ele colabora, em 1938-1939 com a Voltigeur, folha política bimestral, lançada pela equipe da Esprit, em Munique. Na tarefa confiada a Lacroix na famosa edição especial sobre o marxismo Esprit (maio-junho 1948), de destacar a linha da revista, fez em um artigo intitulado "Marx e Proudhon," com clareza e o espírito de síntese que o distinguiu nos seus escritos.

De 1940 a 1942 deu a École Nationale des cadres d'Uriage uma série de conferências sobre a pátria, sobre Peguy, Marx, Marx, e sobre vários temas da pedagogia, psicologia e ética. Esta educação contribui para a orientação de abordagem educativa e saúde espiritual da l'équipe d'Uriage vers la Résistance (equipe Uriage para resistência), e no sentido de uma revolução social e humanista.

Em 1945, Hubert Beuve-Méry confiou-lhe coluna mensal de filosofia no jornal Le Monde. Lacroix irá cumprir esta tarefa regularmente até 1980. Seus artigos foram reunidos em uma série intitulada "Panorama da Filosofia Contemporânea (1968, 1990).
Jean Lacroix foi um participante ativo no e crônica social das Semanas Sociais da França, não só em artigos e palestras que ele deu a estas duas instituições de origem Lyonesas (oito cursos de Semanas Sociais, entre 1936 e 1964), mas através de uma cooperação eficaz no desenvolvimento de projetos e de definições de políticas (foi membro da Comissão Geral das Semanas Sociais de 1945). Em 1936, desempenhou um papel de mediação social entre os católicos (Duthoit, as equipes da revista política e crônica social) e seus amigos no movimento da Esprit que preferem engajamentos não confecionais.

Em 1947, suas palestras na Semana Social em Paris, "o homem marxista" provoca uma sensação de agitação. Ele dá o exemplo da atitude de "simpatia metodológica” que caracteriza a sua abordagem às correntes contemporâneas de pensamento da qual ele também manteve um diálogo aberto constante, por mais difícil que em muitas vezes se fizesse com os amigos intelectuais comunistas.

Tendo defendido, a partir de 1937-1938, a opção de união NMS, aderindo à CFTC, também participa, especialmente depois de 1945, do desenvolvimento da Paroisse universitaire " (membros católicos do ensino público), relator, em várias ocasiões par "jornal acadêmico" é também um dos colaboradores e amigos do P. Dabosville, capelão nacional de 1946 à 1963.

Lacroix também dá palestras na Sociedade Europeia da Cultura, dirigido por Umberto Campagnolo. É freqüentemente convidado a outros países: de grandes audiências, na Bélgica, Suíça, Canadá, ou em países do Magrebe e da América Latina, com a intenção de exprimir sobre as grandes questões que a sociedade e o homem moderno enfrentam.

Amigo dos jesuítas Varillon e Fraisse, e Hubert Beuve-Méry, ele mantém uma correspondência regular com as personalidades mais diversas, dos seus colegas filósofos a desconhecidos que reuniram em torno de sua assinatura no Le Monde. Em Lyon, como Lépin-le-Lac (Savoie), congratula-se com muitos visitantes com simpatia, brincando com seu humor e desajeitada solidez. Lacroix criou um personagem cujos alunos fizeram um mito sem fim e agradável. O paradoxo, da ironia a repetição de fórmulas são fortemente reforçados, servindo para expressar um pensamento também alimentado de leituras, referências eruditas à experiência e à cultura da vida cotidiana.

Lacroix é um filósofo personalista, ou seja, que para ele o centro de tudo é a pessoa, humana espiritual e encarnada. Essa pessoa pode encontrar sentido em sua própria liberdade interior pela relação com o outro. Ela pode ser ela mesma no envolvimento social dentro da família como na humanidade. E Deus é o único outro que poderiam justificar a realidade do sujeito individual, "eu" e dar-lhe uma a abertura a outros para formar um "nós". Esta dialética que Lacroix exprime alternadamente em uma metafísica moralista, atenta a todas às dimensões da experiência humana, permitindo, de acordo com ele, exceder ao mesmo tempo o marxismo e o existencialismo e de responder ao ímpeto integral do homem.
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B. Comte e X. de Montclos

