Emmanuel Mounier (1905-1950) e sua filha Anne

Espaço para difusão da filosofia personalista de Emmanuel Mounier e para ponderações de vários temas importantes, tendo como referência essa perspectiva filosófica.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Recolhimento em si e abertura ao outro: contribuição do Personalismo para a educação da pessoa.

Recolhimento em si e abertura ao outro: contribuição do Personalismo para a educação da pessoa.(1)


Antonio Joaquim Severino*
Uninove / Feusp

 Resumo


Após resgate do alcance da postura de Mounier como educador e da proposta personalista para a educação da pessoa comprometida com o destino da comunidade, buscar-se-á explicitar a dialeticidade da condição da existência pessoal como tensão permanente entre os movimentos de interiorização e de exteriorização, necessários à sua realização, mas que podem também levar à alienação, tiram-se as implicações dessa ambivalência para uma educação que esteja à altura do enfrentamento dos desafios do mundo contemporâneo, marcado fortemente pelo predomínio da exteriorização. Tem-se presente que o apelo utópico que se põe no horizonte para o pensamento emancipador é o de transformar os indivíduos naturais em pessoas e de transformar as sociedades reificadas em comunidades de cidadãos livres, capazes de tomar seu destino histórico nas próprias mãos.


Introdução

 Minha comunicação quer trazer tão somente algumas considerações sobre o alcance pedagógico do personalismo de Mounier, explicitando as implicações educacionais do seu pensamento. Para tanto, pretendo desenvolvê-la sob três perspectivas:

Num primeiro momento, farei um breve resgate da história de vida de Emmanuel Mounier, como testemunha viva da primeira metade do século XX;

Num segundo momento, delinearei um igualmente sucinto desenho de sua formação perfil intelectuais bem como de sua tomada de posição frente aos acontecimentos históricos da época;

E, ao final, darei um destaque para o seu pensamento filosófico, quanto a sua concepção da pessoa como tensão permanente entre a interioridade e a exterioridade, com suas implicações que esta relação tem para a educação.

Retomo anotações e reflexões que fiz por ocasião de meus estudos de mestrado e doutorado realizados ambos sobre o pensamento de Mounier, que se encontram de forma mais desenvolvida no livro “A antropologia personalista de Emmanuel Mounier” (Saraiva, 1974) ou então “Pessoa e existência: iniciação ao Personalismo de Emmanuel Mounier” (Cortez, 1983) bem como alguns outros textos que já elaborara sobre seu pensamento


Quem foi Mounier? Uma breve apresentação.

Nascido em Grenoble, em 1905, Mounier morreu em 1950, com apenas 45 anos de idade, tendo sido uma atenta testemunha da civilização dessa primeira metade do século XX. Desde muito jovem se deu conta da precária condição da civilização ocidental e da necessidade de sua transformação radical. Daí o seu mote emblemático: refazer a renascença. Discípulo de Bergson, entendia que a humanidade havia crescido no corpo mas continuava pequena na alma...

Participou intensamente da história de sua época, a partir de sua sociedade local, mas sempre com uma perspectiva universal. E essa participação expressava o seu perfil existencial, feito de tensão entre o recolhimento em si e a abertura ao outro...

Foi criado no seio de uma família católica, que lhe assegurou uma infância feliz.Seu extremado respeito pela família o fez acatar a sugestão de seguir a carreira da medicina, tendo se inscrito na Faculdade de Ciências, embora se sentisse atraído pelas Letras. Logo se deu conta que tomara um caminho errado e decidiu mudar de rumo, no que contou com o apoio da família. O pai o apresentou então a Jacques Chevalier, professor de Filosofia em Grenoble. Foi então estudar Filosofia ao mesmo tempo em que se engajava no apostolado leigo, trabalhando no esclarecimento dos jovens sobre a Ação Francesa. Conheceu Mons. Guerry, depois bispo de Cambrai, que era muito envolvido com a pastoral da probreza. Terminados os estudos em Grenoble, foi para Paris, prestando concurso para o doutorado na Sorbonne, tendo sido classificado em 2º. lugar, depois de Raymond Aron. Recomendado por Chevalier, estabeleceu contato com Jean Guitton e Jacques Maritain, bem como com o Pe. Pouget, uma lazarista místico, que muito vai influenciar Mounier. Muito aprecia o pensamento de Péguy, através do qual se aproxima também de Bergson. Inicia-se no magistério ensinando Filosofia em liceus. Acaba abandonando a carreira universitária bem como a tendência ao pensamento místico. Com vários companheiros, funda a revista Esprit, como porta-voz do movimento, de mesmo nome, que vai articulando. Movimento de jovens intelectuais a reclamar um novo alento de vida sobre a civilização ocidental. Mas as tomadas de posição sobre a realidade social acabam afastando alguns apoios, como do próprio Chevalier, de Mauriac, que lhe tece severas críticas, apesar de continuar contando com o apoio de Maritain. Enfrenta ressalvas por parte da própria hierarquia eclesiástica. A acusação é de modernismo e de comunismo. Na expressão do próprio Mounier, era um tríplice sentimento a mover aqueles jovens intelectuais, na maioria cristãos: a falta de um espaço para um pensamento crítico e inovador; o sofrimento de ver o cristianismo comprometido com a desordem estabelecida; a percepção sob a crise econômica, de uma crise total de civilização (Cf. IV, p. 477).

A tentativa de criar um braço político do movimento, através da Troisième Force não dá certo, provocando uma dissidência interna e uma ruptura, Mounier se afasta do ativismo do novo movimento, preocupado em não abrir mão dos princípios de seu humanismo. A Europa em crise com a ascenção do fascismo, com a Guerra da Espanha, com a Guerra Munidal, com a crise econômica resultante da falência do capitalismo em 1929.

Em setembro de 1939, com a eclosão da guerra, Mounier é mobilizado, sendo feito prisioneiro pelos alemães, sendo liberado e desmobilizado em seguida. Muda para Lion, a família passando por dificuldades materiais. A revista é censurada e interditada em 1941. Em 1942 é novamente preso acusado de pertencer ao movimento Combat, movimento de resistência à invasão alemã. Acaba submetido a um internamento administrativo e novamente preso até o julgamento final do movimento Combat.

Após o fim da guerra, volta a Paris, relançando a revista e dando continuidade a sua atuação organizativa e intelectual, sobretudo publicando seus trabalhos, escritos avulsamente até então. Saúde abalado, acabou vítima de um colapso cardíaco em março de 1950.


Mounier: formação intelectual e posicionamento frente ao momento histórico em que viveu.

Fundamentalmente um educador no sentido pleno da palavra. Um educador político.

O educador é aquele que atua no presente, aproveitando a experiência passada, para projetar um futuro melhor. Por isso, é alguém que sabe avaliar a insuficiência do presente, exercendo uma avaliação crítica do mesmo e comprometendo-se com sua transformação. É sempre alguém insatisfeito com a realidade do seu momento e compromissado com a busca de um novo estágio.

Sempre tensionado entre suas duas vocações, busca de uma vida em equilíbrio entre dois polos: entre a imanência e a transcendência. Um cristão místico, homem de fé e de interioridade, ao mesmo tempo que um político engajado na busca da mudança. Um homem de ação prática que não dispensa a exploração do pensamento teórico. Um profeta que pleiteia por um futuro diferente mas que atua no presente, aprendendo com o passado. Eis o retrato de Mounier, um autêntico educador político.

Mounier professava uma grande indignação e inconformismo frente à realidade histórico-social da primeira metade do século XX e tinha uma particular sensibilidade à violação histórica da dignidade do ser humano. Essa sensibilidade tinha algo de inapreensível ao olhar analítico, algo muito profundo na sua personalidade, mas sobre esse lastro desdobram-se outras fontes: a seriedade em se equipar com os recursos do conhecimento crítico, o compromisso em se servir bem desse precioso instrumento, a solidariedade com os oprimidos, os exemplos de outras personalidades igualmente compromissadas com a transformação da realidade. Mounier fala muito da consciência que tomou, já de muito jovem, da insuficiência da civilização contemporânea, da necessidade consequente de se refazer o renascimento, criar uma nova civilização. Paradoxalmente, até a vivência pessoal da fé cristã foi para ele uma fonte de exigência para a superação da desordem estabelecida que ele considerava ser a verdadeira configuração do mundo contemporâneo.

