Emmanuel Mounier (1905-1950) e sua filha Anne

Espaço para difusão da filosofia personalista de Emmanuel Mounier e para ponderações de vários temas importantes, tendo como referência essa perspectiva filosófica.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Sensações...

A vida é por demais, complexa e complicada, fazendo a empresa de tentar entendê-la tornar-se quase que impossível. Por mais que tentamos entender todos os processos que a envolvem ficamos ainda mais confusos em relação a sua significação. O seu vai e vem interminável, imprimindo-nos ritmos e novidades que parecem inapropriados para o a nossa estrutura nos cansa de tal forma que a sua continuação faz nascer em nós, ou pelo menos em mim, uma sensação de invasão, de assalto – como se algo que nos é vital fosse roubado, fosse tirado de nossas mãos.
Pessoas entram, pessoas saem de nossa vida, coisas acontecem ou deixam de acontecer, situações inadequadas, inapropriadas, sensações estranhas ou ocasionais – tudo isso soa incomum quando o momento é desarmonioso – na harmonia, até o aparente desarranjo torna-se um sofisticado arranjo na plural orquestra da vida.
A invasão de idéias e práticas desconexas fez com que meu ceticismo em potência se atualizasse. Hoje me sinto incrédulo, vejo incoerências em quase todas as manifestações humanas, sinto que poucas são as razões para me fazer crer ao contrário. Um grande pacote de manifestações vazias tem visitado a minha existencialidade – teologias formais e vazias, onde o dogma bem arranjado não condiz com o credo vivenciado, filosofias desencarnadas (livrescas), aparência de conteúdo para vazios existenciais e culturais, manifestações verbais desassociadas das práticas – o excesso de aparências tem me ressequido, quase não encontro alimento sadio para a minha alma, não confio nas comidas oferecidas na feira da existência – encontro muito agrotóxico, calorias e poucos nutrientes. Amizades sem amigos, irmandade sem irmãos, cristianismo sem Cristo e demais formas de ser não sendo, constroem o pano de fundo do meu contexto existencial.
Por isso revolto-me profundamente, num mundo onde revoltar-se é apenas uma manifestação superficial contra um desconforto superficial.
Revolto-me contra os “nãos” que se dizem “sim”, o “não-ser” que se afirma “ser”, o contraditório que se apregoa coerente, contra toda forma de afirmações e manifestações contraditórias. Mães que não afagam, pais que não orientam, casais que não compartilham. Romances sem amor, religião sem auxílio, filosofia e teologia sem práxis. Tudo isso alimenta o meu ceticismo, atualiza a minha incredulidade. Sou crédulo apenas a alguns aspectos que a vida me afeiçoou, e a esses, prefiro protegê-los contra o alcance do toque sistêmico da morte – digo morte, não a física, mas aquela que desintegra os valores das ações, que faz murchar a beleza da simplicidade e intimida o livre trânsito da pureza.
Assim me sinto, e, creio que, por tudo o que vejo, irei me aprofundar ainda mais neste insosso ceticismo. Não aspiro muita coisa – a modo de Manuel Bandeira – “quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples” (1).

Lailson Castanha
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BANDEIRA, Manuel. A estrela da vida inteira – poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987. 14 ed.
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