Obras de Jean Lacroix em língua portuguesa:
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Kant e o kantismo. tradução de Maria Manuela Cardoso. Porto: Rés, 1979, 2001 (2ª), 128 pp.
A sociologia de Augusto Comte /A ordem politica e social Augusto Comte. - Jean Lacroix- Gian Destefanis. Curitiba:Editora Vila do Príncipe, 2003.
Os homens diante do fracasso. - Jean lacroix. Org. São Paulo: Editora Loyola, 1970.
Marxismo Existencialismo Personalismo. Tradução de Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Paz e e Terra, 1967
Timidez e Adolescência. São Paulo: Livrobras- comércio de livro.
O personalismo como anti-ideologia. Tradução de Olga Magalhães. Porto: Rés, 1977 .
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Tradução e adaptação: Lailson Castanha
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Fontes:
http://www.girafe-info.net/jean_lacroix/bio2.htm
(1) Sionistas: foi um movimento cristão, tanto cultural como politicamente, fundada em 1899 por Marc Sangnier (1873-1950) e de auto-dissolvido em 1910, quando os papas condenado por lesar tradição. O movimento, que desejava conciliar o catolicismo com a República e com a classe operária, teria contado até meio milhão de membros.
http://lucky.blog.lemonde.fr/2009/04/10/pour-mauriac-ne-pas-confondre-%C2%AB%C2%A0silloniste%C2%A0%C2%BB-et-%C2%AB%C2%A0sioniste%C2%A0%C2%BB/
Gravura: Jean Lacroix (em destaque)
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segunda-feira, 26 de julho de 2010

Afrontamento personalista aos existencialismos pessimistas.

AFRONTAMENTO PERSONALISTA AOS EXISTENCIALISMOS PESSIMISTAS

A filosofia existencialista acentuando os problemas existenciais, problemas que envolvem o ser humano, que impregna a existência humana, em sua vertente pessimista desconfia da possibilidade da existência de um prévio sentido para a vida que nos anima. Segundo essa linha de pensamento, não há nenhum sentido, não existe sentido metafísico, nem ao menos nenhuma base ontológica por trás da mortal existência. Estamos sós, ou seja, só existe a existência do existente físico, a existência concreta, e como tal, existência vazia de significação. Diante dessa fastiosa situação, como seres concretos e únicos devemos criar, ao menos, condições que possibilitem uma vivência menos dolorosa , uma ordem que propicie uma existência onde cada um possa exercer sua liberdade em conformidade com a liberdade do outro, uma liberdade com responsabilidade.
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Pensando de maneira muito próxima ao que posteriormente viera a ser tratado como existencialismo, já afirmara Karl Marx: “Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência”(1).Apesar de não ser contado entre os pensadores existencialistas, podemos interpretar sua destacada assertiva como um pensamento existencialista, entendemos que a sua afirmação em destaque elucida e sintetiza bem o pensamento do existencialismo. Cremos que não seriamos levianos se aproximássemos a citada ideia de Marx com a celebre afirmação de Jean-Paul Sartre: a existência precede a essência.
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Diante das duas afirmações em destaque, podemos compreender a filosofia existencialista. Na ambiência existencialista crê-se que fora da concretude existencial não existe nada de fundamental, não existe nenhuma lei basilar que oriente o ser humano em sua jornada existencial, a modo de Protágoras, o existencialismo também crê que “o homem é a medida de todas as coisas”.
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Apesar de entender a principal questão que incita a filosofia existencialista, não podemos deixar de perceber alguns dilemas que ela constrói, levando-se em consideração sua não aceitação a qualquer possibilidade ontológica..
Contra os metafísicos é direcionada pelos existencialistas pessimistas toda espécie de expressões que os definem como fracos, tímidos e supersticiosos - pelo fato deles não desprezarem possibilidades metafísicas. Também, as questões por eles problematizadas são colocadas como delirantes, infundadas, que, por não serem concretas, não podem ser tratadas como questões sérias..
Realmente o apegar-se excessivamente a ideias que estão fora ou que não dizem respeito a nossa existência concreta, beira a uma renúncia existencial, se aproxima, como diria Mounier, de um delírio, fruto da não aceitação da massiva e pesada existência. Mas, por outro lado, a não aceitação de possibilidades ontológicas, não indica uma espécie de malgrado com questões que não dominamos, que, por sua natureza metafísica não são clarividentes, como o são as questões de ordem existenciais? Não seria apropriado também, apresentarmos como delirante, demissiva e infundada, toda atitude que prefere desconsiderar problemas que não domina, desfazer-se de temas que não estão desvelados e de possibilidades que se levantam, pelo simples fato de por hora, não serem dominadas pelo saber humano? Rejeitar, refutar, tentar esconder o que não domina, não se configura como um malogro, não seria essa, uma atitude de má fé?
Lailson Castanha
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(1) MARX, Karl. Economia, política e filosofia. ~Tradução de Sylvia Patrícia. Guanabara: Melso sociedade anônima, 1963.
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Equívocos a respeito de Emmanuel Mounier e o personalismo.