Nesta linha, a filosofia personalista tem um diferencial no sentido de que “apela” para o engajamento. Ela engaja um engajamento. Para ela, o filósofo tem que ser simultaneamente profeta e pedagogo, respondendo pela denúncia, pelo anúncio e pelo encaminhamento de propostas de ação histórica. Não endossa o silêncio dos intelectuais, seja ela o silêncio da omissão ou não. Cobra necessária militância intelectual, não só pela análise fria e neutra, mas também pela crítica e pela proposta. Dos intelectuais se espera um necessário compromisso político, não necessáriamente partidário, e que tenha discernimento competente e combatente.

Ao conceber a pessoa como essa permanência aberta, Mounier decodifica bem a condição do homem, sujeito responsável pela construção da história, como garantindo uma medida comum e universal que une todos os homens ao mesmo tempo que reconhece sua encarnação empírica. As estruturas mediante as quais o Personalismo descreve o universo pessoal abrangem simultaneamente o absoluto de sua transcendentalidade tanto quando o relativo da imanência instaurada por sua encarnação no mundo material

Todo o pensamento de Mounier articula-se em torno dessa intuição básica, de natureza antropológica, qual seja, a da apreensão da pessoa humana, que se realiza como uma unidade dialética de imanência e de transcendência. Essa condição existencial, além de configurar a especificidade da pessoa, atribui-lhe uma eminente dignidade. Com efeito, se, de um lado, a unidade da pessoa é a referência ontológica para a devida compreensão de seu ser, a dignidade da pessoa humana é o ponto nuclear de sua axiologia, ou seja, a referência maior de todos os valores, a fonte referencial de todos eles. Daí, todo o agir histórico dos homens, na sua tentativa de construção da história, bem como seu agir pessoal, têm sempre um parâmetro muito sólido, em que pesem todas as dificuldades decorrentes da própria condição de ambivalência da nossa existência encarnada.

Mounier se sensibilizara profundamente à miséria humana, ficando inconformado com a condição de opressão e exploração, em que tantas pessoas, mundo a fora, tinham de sobreviver. Não sem razão, insistia em reiterar que o marxismo representava “nosso batismo de fogo” . Seu inconformismo brotara de uma particular sensibilidade que tinha à violação histórica da dignidade do ser humano.

A dignidade da pessoa é o critério para a leitura avaliativa das ações mediante as quais se constrói a história real. Não é um ideal ontologizado, mas um conjunto de julgamentos históricos e práticos. Isso implica, sim, uma crítica radical à situação política vigente, comprometida que está integralmente apenas com o ter, sem nenhuma preocupação com o ser. O ser humano foi reduzido a mera mercadoria ou, na melhor das hipóteses, em seu produtor técnico e em seu consumidor voraz. Como filosofia crítica da realidade histórico-social ao mesmo tempo que um pensamento engajado na práxis transformadora, é claro que o personalismo tem tudo para subsidiar a superação dessa desumanizante situação política do mundo atual, contribuindo particularmente para a teoria e a prática de uma educação que seja mediadora da emancipação.

Toda a finalidade da filosofia é chamar o homem para esta experiência global de sua qualidade de existente, condição de intensidade e de responsabilidade interiores. Não uma nova manobra subjetivista para lançar o homem num novo joguinho subjetivo, mas a experiência vital de sua situação em confronto com todo o universo.

Bem se nota a integração constante no pensamento de Mounier da tríplice exigência de vivência, de ciência e de ação. 0 plano do conhecimento deve ser incessantemente integrado numa vivência experiencial do objeto - que não é, então, mero gegenstand - para poder ser eficaz. jamais o conhecimento que interessa o homem poderá deixar de apelar para a co-naturalidade com o objeto, para a experiência pessoal, para a experiência existencial, e jamais tudo isso poderá deixar de ser fonte energética da ação.

Como o caráter nada mais é, para Mounier, do que a própria pessoa (Ricoeur, 1950. p. 881), "o objeto mesmo do conhecimento do caráter exclui o conhecimento do tipo positivo sem excluir com isso o conhecimento" (1946t. II, p. 70). A caracteriologia é a ciência intermediária entre a experiência do mistério e a elucidação racional de que dependem as manifestações do mistério (1946t. II, p. 70). Só o engajamento pessoal na aventura total do homem, dar-lhe-á o acesso ao mistério da existência da pessoa (1946t. II, p. 70).

Contudo estas considerações não devem levar à conclusão de que para Mounier nenhum conhecimento seja possível, que a inteligência humana seja incapaz de lançar alguma luz sobre as misteriosas profundezas da existência que lhe serve de base: porque a pessoa não deve ser lançada no indizível (1949. III, p. 431).

A questão da metodologia filosófica em geral e da epistemologia em particular pode ser extremamente importante para o estudioso do Personalismo. Com efeito, sua compreensão e avaliação far-se-ão em grande parte, em função desta metodologia. Contudo, não era este o ponto de vista de Mounier, o que, a muitos críticos, parece imperdoável. Curioso é observar que uma preocupação explícita a respeito deste problema só aparece nos escritos dos tempos em que ainda estudava. Abandonada a carreira universitária e fundado o movimento "Esprit", Mounier parte para o grande empreendimento de reconstruir a civilização e de instituir uma antropologia que fundasse tal projeto, sem se indagar sobre o problema da validade de sua atitude filosófica, essencialmente fenomenológica. Aliás, fazendo sua a posição existencialista dos anos 30, põe em dúvida o próprio sentido do problema. 0 filosofar, então, não é tido como um conhecer mas como um despertar para a existência autêntica. 0 que realmente importa é apreender a densidade da própria existência pessoal.

Assim sendo, Mounier não se preocupa em esclarecer seu leitor a respeito do sentido desta perspectiva epistemológica. Ao crítico, responderá que se trata de "ser sensível" à pessoa, que nenhum instrumento lógico irá revelá-la a ninguém. É por causa desta atitude fenomenológica, que não se explicita em termos de definição gnoseológica, que uma obra como Le personnalisme, em que sintetiza sua antropologia de um ponto de vista metafísico, desnorteia o filósofo e o Traité du caractère, em que aborda a pessoa de um ponto de vista de contraposiçâo à psicologia, desnorteia o cientista.

A ele se recrimina, por causa disso, a ausência do rigor filosófico. Mas talvez Mounier respondesse que esta omissão é intencional e adotada justamente por causa do verdadeiro rigor filosófico (1946i. III, p. 146).


Recolhimento e ruptura

O aspecto teórico do pensamento de Mounier que me propus destacar, neste terceiro passo da comunicação é o da tensão permanente entre a interioridade e a exterioridade que marca a existência da pessoa. Nosso existir pessoal não se dá numa situação fixa, mas sempre num equilíbrio instável de forças que simultaneamente nos impelem para dentro e para fora de nós mesmos. Somos permanentemente apelados para uma volta pra nossa interioridade ao mesmo tempo que impelidos a sair de nós mesmos em busca do que está fora de nós, para a exterioridade.

Esta é uma das marcas mais fortes do esforço de pensamento de Mounier e, emblematicamente, a expressão de sua própria vida pessoal, de sua história de vida, atravessada por contradições que decorrem dessa tensão. Exemplo bem concreto foi o conflito vivido no contexto do embate entre o movimento Esprit e o Troisieme Force, bem como a opção entre a carreira acadêmica e a militância social.

Mas mais que isso é a própria estruturação de seu pensamento que se impregna dessa dialética. Ao descrever a estrutura do universo pessoal, Mounier recorre sempre a essa bipolarização conceitual para dar melhor conta do ser da pessoa. Muitos veem aí o dualismo da metafísica tradicional, mas não é essa a perspectiva mounierista. Pois o que tem em vista é a unidade complexa da pessoa. Daí insistir na condição da pessoa como simultânea e integralmente imergente e emergente em relação à natureza pré-humana e à sociedade, dada a modalidade corporal e social de seu existir, a inserção no cosmos, na história vital e no contexto social. A pessoa não tem corpo, ela é um corpo em plena comunhão com o mundo da matéria e da vida. Mas, ao mesmo tempo, sua condição se marca, se especifica e se diferencia, por emergir dessa condição encarnada, transcendendo-a sem se separar dela, na medida em que lhe atribui uma intencionalidade de significação. Ela não vive essa imersão de forma puramente mecânica, mas intencional.

