Emmanuel Mounier (1905-1950) e sua filha Anne

Espaço para difusão da filosofia personalista de Emmanuel Mounier e para ponderações de vários temas importantes, tendo como referência essa perspectiva filosófica.

domingo, 21 de novembro de 2010

Relevância da Filosofia Personalista em tempos hodiernos.

Relevância da Filosofia Personalista em tempos hodiernos.
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Ao Prof. MS. Daniel da Costa, pelo seu empenho em encarnar os ideais personalistas e esforço em apresentá-los à sociedade.
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Lendo Martin Buber fui levado a pensar na maneira inadequada em que nos relacionamos com a natureza que nos cerca e com as pessoas que nos rodeiam. Buber apresenta como ideal um modelo, a vivência de relacional apresentados nos termos EU-TU. Com prática dessa vivência nos encontramos no outro ao passo que o outro se percebe em nós. Em nosso atual modelo de vivência social essa forma de relacionamento destacado por Buber torna-se quase impossível de ser adotada, pois, usando os termos de Buber, assumimos o modelo Eu-isso, um modelo que nos afasta das coisas que nos evolvem - tornando-nos insensíveis a realidade do outro. Nossa sociedade burguesa vivenciadora do modelo Eu-isso está longe do alcance percepcional revelador de que as coisas, a natureza e as pessoas que nos rodeiam devem ser percebidas como um “um-conosco”, e não a maneira pragmática - um “para-nós”.
A partir dessa análise, recebendo estímulos de amigos personalistas com suas ideias manifestas, percebi, mais uma vez, a pertinência da filosofia personalista, mais uma vez fui levado a observar a filosofia personalista se configurando como imprescindível em tempos hodiernos.
Sabendo que somos tendenciosos, e, por conta disso, costumamos elevar nossas aspirações e tendências a categoria do indispensável, permiti que fossem desenvolvidas em minha mente algumas indagações, com o propósito de aferir a validade de minhas convicções sobre a pertinência da filosofia personalista. O caminho que me fez traçar essas perguntas reforçaram em mim a convicção de que um novo discurso deve ser lançado com a finalidade de incitar na sociedade um desejo de agir em prol da transformação de seu atual estado para um modelo mais harmonioso, que leva em consideração às reais necessidades do ser humano vivente em uma sociedade tão plural e complexa. Sabedor que minhas convicções não são definitivas, intento desde já abrir essas questões que se desenvolveram em minha mente para que mais pessoas possam ao menos seguir a trilha que me levou a crer na pertinência da Filosofia personalista, e a partir disso, pessoalmente se posicionar. Portanto não poso seguir essa assertiva sem apresentar as seguintes questões que permiti que agitassem a minha mente, a saber:
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. O que é a Filosofia Personalista?
. Seria o discurso da Filosofia Personalista realmente imprescindível?
. O que a Filosofia Personalista tem para contribuir em nossa sociedade? O que ela traz de diferente em relação às coisas que já foram ditas e construídas por uma grande diversidade de engenhosos sistemas de idéias?
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Creio que respostas honestas para perguntas honestas não devem ser respondidas instantaneamente, como uma peça substituída a compor a engrenagem. Creio que existem questões, de tão complexas, não podem ser respondidas de forma automática. Levo essa ideia como diretriz a todo o momento em que sou colocado diante de questões sérias.
Quando falamos sobre a filosofia personalista, devemos ter cuidado em não reduzi-la a um aspecto que a compõe. Por exemplo, não podemos apresentar a Filosofia Personalista como a filosofia comprometida com a pessoa ignorando sua preocupação e comprometimento em ser uma filosofia da ação, como também não podemos ignorar que o engajamento personalista, apesar de não ser um sistema, não dispensa totalmente a sistematização da ordenação do pensamento, da construção de uma efetiva Filosofia, pois agir e pensar sem ordem se configura em um desnorteio. Como já afirmara Mounier, “O Personalismo é uma filosofia, não é apenas uma atitude. (...) Não foge a sistematização. Portanto o pensamento necessita de ordem: conceitos, lógica, esquemas unificantes... (...) Porque define estruturas, o personalismo é uma filosofia, e não apenas uma atitude.” (1).