Muitas idéias que são identificadas como ideias de Emmanuel Mounier ou como ideias do personalismo mouneriano, não podem ser identificadas como tais.
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O grande problema das indevidas atribuições dadas a Mounier, reside principalmente no epíteto, “personalismo”, que identifica o pensamento do pensador de Grenoble.
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Por personalismo, comumente, entende-se como: “atitude ou conduta de quem refere tudo a si próprio”, e, como personalista, vulgarmente entende-se como: “pessoal, individual ou egocêntrico"(1). Por essas abordagens advindas do senso comum, crê-se erroneamente ser o personalismo de Mounier, uma doutrina baseada na individualização do ser humano diante da realidade que o cerca, uma espécie de individualismo indiferente, fechado em conceitos subjetivos”.
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Também alguns autores qualificam erroneamente o engajamento personalista, na defesa do estado francês, contra uma cultura externa dominante – como um movimento de ação ultra direita.
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O personalismo também é indevidamente considerado uma filosofia antimarxista e antiexistencialista.
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Sobre o termo personalismo aplicado ao pensamento filosófico de Emmanuel Mounier, ele se distancia do termo usual. O personalismo de Mounier é uma filosofia do homem situado. Diferente do subjetivismo individualista, ou da ação egocêntrica da exaltação da personalidade individual diante de uma comunidade, o personalismo francês situa o homem diante de seu contexto existencial, incitando-lhe, por estar situado em um contexto específico, a se engajar em prol do meio em que se está inserido. Nessa descoberta, não pode haver mandonismo e culto a personalidade, porque, percebendo-se como uma pessoa em meio a outras pessoas, o cidadão personalista percebe que o seu compromisso no meio de pessoas com suas pessoalidades, é, justamente, garantir a dignidade a cada uma delas, coisa essa que constrange uma possível exaltação forçosa da sua personalidade ou de suas ideias.
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No que se refere a opinião de alguns comentaristas de ser o engajamento de Mounier coadunado a um movimento de ação ultra direita francês, é um pensamento inadequado, pois, o grande influxo do pensamento de Emmanuel Mounier, foi humanismo marxista e existencialista. Ser um nacionalista, aos modos de Mounier, não significa necessariamente ser um adepto de uma política ultra direita, pelo contrário, no contexto histórico em que se encontrava, lutava ideologicamente para salvar a França do domínio de uma nação efetivamente, ultradireitista, a nazista Alemanha. Em seu livro “manifesto serviço do personalismo”, vemos explicitamente sua rejeição aos fascismos, movimento caracterizado como ultra direitismo. Dissertando sobre dois modelos vigentes em sua época, de orientação facista, Mounier afirma:
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"Assim, de um lado como do outro, vemos a independência e a iniciativa da pessoa, ou negadas, ou constrangidas nas exigências de uma coletividade, ela própria ao serviço de um regime. Os facistas, não obstante, não saem de modo algum do plano individualista. Eles nasceram em democracias esgotadas, cujo proletariado, aliás, se encontrava muito pouco personalizado. Eles são a febre e o delírio resultante desse estado de coisas. Uma massa de homens desprotegidos, e sobretudo desamparados de si próprios, chegaram a esse ponto de desorientação em que só lhes restava um único desejo: A vontade, frenética à força de esgotamento, de se desembaraçarem da sua vontade, das suas responsabilidades, da sua consciência, depondo-a nas mãos de um Salvador que julgará em lugar deles, deliberará em lugar deles, agirá em lugar deles. Nem todos são, certamente, instrumentos passivos desse delírio, que, chicoteando o país, despertou energias, suscitou iniciativas, elevou o tom dos corações e a qualidade dos atos. Mas isso é apenas uma efervescência de vida. As opções derradeiras, as únicas que forjam o homem na liberadade, permanecem à mercê da coletividade. A pessoa é espoliada: já o era na desordem, é-o agora, por uma ordem imposta. Mudou-se de estilo, não de plano." (2)
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Sua afirmação em destaque, deixa bem clara sua desaprovação aos sistemas totalitaristas ultradireitista, facista e nazista
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Continuando no mesmo raciocínio, é também imprópria a assertiva que coloca o personalismo como uma filosofia antimarxista e antiexistencialista, porque, estes sistemas, longe de causarem asco em Mounier, despertaram em seu espírito o interesse em abordar o ser humano e suas demandas, de forma situada e personalizada.
Sobre o marxismo, apesar de Mounier entender que o personalismo o ultrapassa, ou seja, além de levar em conta sua chamada de atenção, percebe e problematiza questões desprezadas pelo marxismo, mesmo assim, Mounier o tinha em grande consideração. Percebe-se essa realidade na sua seguinte afirmação de Mounier citada por R. Cosso:

“É um ponto, escreve ele, em que realismo personalista muito se aproxima do método marxista, de seu esforço para livrar os problemas da história do à priori e para unir o conhecimento a ação”.(3) .

Podemos também perceber a aproximação de Mounier ao existencialismo, até mesmo na interpretão que faz a filosofia existencialista. Sobre o existencialismo, afirma Mounier:

“é uma reação da filosofia do homem contra os excessos da filosofia das idéias e da filosofia das coisas”
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Mesmo não se limitando aos ideários marxistas e existencialistas, Mounier, continuou tratando e abordando as preocupações contidas nestes sistemas dando um tratamento personalista. .