É por isso que insiste no modo de se realizar de nossa liberdade: ela é, legitima e simultaneamente, uma liberdade condicionada, encarnada, situação que revela, ao mesmo tempo e com igual valor, que nosso agir é, por uma face, livre, como expansão de nossas decisões, mas também condicionado, sob determinação objetiva por fatores externos que escapam ao nosso controle. Mas não há comprometimento da liberdade pela necessidade. A liberdade humana não é mesmo absoluta, arbitrária, onitpotente, pois ela é a liberdade de um ser encarnado.

Essa encarnação não é uma queda, como se lamenta a tradição platônica e nem uma violação da autonomia do nosso espírito. Ela é o nosso modo autêntico e integral de ser.

Mounier sempre retoma a metáfora do movimento de interiorização/exteriorização para fazer a descrição fenomenológica de nossa existência. Assim, afirma que “a existência pessoal é sempre disputada entre um movimento de exteriorização e um movimento de interiorização que lhe são essenciais e que podem paralisá-la ou dissipá-la” (Le personnnalisme, III, p. 468). Nessa dialeticidade, o equilíbrio tensional corre sempre o risco de se romper, podendo levar tanto para um polo como para o outro; a uma objetivação, quando o ser pessoal se exterioriza totalmente, se objetivando e se alienando num outro de si mesmo, perdendo-se, reduzindo-se a uma coisa. Ocorre então uma forma radical de alienação.

Mas não é menor o risco da alienação ocorrer pelo fechamento do ser pessoal na sua própria interioridade. Ao querer livrar-se do emprisionamento das coisas do mundo objetivo, a pessoa pode tornar-se presa da interioridade egocêntrica, subjetiva, pode ser arrastada para o teatro sofisticado de Narciso, na expressão do próprio Mounier, insistindo que é preciso “sair da interioridade para entreter a interioridade” (III, 469).

Vem daí o ímpeto do homem para interagir com a natureza e com os seus semelhantes. O trabalho e a interação social não expressam apenas a necessidade da produção, mas também a força de ruptura e superação do egocentrismo, pelo que se transformam também em fatores de cultura e de espiritualidade. Como arremata Mounier, afirmando incisivamente, “sem a vida exterior, a vida interior enlouquece; sem a vida interior, a vida exterior, delira” ( III, 469).

Em síntese, o homem pode viver à maneira de uma coisa, mas como ele não é uma coista, uma tal vida aparece-lhe sob o aspecto de demissão ( III, 462). Pode viver no divertimento, no estado estético, na vida inautêntica, na alienação ou na má-fé, mas então vive fora de si mesmo, confundido com o tumulto exterior, como coisa entre coisas, totalmente objetivado, coisificado, em pura e total vulgaridade. É nesse contexto, com base nessa exigência de mútua implicação nesse movimento de mão dupla, que Mounier discute a relação dialética entre o ser e o ter, destacando o risco de a pessoa ser dominada pelo objeto possuído.

E é igualmente sob essa perspectiva que aborda o tema da comunicação, como abertura para o outro; ele a considera como o fato primitivo, originário, constitutivo do modo de ser humano, sua experiência fundamental. O tu, e nele o nós, precede o eu. Trata-se de experiência tão profunda que quando o alter se torna alienus, a pessoa se perde e se aliena totalmente. Eis também porque, no conjunto de sua proposta de transformação da sociedade contemporânea, Mounier fala sempre de uma revolução personalista e comunitária.


Conclusão

Sob essas premissas sinteticamente apresentadas, já é possível vislumbrar a relevância que o personalismo atribui à educação para a reconstrução da civilização humana. Pois só se poderá fundar a comunidade sobre pessoas solidamente constituídas, o amadurecimento da comunidade é vinculado ao desabrochar das pessoas. A educação é fundamentalmente o aprendizado da comunidade, onde a aprendizagem do eu se faz simultaneamente com a aprendizagem do tu.

Sem dúvida, a comunidade pessoal perfeita é, historicamente, uma imagem limite, um horizonte, que se deve manter em vista. É inalcançável devido à própria contingência do existir, preço da encarnação. As nossas serão sempre comunidades imperfeitas. Mas eis aí uma utopia fecunda para o combate tanto ao individualismo egosita como contra o coletivismo impessoal. E a educação, basicamente, é mediação concreta para a instauração da solidariedade, malha que se tece quando o outro é reconhecido como parceiro do eu. (Cf. SEVERINO, 2001).

Na condição de prática especificamente voltada para os sujeitos humanos em construção, desenvolvendo uma ação de intervenção nesses sujeitos, o seu compromisso fundamental é com o respeito radical à dignidade humana desses sujeitos. Com efeito, a legitimidade da educação pressupõe necessariamente sua eticidade. Esse compromisso ético da educação, que se estende ao exercício profissional dos educadores, por assim dizer, se acirra nas coordenadas historico-sociais em que nos encontramos. Isto porque as forças de dominação, de degradação, de opressão e de alienação, se consolidaram nas estruturas sociais, econômicas e culturais. As condições de trabalho são ainda muito degradantes, as relações de poder muito opressivas e a vivência cultural precária e alienante. A distribuição dos bens naturais, dos bens políticos e dos bens simbólicos, muito desigual. Em outras palavras, as condições atuais de existência da humanidade, traduzidas pela efetivação de suas mediações objetivas, são extremamente injustas e desumanizadoras.

Assim, é também por exigência ética que a atividade profissional dos educadores deve se conceber e se realizar como investimento intencional sistematizado na consolidação das forças construtivas das mediações existenciais dos homens. É isto que lhe dá, aliás, a sua qualificação ética. O investimento na formação e na atuação profissional do educador não pode, pois, reduzir-se a uma suposta qualificação puramente técnica. Ela precisa ser também política, isto é, expressar sensibilidade às condições histórico-sociais da existência dos sujeitos envolvidos na educação. E é sendo política que a atividade profissional se tornará intrinsecamente ética.

O que se pode perceber então é que aquilo de melhor que é pensado e realizado, hoje, na esfera educacional, impregna-se essencialmente da inspiração madura, crítica e construtiva do pensamento personalista que propõe e consolida um projeto humanista de transformação qualitativa de toda nossa realidade individual e social.

Na condição de prática especificamente voltada para os sujeitos humanos em construção, desenvolvendo uma ação de intervenção nesses sujeitos, o seu compromisso fundamental é com o respeito radical à dignidade humana desses sujeitos. Com efeito, a legitimidade da educação pressupõe necessariamente sua eticidade. Esse compromisso ético da educação, que se estende ao exercício profissional dos educadores, por assim dizer, se acirra nas coordenadas historico-sociais em que nos encontramos. Isto porque as forças de dominação, de degradação, de opressão e de alienação, se consolidaram nas estruturas sociais, econômicas e culturais. As condições de trabalho são ainda muito degradantes, as relações de poder muito opressivas e a vivência cultural precária e alienante. A distribuição dos bens naturais, dos bens políticos e dos bens simbólicos, muito desigual. Em outras palavras, as condições atuais de existência da humanidade, traduzidas pela efetivação de suas mediações objetivas, são extremamente injustas e desumanizadoras.

Assim, é também por exigência ética que a atividade profissional dos educadores deve se conceber e se realizar como investimento intencional sistematizado na consolidação das forças construtivas das mediações existenciais dos homens. É isto que lhe dá, aliás, a sua qualificação ética. O investimento na formação e na atuação profissional do educador não pode, pois, reduzir-se a uma suposta qualificação puramente técnica. Ela precisa ser também política, isto é, expressar sensibilidade às condições histórico-sociais da existência dos sujeitos envolvidos na educação. E é sendo política que a atividade profissional se tornará intrinsecamente ética.