Afirmar que o personalismo é uma filosofia, não evidencia sua pertinência. A importância dessa filosofia, não se encerra no fato de ser mais uma filosofia a ser conhecida, a ser estudada e discutida na ambiência acadêmica. A relevância da filosofia ardorosamente defendida por Emmanuel Mounier é que ela é um esforço para compreender o ser humano em sua integralidade, entendendo por integralidade humana, todos os aspectos que permeiam e envolvem a existência humana, e não somente um esforço para compreender. Esse esforço é uma forma de conhecer para agir - para, com isso, efetivamente e com propriedade, se envolver na problemática abordada. Por ser uma filosofia que aborda com efetivo envolvimento as questões que permeiam a existência humana – o personalismo torna-se imprescindível.
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Não podemos nos contentar em meio à crise social, moral, política, econômica e religiosa que envolve o mundo, com filosofias etéreas, idealistas, especulativas ou reducionistas - como as que são tratadas nas universidades. Filosofias inchadas, que emprestam um ar de erudição para quem as domina, porém, não tendo nenhuma relação com o ser humano integral – ser envolvido em uma série de crises. A filosofia Personalista é importante porque leva em consideração os problemas do ser humano enquanto pessoa, e não como uma ideia abstrata a ser desenvolvida, como uma massa coletiva ou como um indivíduo que resolve-se de maneira isolada.
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Na época de seu principal articulador, Emmanuel Mounier, a Filosofia personalista através do círculo intelectual que a delineava (Esprit), enfatizou o problema da crise da civilização, tão escandalosamente destacadas a partir da eclosão da primeira Grande Guerra (1914-1918) e na florescência da Segunda Grande Guerra (1939-1945). Hoje, apesar dos diferentes aspectos, essa crise ainda se faz vigorosa. A matéria prima dessa crise é a mesma de outrora, a saber, a desumanização nas instituições e nas relações entre os homens. Engajada através de seus interlocutores, a Filosofia Personalista denuncia essa crise e busca, através do diálogo -, porque dialogar é uma de suas vocações, superar essa crise propondo a instauração de uma nova vivência social, a civilização personalista e comunitária, uma civilização, segundo Mounier, “cujas estruturas e espírito estão orientadas para a realização da pessoa que é cada um dos indivíduos que a compõem”.
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Enfrentar a realidade da pessoa humana aceitando seus desafios e neles se envolvendo, aceitar a integralidade do ser humano, se envolvendo na vocação do homem encarnado na existência, sem rejeitar suas demandas espirituais, faz do personalismo de matriz mounieriana uma filosofia diferente daquelas oralizadas por pedantes intelectuais, filósofos profissionais e friamente academicistas, compromissados apenas com o seu ego e com a manutenção de suas vaidades, enquanto que, descompromissados com a realidade do ser humano integral e suas reais demandas.
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Denunciar a “desordem estabelecida”, se envolver com pessoas engajadas para a realização de uma nova civilização aponta o contributo do Personalismo como uma filosofia distinta e a sua pertinência.
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Há muito que se fazer -, como enfaticamente aponta o Prof. Daniel da Costa, é necessidade premente os personalistas se envolverem em todas as camadas da sociedade, em todos os campos de atividade para deles e neles extrair respostas e apontamentos visando os melhores meios de tornar a tão sonhada sociedade personalista uma realidade.
Temos muito trabalho pela frente, não podemos nos desanimar, afinal, de que adianta a prática do filosofar se dela não surja frutos a serem colhidos para proveito da a existência humana? Como personalistas admitimos com Mounier que “não basta compreender, é preciso fazer. O nosso fim, o fim último, não é desenvolver em nós ou em torno de nós o máximo de consciência, o máximo de sinceridade, mas assumir o máximo de responsabilidade e transformar o máximo de realidade à luz das verdades que tivermos reconhecido." (2)
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Citações
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(1) MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
(2) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
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Referências
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BUBER, Martin. Eclipse de Deus: considerações sobre a relação entre a religião e a filosofia. Tradução Carlos Almeida Pereira. Campinas: Verus editora, 2007.
MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
______. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
WARD, Keith. Deus: Um guia para os perplexos. Tradução Susana Schild; apresentação à edição brasileira Leonardo Boff. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.
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