Apesar de levar as questões a caminhos por vezes diferentes dos que levavam os dois sistemas, a relação de Mounier com o marxismo e com o existencialismo era dialogal, longe de ser uma interrupção de diálogo.
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(1) Dicionário Aurélio - Século XXI. Nova Fronteira - versão 3.0.
(2) Mounier, Emmanuel. Manifetos ao serviço do personalismo.Lisboa: Livraria Moraes editora. 1967.
(3) DOMENACH, Jean Marie – LACROIX, Jean – GUISSARD, Lucien – CHAIGNE, Hervé – COUSSO, R – TAP, Pierre – NGANGO, Georges – PELISSIER, Lucien. Presença de Mounier. São Paulo: Duas Cidades, 1969.
(4) MOUNIER, Emmanuel. Introdução aos existencialismos. Lisboa: Moraes editora. 1963.
NETO, Henrique Nielsen. Filosofia Básica. São Paulo: Atual Editora Ltda, 1986. 3.ed.
SEVERINO, Antonio Joaquim. A antropologia personalista de Emmanuel Mounier. São Paulo: Saraiva, 1974.
MOUNIER, Emmanuel. O compromisso da fé. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1971.
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A pessoa e a ação, o tema central do personalismo.

O tema pessoa humana sempre foi um dos temas centrais do personalismo de O tema pessoa humana sempre foi um dos temas centrais do personalismo de Mounier. Mais é importante ressaltar que o termo pessoa humana no personalismo é um termo muito mais complexo do quando usado na forma coloquial. Pessoa humana no personalismo é a pessoa em sua pessoalidade, em seu contexto, com uma vocação. Entendendo que pessoa humana é alguém com um contexto e nesse contexto é alguém com uma vocação, percebemos então que o termo pessoa humana está intimamente ligado no personalismo com o termo ação. Em sua ambiência, a pessoa é alguém com uma vocação, e necessariamente essa vocação está ligada a um compromisso, ao mesmo tempo, transcendente e existencial, que sendo levado em consideração, direciona a pessoa ao engajamento. Portanto, como tema central no personalismo de Mounier, podemos destacar pessoa e ação, pessoa em ação ou a pessoa e o engajamento, ou ação pessoal.
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Mounier afirma que, "o que não age não é", portanto ser humano sem ação pessoal, é um ser demissivo, é um ser que não não vive a plenitude de ser-humano.

Comentando sobre a importância que o personalismo dá a ação pessoal, Mounier afirma: ”Uma teoria da ação não é pois um apêndice ao personalismo, é seu capítulo central”. O personalismo, já nasce como resposta ao “EU” existencialista, pois a Pessoa-Humana personalista, que encontra na ação e no engajamento um sentido existencial, serve como saída ao “Eu” do existencialismo, angustiada pela falta de sentido existencial, que tem como resposta ao sentido da vida, a angustiosa afirmação: Tudo é absurdo.
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O Personalismo tem como centro, a preocupação em ressaltar a ação e a pessoa-humana engajada nessa ação. Está engajada porque vivendo integralmente como pessoa, naturalmente estará se movendo em torno das coisas que essencialmente o cerca, daí o seu engajamento, e o seu encontro.
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"Porque não basta compreender, é preciso fazer. O nosso fim, o fim último, não é desenvolver em nós ou em torno de nós o máximo de consciência, o máximo de sinceridade, mas assumir o máximo de responsabilidade e transformar o máximo de realidade, à luz das verdades que tivermos reconhecido".(3)
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(3) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes editora, 1967.
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Se situando através da vocação e do engajamento.

Olhe ao seu redor, a sua frente, a seu lado, observe o dia de hoje com o seu devir, sabendo que no exato momento, nada do que foi, em sua integralidade é; algo se foi, algo se acrescentou em suma, nada está inerte, tudo se transforma. Veja o seu ambiente, olhe as pessoas que o cerca, fazendo ou não fazendo parte de sua vida.
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Cada uma das pessoas está envolvida com alguma coisa, cada qual com os seus afazeres, com seus compromissos, suas dúvidas; umas buscam inquietamente acalentar suas indagações buscando respostas das mais variadas formas e nos mais variados lugares, outras se acomodam, como que cochilando no carro que atolou na lama ou dormindo com o estômago vazio, sem buscar a satisfação de suas necessidades. Mas cada um está, pelo devir sendo envolvidas, algumas se situando em meio a intensa movimentação da vida, outras cada vez mais perdidas, outras cada vez mais nulas. Ninguém está absolutamente inerte!
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Os perdidos são os que se movimentam dominados por seu desespero existencial, e nele, pela intensa carga de angústia causada pela condição de perdido, se perdem ainda mais, no cinismo e no niilismo da impropriedade existencial, do não existe saída, nada tem sentido, ou, tudo é um absurdo. Eles, mesmos perdidos continuam a caminhar a esmo, indo de um lado a outro e exclamando, na loucura do desespero, suas afirmações pessimistas e desestimulantes. Muitas vezes, mesmo na condição de impropriedade, se envolve em causas para sentir algum alento na zona estranha existencial onde se encontram.