O que se pode perceber então é que aquilo de melhor que é pensado e realizado, hoje, na esfera educacional, retoma essencialmente a inspiração madura, crítica e construtiva do pensamento personalista que propõe e consolida um projeto humanista de transformação qualitativa de toda nossa realidade individual e social.


*Antonio Joaquim Severino


Professor titular, aposentado, de Filosofia da Educação na Faculdade de Educação da USP, ora atuando como docente colaborador. Licenciou-se em Filosofia na Universidade Católica de Louvain, Bélgica, em 1964. Na PUCSP, apresentou seu doutorado, defendendo tese sobre o personalismo de Emmamuel Mounier, em 1972. Prestou concurso de Livre Docência em Filosofia da Educação, na Universidade de São Paulo, em 2000. Em 2003, prestou concurso de titularidade. Atualmente integra o corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uninove, Universidade Nove de Julho, de São Paulo. Dentre suas publicações, destacam-se Metodologia do trabalho científico (Cortez, 1975; 21. ed. 2000); Educação, ideologia e contra-ideologia. (EPU, 1986); Métodos de estudo para o 2o. Grau (Cortez, 1987; 5. ed. 1996); A filosofia no Brasil (ANPOF, 1990); Filosofia (Cortez, 1992; 5. ed. 1999); Filosofia da Educação (FTD, 1995; 2. ed. 1998); A filosofia contemporânea no Brasil: conhecimento, política e educação (Vozes, 1999), Educação, sujeito e história (Olho d´Água, 2002) e vários artigos sobre temas de filosofia da educação. Seus estudos e pesquisas atuais situam-se no âmbito da filosofia e da filosofia da educação, com destaque para as questões relacionadas com a epistemologia da educação e para as temáticas concernentes à educação brasileira e ao pensamento filosófico e sua expressão na cultura brasileira.
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(1) Roteiro da fala do Prof. Dr Antonio Joaquim Severino por ocasião do Seminário Mounier e Ricoeur no dia 7 de maio de 2012 no Centro Universitário Salesiano de São Paulo – Unisal Lorena/SP.
 Referências bibliográficas.

MOUNIER, Emmanuel. Oeuvres. 4 vols. Paris, Seuil, 1962.

SEVERINO, Antonio J. A antropologia personalista de Emmanuel Mounier. São Paulo: Saraiva, 1974

SEVERINO, Antonio J. Pessoa e existência: iniciação ao personalismo de Emmanuel Mounier. São Paulo: Cortez, 1983.

SEVERINO, Antonio J. A contribuição do pensamento de Mounier à reflexão antropológica contemporânea. Rev. Fil. Bras. Rio, UFRJ. 5(1): 25-30. jun. 1992.

SEVERINO, Antonio J. Humanismo, personalismo e os desafios sociais da educação contemporânea. Revista Educação Pública. Cuiabá. v. 18. no. 35. jan./abr. 2009. p. 155-163.
 
Foto: Prof. Dr Antonio Joaquim Severino, exposta na Revista Eletrônica Perspectivas em Educação, Edição nº 1 -  ano 1 - Setembro/Outubro/Novembro/Dezembro 2007, do Curso de Pedagogia da FMC. http://www.unicaieiras.com.br/revista1/entrevistas.htm. acesso em 29 de maio de 2012 às 05:18Hs.

domingo, 6 de maio de 2012

Seminário Mounier e Ricoeur

Seminário Mounier e Ricoeur

Pessoa, comunidade e a nossa condição terrestre em instituições justas na obra de E. Mounier e de P. Ricoeur.

DATA: 7 de maio de 2012
LOCAL: Centro Universitário Salesiano de São Paulo – Unisal Lorena/SP.
ORGANIZAÇÃO: Rede E. Mounier e P. Ricoeur do Brasil, Curso de Filosofia e Mestrado em Direito (reconhecido pela CAPES) do UNISAL.
COMISSÃO ORGANIZADORA: Prof. Dr. Alino Lorenzon (Uerj) , Prof. Ms. Daniel da Costa (Professor – Unisal), Prof. Dr. Lino Rampazzo (Coord. do curso de Filosofia – Faculdade Canção Nova) , Prof. Ms. Mário José Dias (Coord. do curso de Filosofia – Unisal), Profª. Drª. Grasiele Augusta Ferreira Nascimento (Coord. do Mestrado em Direito – Unisal), Esp. Roberta Werneck Magalhães dos Santos (Encarregada dos Projetos e Eventos – Unisal).

Mais informações: Prof. Ms. Mário José Dias, Coordenador do Curso de Filosofia – Unisal Lorena. E-mail: curso.filosofia@lo.unisal.br

Tel.: (0xx12-3159.2033)

Programação

08h00: Inscrições e entrega do material

08h15: Abertura D. Benedito Beni dos Santos (Bispo da Diocese de Lorena)
Coordenador dos Trabalhos da manhã: Prof. Ms. Mário José Dias
08h30: Mesa-RedondaO personalismo como condição e fundamento da vida
Prof. Dr. Alino Lorenzon (UERJ): Pessoa, comunidade e a nossa condição terrestre em instituições justas.
Prof. Ms. Daniel da Costa (UNISAL): Descartes na formação do pensamento de E. Mounier.
Prof . Dr. Paulo Cesar da Silva (UNISAL): A ação ética e a realização pessoal e social na obra O Personalismo de Mounier.
 
10h00: IntervaloLançamento da edição brasileira do livro de Guy COQ – Mounier – O engajamento político pela Editora Ideias & Letras.

10h30: Mesa-RedondaA educação na perspectiva personalista.

Prof. Dr. Antônio Joaquim Severino (USP): Recolhimento em si e abertura ao outro: contribuições do personalismo o para a educação da pessoa.
Prof. Dr. Ricardo Almeida de Paula (UCB): Crise da pessoa e crise da educação: um estudo do personalismo de Emmanuel Mounier.
Prof. Ms. Jefferson da Silva (UNISAL): A simbólica faz pensar: no pensamento de Paul Ricoeur.

12h00: Intervalo para almoço

Coordenador dos trabalhos da tarde: Prof. Dr. Lino Rampazzo
13h30: Mesa-RedondaO personalismo e seus desdobramentos na contemporaneidade.
Prof. Drª. Francisca Eleodora Santos Severino (UNIABC): A condição feminina e a condição materna da mulher.
Prof. Ms. Március Tadeu Nahur (UNISAL): Ética ecológica e responsabilidade em Jonas e Ricoeur: caminho para uma ação ambiental mobilizadora.

15h00: Intervalo

15h30: Mesa-RedondaAs Instituições Justas na perspectiva personalista.
Prof. Dr. José Marcos Miné Vanzella (UNISAL): A distinção do justo e do bom e a questão das instituições no pensamento de Paul Ricoeur.
Prof. Ms. Roberto Roque Lauxen (UPF): Instituições justas e instituições injustas nos planos nacional e internacional.
16h30: EncerramentoImpressões finais sobre o encontro (Prof. Dr. Alino Lorezon, Prof. Drª. Grasiele Nascimento, Prof. Dr. Lino Rampazzo e Prof. Ms. Mário José Dias)

Uma breve apresentação dos filósofos

Emmanuel Mounier (1905-1950)

Um estilo diferente de filosofar e um cristão comprometido com mundo mais justo. O estilo do filosofar de Mounier é muito original, porquanto sua reflexão se nutre do Acontecimento no sentido amplo da palavra e se engaja no testemunho da ação. Sua filosofia centrada na pessoa humana constitui uma negação do individualismo,“inimigo número um do espírito comunitário”, bem como do capitalismo dominado pelo reino do dinheiro e do totalitarismo que nega a liberdade e a pessoa. Para tanto, será preciso lutar pelo despertar da pessoa e pelo despertar comunitário. “A pessoa só se afirma na comunidade” Dessa forma, a pessoa não é um meio-termo entre o indivíduo e a sociedade. Ademais, não podemos fazer um discurso geral e vago sobre a pessoa humana. “Nós fizemos uma escolha. Em nossa investigação, não queremos apenas tratar do homem, mas combater pelo homem”. Por isso, temos que ver na pessoa uma situação concreta, contraditória e historicamente situada e constitutivamente comunitária. Ora, o despertar da consciência de pertença à comunidade se impõe, hoje mais do que nunca, como uma necessidade e como uma urgência inadiáveis em vista da própria sobrevivência do ser humano e da escassez dos recursos do planeta. Desiludido com o estilo de ensino da filosofia da Sorbonne de Paris, que soberanamente desconhecia os problemas e dramas humanos, Mounier faz a opção de seguir o caminho difícil fora da universidade. Então, com um grupo de jovens de sua época, lança um movimento e a revista Esprit. Esta continua sendo ainda hoje uma das mais importantes (se não a mais importante) da França e da Europa. Mounier, como cristão, teve uma excelente formação bíblica dada pelo Padre Pouget, um lazarista de uma sólida cultura. Formação continuada pelos intercâmbios com os grandes teólogos franceses do seu tempo, pioneiros do Vaticano ll. G.Coq ressalta os méritos do cristianismo de Mounier, por ter sido capaz de “articular o engajamento social, político e cristão sem subestimar os riscos espirituais do engajamento temporal”.