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Os nulos, ah, esses são os que vegetam, são levados pela sua inércia intelectual, ou pela falta da noção da intrínseca dignidade pessoal, são levados de um lado para o outro, inteiramente a disposição do tempo e do espaço e da tirania do sistema impessoal que os governa.

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No processo do devir, águas do rio de Heráclito não são apenas fluência elas fluem sim, mas no processo de sua passagem, integrada com a totalidade da natureza em que está inserida, ela transforma. Não só o rio não é mais o mesmo, mas todo o contexto não é mais o mesmo. Essas águas são processadas, mas também processam, elas fluem, mas também provocam fluência. Observe as margens do rio, veja bem, ela não é mais a mesma, as águas passageiras o transformaram. Consequentemente, ele transformará a paisagem ao seu redor, com cada terra deslizada, árvore derrubada, porção de capim que se desenramam.

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A semelhança desse rio, que flui, mas que transforma o seu caminho, existem pessoas, que conhecendo sua vocação existencial, estão engajadas na tarefa de transformar. Essas pessoas não são como lamas existenciais, apodrecidas devido à falta de movimentação, pelo contrário, pela clareza de sua vocação, passam e aplainam o caminho dos que aqui se encontram e dos estão por vir. Não estão perdidas, estão situadas em seus engajamentos, sabem que estão de passagem tendo uma tarefa a cumprir, e, por tal coisa não se desesperam, porque para cumprir seu compromisso tem como ferramenta sua vocação.

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Para entender o processo existencial, precisamos primeiramente, vivenciar os conselhos do Oráculo de Delfos reproduzidos por Sócrates: “Conheça-te a ti mesmo”.
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Precisamos, conhecer nossa vocação, para com ela nos engajarmos sem correr o risco de nos perdermos na angústia existencialista de não saber o que fazer diante das complexidades e dos desafios que a vida nos impõem. Creio que o grande problema dos pensadores existencialistas foi o fato de não levar efetivamente em conta suas vocações. A vocação que temos, já é o início de sentido existencial. Se eu existo, existo para alguém, ou existo para algo. Se não descubro ontologicamente a lógica de minha existência, sei pelo menos que minha existência faz sentido para outros, portanto nos outros eu posso me encontrar e encontrar sentido, ou nos outros, minha existência encontra algum sentido. Para os outros eu exerço minha vocação, esse meu engajamento, faz com que minha vida para os outros e nos outros, não seja nula.
Devo buscar a resposta para a pergunta ontológica, onde reside essa alguma coisa para a qual eu existo ou para quem eu existo? Sim, mas também devemos levar em consideração, que se engajando através do uso de nossas vocações, esse engajamento trará, através das pessoas beneficiadas com o nosso despojamento, uma certa noção de fundamento espacial-temporal, uma lógica existencial.
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Os existencialistas, não observando a lógica que a vocação transmite para a existência, não encontraram sentido para a sua existência pessoal, mas se fizessem o contrário, ou seja, observassem o seu papel na existência encarnada, e o serviço que prestaram para seus semelhantes, encontrariam, nas pessoas, na interação, no serviço, enfim, no engajamento vocacional a lógica existencial e o sentido de suas vidas.
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Lailson Castanha
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Uma abordagem personalista sobre o sentido existencial.

A sensação que tenho em relação ao ser humano, é que ele é privado de total conforto espiritual, para que essa indisposição lhe faça buscar e finalmente chegar ao sentido de sua existência. Diferente da síndrome de Sísifo, que o tal é privado da resolução de seu problema, pois a solução que ele tem, de colocar a pedra redonda no topo da montanha é o seu próprio problema, parece-me que conosco essa ideia não persiste. A sensação que eu tenho é que as nossas indagações existenciais nos levam a algum caminho lógico, parece-me que elas nos preparam para alguma solução, pois caminhando na história da filosofia ou até mesmo na história geral percebemos progressos consideráveis na grande sociedade humana.
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A própria capacidade de indagar, leva-nos a ideia de termos também capacidade de encontrar respostas factuais. Onde existe fumaça, tem, ou teve fogo - pressuponho então que se existe indagação existe resposta objetiva. Devo questionar sobre o sentido de minha existência? - Kant declara que "dever significa poder"; destarte se devo procurar o sentido da vida é porque eu posso encontrar! O Personalismo de Emmanuel Mounier, em resposta a crença de ser a existência um absurdo, e na falta de sentido da vida, percebido em Albert Camus e no existenciaismo sartriano, afirma que: "é absurdo que tudo seja absurdo" e acerta quando afirma que: "Aquele que invoca fatalidades naturais para negar as possibilidades do homem,abandona-se a um mito ou tenta justificar uma demissão".(1)
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Creio que a analogia das necessidades fisiológicas do corpo-humano ilustra bem o que estou a defender.
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Nascemos com necessidades físicas intrínsecas, como a necessidade de beber, comer e semelhante as necessidades fisiológica, nascemos também com necessidades existenciais intrínsecas, como a necessidade de se comunicar de receber afeto,etc. Se existe necessidades intrínsecas é porque existe solução real para as tais necessidades, tanto fisiológicas como existenciais. Fisicamente a sede nos leva a água, a fome nos leva a comida; existencialmente, nossas indagações devem nos levar a algum lugar de alento. Creio que nossas necessidades nos indicam um sentido existencial.
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Lailson Castanha.
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(1) MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
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Pombos mutilados.

Uma das cenas mais comuns na paisagem urbana é a presença de pombos a sobrevoar os céus e a povoar praças, canteiros e as fiações da rede elétrica. É também bastante comum, visualizarmos os habitantes das cidades, frequentadores das praças e dos canteiros, observando essas aves, admirados com a sensação de liberdade que elas nos proporcionam. Como é lindo observa-las!Parece-nos, que a liberdade se mostra plena nelas, que, de tão livres, sobem até nos fios da rede elétrica, sem se machucar.
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Olhando para a cidade de São Paulo na visão panorâmica concedida pelos cartões postais, ou pelas imagens da televisão, vemos uma cidade atraente, com seus arranha-céus, suas avenidas movimentadas indicando-nos o progresso, vemos sua riqueza ostentada pelo palácio dos Bandeirantes (sede do governo estadual), pelos modernos prédios da avenida Paulista, pelas colossais estruturas da engenharia, em forma de pontes, estádios de futebol, casas de espetáculos.
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Essa grandiosidade ostensiva, e ostentada, dá-nos a sensação de avanço social, de modernidade, de progresso, e de, (por que não?), mais humanidade.
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Certo dia, era um dia tranquilo para mim, dia daqueles que você se dá ao luxo de perder (ou ganhar) tempo observando pombos. E foi isso que eu fiz. Na praça em que me encontrava, avistei uma pombo mutilado, ele não tinha um dos seus dedos. Na medida que ele ciscava eu acompanhava os seus movimentos, até se misturar com as outras aves de sua espécie. No momento em que ele se mistura com seus parceiros, escolho outro e mais outros pombos para observar. Essa observação me revelou um dado bastante inquietante e desconfortável. Essas aves que tanto estimamos, que parece estar quase que em total tranquilidade e sintonia com a vida urbana, sofrem muitas privações, e são, assim como nós, muitas vezes agredidas pelos meios mais diversos que compõe o quadro da paisagem urbana.
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Olhando as outras pombos, percebi,que muitos estavam mutilados, um sem um dedo, outro sem uma pata, outro ferido, outro cego.
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Depois de localizar e observar as pombos a partir de um pombo"particular", pude perceber que eles não eram tão intocáveis e livres assim como eu imaginava; depois dessa observação, já não os tenho como simbolo da liberdade e da tranquilidade.
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Moro em São Paulo. Quando criança, gostava de sentar no banco do salão de cabeleireiro de meu pai, e observar alguns cartões postais; muitos daqueles postais retratavam a cidade Paulistana. Lembro-me,nitidamente das fotos do Vale do Anhangabaú, da Av. São João, Praça da Sé e muitas outras fotos, tanto de postais, como de revistas que retratavam a grandeza e o progresso de São Paulo. Vale lembrar, que as fotos eram tiradas numa tomada aérea, numa visão macro, panorâmica, geral,mas, superficial.
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Hoje trabalho próximo ao centro, todo dia, a tarde e a noite, eu transito pelas ruas centrais. Só que diferente dos postais, minha visão dessa cidade, dà-se numa tomada interna, numa micro-visão, particular, intimista,terreal.
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Conhecendo São Paulo do chão, percebe-se que o progresso pisa no atraso, que a riqueza esbarra na miséria, que o avanço social de alguns direitos adquiridos, usufruído por uma minoria, ignora o retrocesso social da total ausência de dignidade e da vivência de direitos constitucionais, como habitação, educação, alimentação, encarnadas na pele de cidadãos sem cidadania, sem direitos e sem dignidade, ou seja, pessoas totalmente ignoradas.
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Olhando superficialmente, São Paulo é moderno e rico, observando sensivelmente, a cidade é retrógrada e pobre.
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Esses dois exemplos que usei, são frutos de uma lição personalista; nunca devemos julgar ou definir, a partir de uma observação panorâmica, devemos buscar as particularidades de cada sujeito para conhecermos melhor o coletivo, nunca o contrário.
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Se eu não observasse uma pomba isoladamente, teria em mente a ideia de que elas vivem em total harmonia com a civilização urbana, (o que vimos não ser a verdade), se eu não transitasse pelas ruas de São Paulo, teria em mente a ideia de uma cidade próspera, no sentido pleno da palavra, porque seus prédios e sua movimentação nos induzem a esse pensamento. Para rejeitar essa noção,tive que pisar nas ruas dessa cidade.
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Mostrar não é ser, ser é ser.
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A ostentação de riqueza, necessariamente não é riqueza-em-si, de progresso, de justiça, não são reais necessariamente. Ostentação e "ser" são coisas distintas. Eu posso ostentar sendo e não sendo! Quando nos preocupamos apenas com as conquistas de classe,corremos o risco de diminuir a necessidade da conquista de "pessoa pessoal". O metalúrgico, antes de ser metalúrgico, é uma pessoa com necessidades pessoais; se necessita de aumento do salário, pode necessitar também de cuidados especias devido a algum problema diferenciado(psicológico,religioso,social,físico,etc). Julgar uma conquista trabalhista como efetiva conquista do trabalhador, vista panoramicamente, ou apenas coletivamente, pode ser tão equivocado, como julgar a harmonia dos pombos no cotidiano da vida urbana, sem parar para observá-las individualmente, ou o sucesso de uma cidade pelo seu retrato aéreo.
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Será que vale o aumento de salário num ambiente trabalhista insalubre? Será que é vantajoso, para qualquer cidadão, perder o direito do descanso semanal, em troca de um mísero acordo coletivo?
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Eu pergunto: esses acordos coletivos, no final, agradou ou nos agrada, ou, pelo contrário, feriu e fere a nossa pessoalidade.
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Me parece que esses acordos coletivos, com ares de vitórias de classe, sem levar em conta as necessidades fundamentais do ser-humano assemelham-se ao julgamentos equivocado da harmonia e tranquilidade dos pombos no cenário urbano. Faz-se mais do necessária uma nova forma de abordagem em qualquer negociação e, em qualquer campo de ação. Nunca podemos esquecer,que devemos negociar, tendo como inegociáveis, as satisfações de necessidades fundamentais do ser-humano, como: descanso semanal, a primazia da família, a dignidade humana, tendo em vista que a insalubridade fere esse direito a dignidade, e o direito da expressão personalista, ou seja expressão do ser como pessoa, um ser com necessidades diferenciadas, justamente por ser uma pessoa, com uma pessoalidade.
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Lailson Castanha
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O personalismo e sua importância.