NB – Para o leitor que deseja ler alguma obra de ou sobre Mounier, poderá consultar o site: www.estantevirtual.com.br e encontrará textos importantes a preços módicos. Vale a pena ler a excelente obra de Guy COQ, intitulada Mounier – O engajamento político da Editora Ideias&Letras a ser lançada neste seminário.

Paul Ricoeur (1913 - 2005)

Foi um dos grandes e dos mais fecundos filósofos e pensadores franceses do período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. Feito prisioneiro, esteve internado em vários campos da Alemanha até 1945. Após a Liberação, Ricoeur ensina filosofia na Universidade de Estrasburgo e em seguida na Universidade de Nanterre não região parisiense. Simultaneamente dirige o Centro de Pesquisas Fenomenológicas e Hermenêuticas do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique). Paralelamente a essas funções, Ricoeur ensinava filosofia na Universidade de Chicago nos EUA de 1972 até a sua aposentadoria em 1983. Participa dos grandes debates do momento sobre linguística, psicanálise, estruturalismo e hermenêutica, com um interesse particular pelos textos sagrados do cristianismo. Segundo sua própria afirmação, Ricoeur foi desde o início influenciado pelos filósofos Gabriel Marcel, Emmanuel Mounier e Edmund Husserl. Falando da influência recebida de Mounier e de Esprit antes da Segunda Guerra, Ricoeur afirma que a conjunção entre pessoa e comunidade representava um grande avanço inédito.Ademais, aprendia com Mounier a necessidade de articular as convições espirituais com as tomadas de posição políticas que até este momento era apenas justapostas aos meus estudos universitários e aos meus engajamentos nos movimentos da juventude protestante. Um pensador de uma grande fecundidade no campo da filosofia. Os temas abordados são os mais variados, mantendo no entanto uma articulação lógica e literária notável. Descendo por exemplo em profundidade no interior da existência humana, Ricoeur vê que o homem concreto é vontade falível e, portanto, capaz de mal. A antropoloqia de Ricoeur delineia um homem frágil, sempre sobre o abismo entre o bem e o mal. A problemática da simbólica do mal leva Ricoeur ao tema da linguagem, projeto que encontra seus inícios com um escrito sobre Freud: Da interpretação. De certa forma, o trabalho filosófico de Ricoeur se apresenta como uma teoria da pessoa humana, porque esta continua sendo “o melhor candidato para sustentar as batalhas jurídicas, políticas,econômicas e sociais”. No campo da justiça e da ética, Ricoeur elabora uma teoria original, formulada na seguinte asserção: “Chamamos “perspectiva ética”, a perspectiva da “vida boa” com e para o outro em instituições justas”. A produção filosófica de Ricoeur é muito extensa. Uma boa parte de suas obras está em português.Neste site: www. estantevirtual.com.br é possível encontrar muitas de suas obras a preços módicos.

Prof. Dr. Alino Lorezon

Resumos

Coordenador das mesas: Prof. Ms. Mário José Dias

Mesa-Redonda: O personalismo como condição e fundamento da vida

Pessoa, comunidade e a nossa condição terrestre em instituições justas.

Alino Lorenzon (UERJ)1

Na história da humanidade sempre houve crises e exigências de mudanças profundas. No entanto, nós hoje uma profunda crise de civilização e de valores morais, como diria Mounier. De um lado há um individualismo alimentado pela ganância e pelo consumismo exagerado, exaurindo os escassos e limitados recursos do planeta e, de outro, as desigualdades sociais e a violência sob múltiplas formas. A Carta da Terra redigida na Conferência Mundial da RIO-92 começa com o seguinte lema: “Nós pertencemos a uma única família humana e a uma única comunidade terrena com um destino comum”. Por isso, a temática da pessoa, da comunidade, da ecologia e das instituições constituem um sério desafio para o pensador que não dissocia a sua reflexão de um engajamento de mudança.

Descartes na formação do pensamento de E. Mounier.

Prof. Ms. Daniel da Costa (UNISAL)2

É pela leitura de um texto inédito produzido por Emmanuel Mounier, o seu trabalho de conclusão do curso de filosofia que realizou sob a orientação do filósofo Jacques Chevalier, e ainda não lançado em Francês (Mounier, EMMANUEL, Le conflit de l’Antropocentrisme et du théocentrisme dans La philosophie de Descartes, Diplôme d’etudes supérieures de philosphie, Grenoble, Juin, 1927.), que já podemos perceber algumas linhas diretrizes do que se desenvolverá, aos poucos, com o lançamento da Revista Esprit, como as linhas do pensamento engajado de Emmanuel Mounier: do seu personalismo. A partir do mesmo, será interessante notar, primeiramente, os delineamentos de um problema fundamental que inspirará os dois “jovens inconformados”, Mounier e Izard, a empreenderem a aventura de lançamento, em 1932, de uma “revista internacional” de crítica política e cultural: Esprit. Também poderemos alcançar uma melhor compreensão do primeiro artigo lançado no primeiro número de Esprit (Refazer a Renascença) e que compõe, com outros, uma série de textos programáticos que cobre os anos de 1932 a 1935 intitulada: Révolution personaliste et communautaire, Oeuvres, Tome I, Éd. du Seuil, Paris, 1961. Assim, a leitura do texto juvenil Le conflit ... nos coloca em suspeita contra a facilidade de uma certa crítica generalizante destes primeiros delineamentos (artigos programáticos) de Mounier, como se se tratassem simplesmente de “textos pouco consistentes conceitualmente e já superados pela mudança dos eventos atuais”. Além de nos depararmos com uma interessante abordagem feita por Mounier da obra de Descartes que destoa de certos lugares comuns – pró e contra o chamado “racionalismo” de Descartes – da tradição de comentadores que se amontoam em prateleiras de livrarias e bibliotecas.

A ação ética e a realização pessoal e social na obra O Personalismo de Mounier.
Prof. Dr. Paulo César da Silva (UNISAL)3

Mounier, em sua obra “O personalismo”, defende que o universo da pessoa se estrutura em sete dimensões, unificadas na única identidade pessoal. Estas dimensões são, com as palavras de Mounier, “A existência incorporada, A comunicação, A conversão íntima, O afrontamento, A liberdade em condições, A eminente dignidade e O compromisso.” A pessoa humana é justamente compreendida de forma dinâmica, o que significa que ela é dom e projeto. O desenvolvimento deste projeto pessoal se realiza na medida em que a ação corresponda à identidade da pessoa e se ajuste, consciente e livremente, à norma própria para o ser pessoal. A pessoa humana, à medida que age eticamente, contribui para a realização de si e do outro, como pessoa, e da sociedade humana. A realização de si e da sociedade exige que a pessoa se autoconheça o mais possível, na sua integralidade, e participe, enquanto pessoa, no conjunto da sociedade humana. Participar, “enquanto pessoa”, implica que ela aja e contribua para que as ações das demais pessoas sejam conforme as dimensões estruturais do universo pessoal. Destaca-se a “A eminente dignidade”, tendo-se em vista a necessidade da educação da faculdade axiológica que possibilita compreender o valor da pessoa humana, visto que este valor é um transcendental da sua estrutura ôntica. O pressuposto antropológico personalista é condição indispensável para a análise, o discernimento e as ações que realizam as mudanças necessárias das estruturas institucionais de quaisquer matrizes, sejam individualistas, coletivistas ou mistas, em vista à realização da pessoa e o bem comum de toda a sociedade humana.