O personalismo é uma conceituação filosófica defendida por Emmanuel Mounier, nascido em Grenoble, na França,em 1905 e falecido em 1950. O ponto forte dessa vertente filosófica é a pessoa humana, a existência pessoal - o indivíduo e sua pessoalidade acima e a frente de qualquer manifestação coletiva, ou de qualquer instituição.
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Seguindo à lógica personalista, as instituições devem servir o indivíduo, o contrário deve sempre ser considerado um escândalo, uma afronta ao Ser-Humamo.
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O cristianismo, que tem como mensagem principal um Deus encarnado, que valorizando tanto a sua criação que chega ao ponto de se apequenar tornando-se semelhante aos seres criados, provando assim seu amor pela raça humana, foi uma das grandes influências no pensamento de Mounier, seguido pelo existencialismo e marxismo.
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No existencialismo a preocupação com a existência aqui-neste tempo-agora, foi uns dos grandes chamarizes desta escola e no marxismo a preocupação de situar o individuo na economia, negócios e na sociedade foi o que chamou a sua atenção, idéia que formalmente conhecemos como luta pela desalienação do indivíduo.
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Os pontos dissonantes em relação a essas duas disciplinas foram:
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na primeira o absurdo como fundamento existencial. "É um absurdo que tudo seja absurdo", sentenciou assim o existencialismo extremista e cético.
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Comentando sobre o marxismo, disse que a revolução que desejava seria obra de um povo vivo, não tarefa administrativa de um estado.
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O coletivismo e o centralismo substituindo o pessoalismo, era uma falha gritante e insuportável na constituição do marxismo, e foi por isso que Mounier não o aceitou integralmente.
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Emmanuel Mounier gerenciou a Revista Esprit, que divulgava idéias personalistas de vários intelectuais, tendo como preocupação a troca de sentimentos que envolviam a crise da sociedade ocidental, e suas prováveis e possíveis soluções. O principal lider do movimento personalista escreveu também vários livros e se destacam:
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Revolução Personalista e comunitária(1935); Manifesto ao serviço do personalismo(1936); O afrontamento cristão(1945) Introdução aos existencialismos(1946); Liberdade sob condições(1946); Tratado do caráter(1946); O que é personalismo(1948); Sombras de medo sobre o século XX(1948); A esperança dos desesperados(1953).
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Alguns desses títulos foram publicados em língua portuguesa.
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Se passaram vários anos que Emmanuel Mounier partiu para a outra existência, mais sua ênfase na pessoalidade persiste, o debate tem que continuar, afinal, somos seres, servos de um engajamento existencial-pessoal, mais ao mesmo tempo altruista, pois eu sou um "eu-aqui-agora-assim-entre estes homens com este passado", sou individual mais não estou sozinho, em minha existência percebo outras existências,que exige de mim uma atitude dura contra qualquer tipo de egoismo individualista.
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SEVERINO, Antônio Joaquim. A antropologia personalista de Emmanuel Mounier. São Paulo: Saraiva, 1974.
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O que é personalismo.