Mesa-Redonda: A educação na perspectiva personalista.

Recolhimento em si e abertura ao outro: contribuições do personalismo o para a educação da pessoa.

Prof. Dr. Antônio Joaquim Severino (USP)4

Após resgate do alcance da postura de Mounier como educador e da proposta personalista para a educação da pessoa comprometida com o destino da comunidade, buscar-se-á explicitar a dialeticidade da condição da existência pessoal como tensão permanente entre os movimentos de interiorização e de exteriorização, necessários à sua realização, mas que podem também levar à alienação, tiram-se as implicações dessa ambivalência para uma educação que esteja à altura do enfrentamento dos desafios do mundo contemporâneo, marcado fortemente pelo predomínio da exteriorização. Tem-se presente que o apelo utópico que se põe no horizonte para o pensamento emancipador é o de transformar os indivíduos naturais em pessoas e de transformar as sociedades reificadas em comunidades de cidadãos livres, capazes de tomar seu destino histórico nas próprias mãos.

Crise da pessoa e crise da educação: um estudo do personalismo de Emmanuel Mounier.
Prof. Dr. Ricardo Almeida de Paula (UCB)5

Mediante o dialógico do Cogito, entre imanência e transcendência, Mounier demonstra o elemento de equilíbrio entre estas duas premissas através da categorização da pessoa, ao afirmar não poder ser ela tratada na mesma ordem dos objetos naturais. Ou seja, “a pessoa não é um objeto. Ela é antes tudo aquilo que em cada homem não pode ser tratado, como objeto” (MOUNIER, Oeuvres III, p. 430). Ao propor esse diálogo devemos ter em mente que a pessoa não pode ser pensada “como uma coisa ou substância que possua determinadas qualidades ou se encontre ao lado de seus atos ou simplesmente junto deles” (BORAU, 2007, p. 298), mas, deve ser considerada sua condição ontológica - o seu “ser” em face do Ser.

A simbólica faz pensar: no pensamento de Paul Ricoeur.

Prof. Ms. Jefferson da Silva (UNISAL)6

Segundo Ricoeur, na sua obra Finitude e Culpabilidade (1960), pensar a simbólica é tentar encontrar outras possibilidades para além de uma linguagem uniformizadora. É restaurar os signos sagrados que foram esquecidos pelo homem moderno. De fato, para o homem se conhecer e se compreender é necessário utilizar um “atalho”, a saber, as expressões da vida, ou obras da cultura, como os símbolos. O símbolo significa algo sobre a nossa realidade antes mesmo do próprio ato de filosofar. Porém, ele só é capaz de expressar algo na medida em que é interpretado. Quando interpretado, pode dizer mais sobre a realidade, pois extrapola o cognitivo que, por não dar conta de toda a realidade, está sujeito (pela falibilidade) ao erro, a interpretações unívocas, possibilitando, na ação, a penetração do mal. Assim, o pensar sobre o simbólico leva a hierofanias esquecidas; e, a partir dessas e pelo processo interpretativo, podem-se ampliar as significações da realidade e do próprio sujeito que pensa.

Coordenador das mesas: Prof. Dr. Lino Rampazzo

Mesa-Redonda: O personalismo e seus desdobramentos na contemporaneidade.

A condição feminina e a condição materna da mulher.

Prof. Drª. Francisca Eleodora Santos Severino (UNIABC)7

A comunicação busca relacionar gênero e maternidade tendo como objetivo trazer à tona a falta de igualdade entre gêneros no contexto das mudanças sociais e do humanismo com destaque para a contribuição dos filósofos Paul Ricoeur e E. Mounier. A reflexão evidencia a insuficiência da filosofia ao abordar os discursos construídos pelo masculino. A reconstrução das representações de feminilidade decorre das exigências da nova ordem mundial que insiste no esvaziamento da noção do outro e na exigência de novos conceitos filosóficos que lhes dêem respaldo. A oposição masculino/feminino é abordada pela filosofia pela mediação de um pensamento por opostos que faz emergir o vício de se ver a mulher pelo prisma biológico da divisão sexual do trabalho, desconsiderando aspectos históricos culturais e os planos lógicos e epistemológicos de análise. Mounier e Ricoeur incidem na afirmação da necessidade de ultrapassar esta dicotomia.

Ética ecológica e responsabilidade em Jonas e Ricoeur: caminho para uma ação ambiental mobilizadora.

Prof. Ms. Március Tadeu Nahur (UNISAL)8

O diálogo filosófico entre Hans Jonas (“O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica”) e Paul Ricoeur (“Ética e filosofia da biologia em Hans Jonas”) traz uma revelação: o moderno “saber-poder-fazer” tecnológico propicia um extraordinário potencial de intervenção humana na natureza, inclusive destrutivo. Isso apela para uma ética da responsabilidade capaz de abrir caminho para o agir humano mobilizador da (pre) ocupação de se preservar as condições sob as quais o autenticamente humano se revela no curso de sua história. A ética da responsabilidade é um sim ao ser, um não ao não ser, que a vida pronuncia sobre si mesma espontaneamente, e prenuncia para o agir humano um compromisso presente-futuro que não negligencie a natureza, o homem e a humanidade.

Mesa-Redonda: As Instituições Justas na perspectiva personalista.

A distinção do justo e do bom e a questão das instituições no pensamento de Paul Ricoeur.

Prof. Dr. José Marcos Miné Vanzella (UNISAL)9

O presente ensaio aborda o problema da distinção do bem e do justo no pensamento de Paul Ricoeur. Trata-se de explicar como a abordagem do autor procura superar as limitações da leitura metafísica clássica e do universalismo abstrato em sua concepção do justo. Apresenta a distinção do conceito de bem na ética de Ricoeur, entendido a partir da estima de si, que corresponde ao desejo da vida boa e abrange a solicitude, a qual significa viver bem com e para o outro, expressão da vontade de viver juntos. A questão ética diferencia-se da questão moral, a qual implica a pretensão da universalidade e obrigação, postas em sociedades pluralistas, inicialmente pelo universalismo abstrato e formal. O autor identifica que são movidas pela ideia de reconhecimento com valor universal concreto. A passagem do reconhecimento do outro próximo ao distante é também o passo da amizade à justiça. O nexo da justiça e instituição é a figura inteiramente desenvolvida da bondade. Universalismo e contextualismo, não se opõem, mas são complementares em níveis diferentes, pois a preservação das identidades culturais exige um trabalho de compreensão mútua e de tradução recíproca. A justiça se estabelece como justa distancia entre o si e o outro encontrado como distante. Distingue assim o nível da moral e o complementa com o da sabedoria prática que assume a diversidade das heranças culturais e os problemas de aplicação dos princípios universais abstratos.

Pessoa e promessa em Paul Ricoeur: no caminho das instituições justas

Prof. Dr. Roberto Roque Lauxen10

Nosso trabalho busca os fundamentos do conceito de pessoa no marco histórico do pensamento de Paul Ricoeur procurando certa relação de continuidade à abordagem de Soi-même comme un autre. Neste recorrido histórico a pessoa é definida pela noção de ato e de atitude, que para nós é a raiz ontológica da ipseidade, em oposição ao indivíduo que representa a mesmidade. A tensão entre o ato livre que se encarna no tempo aparece em 1936 através do paradoxo da encarnação. Neste contexto – onde o homem e o filósofo se confundem em Ricoeur – o salto para o engajamento e a responsabilidade nasce da vocação do cristão, do mortificar-se e perder-se pelo outro. Em 1983 Ricoeur incorpora o conceito de crise e convicção. A convicção nasce da percepção do intolerável de onde parte o engajamento que faz face à crise, através da “identificação do sujeito com forças transubjetivas”. Defendemos que a noção de promessa de Soi-même comme un autre (1990) incorpora todas estas dimensões que foram gestadas em períodos anteriores de seu pensamento. Por isso, propomos uma analogia entre o intolerável e os puzzling cases da identidade pessoal e narrativa, de onde surge o engajamento, a convicção e a manutenção de si na promessa. Uma segunda linha de defesa é que a promessa é base das instituições justas, pois ela estabelece uma determinação para a liberdade, como responsabilidade pelo outro. Destacamos, por fim, certo distanciamento de Ricoeur em relação a este marco histórico a partir da função central do “terceiro” ou da “sociabilidade” na constituição da pessoa, e a necessidade de sua realização através das instituições justas.