O personalismo é uma filosofia que tem como maior ênfase conduzir o homem para sua realização como pessoa. Tendo esse pensamento como princípio ideológico, o sujeito que se percebe como pessoa, percebe a importância de sua pessoalidade e se desperta para ação vocacional, dando lugar a expectativas pessoalizadas.

Na visão personalista, ser completo como pessoa é levar a sério suas necessidades pessoais satisfeitas, ou pelo menos, percebidas e trabalhadas. Levando isso a sério, a filosofia personalista, destacando o valor da pessoa, coloca a questão pessoal sobre o as demais questões, por entender que todas as questões importantes da existência estão contidas nas questões pessoais. Nada, jamais, deve diminuir o valor e a primazia de uma existência personalista.

O personalismo coloca a pessoa acima de quaisquer instituições ou coletividade, pois o ser humano com sua pessoalidade é único e peculiar, e essa peculiaridade impossibilita que todo o seu querer e as suas ânsias, estejam totalmente em harmonia ou satisfeitos com as vontades, aspirações ou conquistas de uma classe, grupo ou instituição. Se como pessoa percebo uma grande distância entre o meu querer e o que recebo como paga num convívio trabalhista, entre o meu querer e o que me oferece um grupo e as instituições sociais, não posso deixar também de perceber e tratar o meu próximo como uma pessoa, justamente por entender que ele tem, como eu, aspirações pessoais, que, sendo pessoalizadas, naturalmente se chocam com as minhas por serem frutos de sua subjetividade e peculiaridade pessoal. Com a percepção da pessoa como um ser distinto, porém, próximo, tendemos a buscar proximidades pessoais sem desvalorizar a alteridade.

Destacando a importância da pessoa humana, destaca-se também um fator subsequente, ou seja, a integralidade do homem. Disse Mounier, "o homem é corpo exatamente como é espírito, é integralmente corpo e é integralmente espírito". Seguindo a mesma lógica, com Mounier podemos também afirmar: "Existir subjetivamente, existir corporalmente são uma e mesma experiência” ou "O que não age não é". Nessas três assertivas, Emmanuel Mounier ressalta que o que cremos deve coadunar-se com o que somos, ou seja, não pode haver diferença entre minhas motivações subjetivas e meus atos objetivos. Se o que não age, não é, não o faz, porque não crê efetivamente no que afirma. A encarnação da idéia é um dos pressupostos mais fortes do personalismo, o que eu afirmo crer deve consequentemente ser endossado pelos meus atos, pois um credo sem ação seria semelhante a um espírito sem carne, não existindo nisso nenhuma substância, e, se não existe substância, não é real. Não existe espírito vivo sem corpo - nem crença real sem ação encarnada. O cerne do personalismo é a ação, e é nesse ponto que ele se destaca das demais disciplinas filosóficas, pois não propõe apenas afirmações e sim ações afirmativas ou afirmações engajadas.

Sabendo, através do personalismo, que nossos atos e escolhas sempre indicam o caminho que nosso espírito está a trilhar, percebo que se eu ajo e estou engajado é porque verdadeiramente acredito em minhas afirmações, e consequentemente "sou" na minha ação a afirmação que defendo crer; se não o faço é porque não sou o que digo ser, nem verdadeiramente acredito no que afirmo e ostento ser.

Lailson Castanha

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MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes editora, 1967.



MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. Lisboa: Livraria Moraes editora, 1967.

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Intentamos propagar o personalismo, bem como suas principais ideias e seus principais pensadores, com a finalidade de incitar o visitante desse espaço a ponderar de forma efetiva sobre os assuntos aqui destacados e se aprofundar na pesquisa sobre essa inspiração filosófica, tão bem encarnada nas obras e nos atos do filósofo francês, Emmanuel Mounier.

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