Seminário E. Mounier e P. Ricoeur

TEMA GERAL: Pessoa, comunidade e instituições na obra de E. Mounier e de P. Ricoeur.
DATA: 7 de maio de 2012
LOCAL: UNISAL – Centro Universitário Salesiano de São Paulo. Lorena/SP.

ORGANIZAÇÃO: Rede E. Mounier e P. Ricoeur do Brasil e Curso de Filosofia e Mestrado em Direito (reconhecido pela CAPES) do UNISAL

Comissão organizadora: Prof. Alino Lorenzon, Prof. Daniel da Costa, Prof. Lino Rampazzo, Prof. Mário José Dias (Coord. do curso de Filosofia da Unisal), Profa. Dra Grasiele Augusta Ferreira Nascimento Profa. Roberta Werneck Magalhães dos Santos (Encarregada dos Projetos e Eventos da Unisal).

Mais informações: Prof. Mário José Dias, Coordenador do Curso de Filosofia da UNISAL. Email: curso.filosofia@lo.unisal.br .Tel.: (0xx12-3159.2033)

Programa

08h: Inscrições e entrega do material
08h15: Abertura D. Benedito Beni (Bispo da Diocese de Lorena)

Coordenador dos Trabalhos da manhã: Mário José Dias
08h30: Mesa-Redonda: O personalismo como condição e fundamento da vida
Alino Lorenzon (UERJ) - Pessoa, comunidade e a nossa condição terrestre em instituições justas.
Daniel da Costa (UNISAL): Descartes na formação do pensamento de E. Mounier.
Paulo Cesar da Silva (UNISAL): A ação ética e a realização pessoal e social na obra O Personalismo de Mounier.
10h Intervalo. Lançamento da edição brasileira do livro de Guy COQ – Mounier – O engajamento político pela Editora Ideias & Letras.
10h30 Mesa-Redonda: A educação na perspectiva personalista.
Antônio Joaquim Severino (USP): Recolhimento em si e abertura ao outro: contribuições do personalismo o para a educação da pessoa.
Ricardo Almeida de Paula (UCB): Crise da pessoa e crise da educação: um estudo do personalismo de Emmanuel Mounier.
Jefferson da Silva (UNISAL): A simbólica faz pensar: no pensamento de Paul Ricoeur.
12h Intervalo para almoço
Coordenador dos trabalhos da tarde: Lino Rampazzo
13h30- Mesa Redonda: O personalismo e seus desdobramentos na contemporaneidade.
Carlos Roberto da Silveira (Faculdade Católica de Pouso Alegre): Espiritualidade na saúde: contribuições do personalismo de E. Mounier.
Francisca Eleodora Santos Severino (UNIABC): A condição feminina e a condição materna da mulher.
Március Tadeu Nahur (UNISAL): Ética ecológica e responsabilidade em Jonas e Ricoeur: caminho para uma ação ambiental mobilizadora.
15h Intervalo
15h30 Mesa-RedondaAs Instituições Justas na perspectiva personalista.
José Marcos Miné Vanzella (UNISAL)- A distinção do justo e do bom e a questão das instituições no pensamento de Paul Ricoeur.
Roberto Roque Lauxen (UPF): Instituições justas e instituições injustas nos planos nacional e internacional.
16h30- Encerramento: Impressões finais sobre o encontro (Alino Lorezon, Grasiele Nascimento, Lino Rampazzo e Mário Dias)
______

(1) Doutor em Filosofia pela Universidade de Paris - X
(2) Mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo, professor do Centro Universitário Salesiano de São Paulo.
(3) Doutor em Filosofia pela Universidade Gama Filho, professor do Centro Universitário Salesiano de São Paulo e da Faculdade Canção Nova.
(4) Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
(5) Doutor em Educação pela Universidade Federal de Goiás e professor na Universidade Católica de Brasília. (6) Mestre em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu, professor do centro Universitário Salesiano de São Paulo.
(7) Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo e professora pesquisadora na Universidade do Grande ABC.
(8) Mestre em Biodireito, Ética e Cidadania pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo, onde também atua como professor do curso de Filosofia e Direito.
(9) Doutor em Filosofia pela Universidade Gama Filho, professor do centro Universitário Salesiano de São Paulo e da Faculdade Dehoniana.
(10) Doutor em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e professor da UPF. E-mail: rrlauxen@yahoo.com.br

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Emmanuel Mounier e a experiência da revista "Esprit". A origem da filosofia personalista.

Emmanuel Mounier e a experiência da revista "Esprit". A origem da filosofia personalista.

Paolo Cugini*

Introdução.Numa época de crise como é a nossa, não é fácil encontrar uma referencia cultural que possa nortear o debate e, sobretudo, orientar propostas. Sempre na historia encontramos periódicos momentos de crise que necessitam de um esforço, seja para entender os motivos da mesma crise, seja para apontar soluções. Nessa altura torna-se importante e enriquecedor confrontar-se com experiências culturais que, já no passado, enfrentaram momentos parecidos ao nosso para encontrar respostas plausíveis e, sobretudo, viáveis.
No panorama cultural contemporâneo é difícil encontrar uma revista que exerça uma influencia como aquela que exercitou Esprit na França dos anos trinta do século passado. A revista Esprit
(1) foi ponto referencial por uma inteira geração de intelectuais que, em diferentes maneiras, buscavam solucionar a grande crise na qual tinha entrado o Ocidente. O organizador e protagonista da estruturação de Esprit foi Emanuel Mounier,(2) filosofo francês, "pai" do personalismo filosófico.(3) A filosofia personalista nasceu, cresceu e se desenvolveu nas páginas da revista Esprit. As maiores e mais importantes obras de Emmanuel Mounier são de fato coletâneas de artigos publicados na revista. Este que estamos sinalizando é um dato de extrema importância, porque desvenda o conteúdo da filosofia personalista, que não nasceu nas cátedras universitárias, mas sim, no meio de debates políticos e culturais do tempo. Como veremos ao longo deste artigo, o esforço constante de Mounier foi de salvar o projeto cultural que se estava formando ao redor da revista Esprit, seja das tentativas extremas de monopolizar a revista para que se tornasse instrumento de um partido político de esquerda, seja dos desejos dos colaboradores universitários de fazer de Esprit um laboratório de pesquisa exclusivamente teórica. Desde o começo da sua produção filosófico Mounier coloca ao centro do seu interesse a pessoa no seu dinamismo existencial, aberta, por assim dizer, ao encontro com o Outro e ao relacionamento com os outros. Esta atenção peculiar à pessoa será o centro da reflexão mounieriana (4) e critério para o discernimento nos momentos mais críticos que enfrentou ao longo dos anos da sua breve carreira filosófica.
Acompanhar os passos que deram origem ao laboratório cultural que se formou ao redor da revista Esprit, para melhor entender o personalismo filosófico, é o objetivo deste trabalho.

2. A crise dos anos 30
2.1. A origem da crise.
A Revista não foi somente o fruto de uma decisão amadurecida no jovem filosofo Emmanuel Mounier. Esprit nasceu num momento histórico e no interior de um contexto sóciopolítico e cultural bem determinado. Dele recebeu o material da própria reflexão, nele tornou-se ponto referencial para uma geração inteira de intelectuais em busca de critérios para ler e interpretar o próprio tempo. Os anos '30 foi um período particularmente agitado na história da civilidade Ocidental. Foram, de fato, os anos da crise, da grande depressão que envolveu todo o Ocidente e que afetou todos os níveis do sistema social. A crise, de fato, foi ao mesmo tempo política institucional, econômica e cultural, social e moral. É impossível afirmar com certeza que força histórica tenha tido a maior influência sobre a perturbação, não apenas de uma mentalidade, aquela positivista, mas também sobre a validade objetiva das instituições democráticas. Certamente, a Primeira Guerra Mundial contribuiu de uma forma decisiva a mudar a atitude comum no confronto do destino da sociedade.
Depois de 1918 os mitos que a Revolução Industrial tinha reproduzido e que o pensamento positivista tinha sucessivamente propagado, sofreram um choque muito grande. Progresso, inovação tecnológica, democracia, palavras que até 1914 eram sinônimos de esperança e confiança no futuro agora, na alvorada dos anos '20, torna-se o símbolo do fracasso de toda civilidade Ocidental. A produção cultural deste período, apesar de não ter sido toda atenta a recolher os recados presentes na época em questão, foi extremamente rica de obras que testemunharam este novo jeito de ver a história. Os textos de Spengler,
(5) Ortega (6) e de Benda(7) foram nesta linha. Além disso, apesar das diferentes sensibilidades de pensamento, a reflexão deles encontra-se na afirmação de que o Ocidente acabou o seu caminho: "A civilidade moderna esgotou todas as suas possibilidades, chegou a seus últimos limites e, por isso mesmo, descobriu o próprio limite, as próprias contradições, as próprias insuficiências".(8)

2.2. A Europa entre crise institucional e econômica: O advento dos fascismosA crise do sistema democrático foi sem dúvida o sinal mais claro que o "Declínio do Ocidente" estava se realizando. De fato, em poucos anos as jovens democracias que se tinham formado depois da Primeira Guerra Mundial, foram progressivamente derrotadas pelos regimes de tipo autoritário. Foi o caso da Polônia do Marechal Pilsodsky, da Turquia de Mustafá Kemal, da Grécia do General Metaxas, da Iugoslávia do Rei Alessandro I, da Ditadura Comunista de Bela Kun na Hungria, da Áustria do Monsenhor Seipel e do Chanceler Dollfus.
Não fugiram à mesma experiência autoritária a Espanha com a Ditadura Militar de Primo de Rivera e do Rei Alfonso XIII e o Portugal de Salazar.
Os países da Europa Setentrional e Ocidental, quer dizer as monarquias escandinavas, países baixos, Bélgica, Inglaterra, França também, se em seguida "fugiram ao contágio das ditaduras não foram, porém, prevenidos totalmente contra os seus germes. A tentação os assaltou".
(9)
Tal tentação foi testemunhada pela crescente formação de grupos e movimentos políticos que se inspiravam nos modelos do fascismo e do comunismo, que tentaram em várias circunstâncias derrubar as democracias. A França foi sem dúvida o lugar geopolítico onde esta tensão entre forças institucionais não foi maiormente vivida. É só lembrar a movimentada experiência da Action Française de Maurras que acabou em 1926 com a condenação Pontifícia e, do outro lado, a crescente influência do partido comunista francês que teve o maior respaldo na experiência do Fronte Popular em 1936.
Se nestes Estados "se constatava a incapacidade dos regimes democráticos de enfrentar o problema da governabilidade, na forma nova que derivava da situação política e social pós-bélica",
(10) do outro lado algumas nações iam experimentando alguns modelos políticos e institucionais. A ruptura dos equilíbrios políticos provocados pela Primeira Guerra Mundial limpou o campo da entrada política do fascismo de Mussolini na Itália. A marcha em Roma em outubro de 1923, forçou o Rei Vittorio Emanuele III a entregar para Mussolini o cargo para a formação do governo e a declarar assim o começo da Ditadura Fascista. No mesmo período, na Alemanha atormentada por causa de problemas internos devidos à queda da moeda, e dos problemas de política externa provocados da ocupação da rica zona industrial da Ruhr da parte da França de Poincaré, , Hitler encontrou espaço em novembro de 1923 para tentar, sem sucesso, um Golpe de Estado (Putsch da cervejaria).
Rica de tensões internas era também a situação da União Soviética. O partido Bolchevico, promotor da Revolução de outubro de 1917, se tornou progressivamente o centro e o ponto referencial do Novo Estado. A identificação Partido-Estado se fez sempre mais estreita e assumiu formas novas com a entrada de Stalin no poder em 1926. O objetivo de "construção do socialismo em um só país", amadurecido depois do falimento do internacionalismo proletário, que se fazia porta voz de uma Revolução Socialista mundial, conduziu o Partido Comunista a dirigir todos os esforços para fazer da União Soviética uma nação economicamente auto-suficiente e competitiva. O choque do partido com as massas camponesas, especialmente com os Kulaki, incapazes de entrar nos rígidos esquemas dos planos qüinqüenais, foi imediato e violento. Precisaram muitos esforços, pagos, sobretudo pela população, para que os vários planos econômicos pudessem alcançar os níveis desejados.
Fascismo e Comunismo se tornaram modelo institucional sempre mais atraente, sobretudo, pelo jeito enérgico e forte que, por causa de uma situação de confusão geral, era acolhido por uma massa sempre mais desnorteada e necessitada de pontos referenciais.
O 24 de novembro de 1929, que passou a história como "a 5ª feira preta" a Bolsa de New York não conseguiu vender 70 milhões de ações, provocando a perda de 18 bilhões de dólares. Foi o começo de uma crise que, em pouco tempo, botou de joelho a América e, em poucos anos, arrasou as economias mais fortes do continente europeu, ou seja, da Alemanha, da Inglaterra e da França. As nações golpeadas pela crise econômica tiveram que enfrentar problemas ligados ao desemprego, ao aumento da inflação, derrotadas de bancos, fechamento de indústrias. Os governos, tomados de surpresa, não conseguiam a encontrar medidas capazes de enfrentar, de imediato, uma situação tão catastrófica. Em poucos anos, o equilíbrio econômico internacional estava totalmente desmantelado. Sentimentos de medo e desconfiança perpassaram todos os setores do mundo político e social. O sistema democrático, que já tinha entrado em crise nos anos '20, no começo dos anos '30 recebeu um golpe duríssimo: "Para todos a democracia Parlamentar -- como tinha observado Loubet de Bayle -- tinha se tornado sinônimo de mentira, fraqueza, mediocridade, baixaria".
(11)
Diante do avanço das forças autoritárias e totalitárias, as velhas democracias de Inglaterra e França, não souberam reagir com estratégias políticas adequadas. Ambas, de fato, com razões diferentes, se fizeram promotoras de políticas protecionistas renunciando a intervenções enérgicas contra os sonhos expansionísticos da Alemanha, com medo de desencadear uma Segunda Guerra Mundial. Na Inglaterra tal política encontrava um vasto consentimento, também porque assegurava uma boa capacidade da economia. Pela França, a situação era mais complexa. Encontrava-se entre fogos contrastantes de forças políticas opostas. O mal-estar social devido à estagnação econômica que marcou um declínio da produção de 20% entre 1930 e 1938 manifestou-se no primeiro momento, através dos movimentos de direita e, entre eles, a Action Française e a Croix de Feu. O cume se teve com a manifestação antiparlamentar, que as direitas organizaram no dia 06 de fevereiro 1934 em Paris, mas que fracassou por causa da falta de apoio da opinião pública. Neste clima de desordem política, nasceu a união das esquerdas que se concretizou na experiência do Fronte Popular do 1936. O breve governo do socialista Léon Blum, que promoveu importantes inovações no campo social, foi dilacerado por causa de lutas internas entre comunistas e socialistas. A crise das grandes democracias preparava lentamente o terreno para a Segunda Guerra Mundial.

2.3. Entre "cultura da crise" e exigências de renovamentoA panorâmica sobre os anos '30, apresenta-se com matizes negativos, que influenciarão a produção cultural sucessiva. Na alvorada dos anos '30 nasce uma maneira de fazer cultura mais atenta às problemáticas sociais, "o retorno do espírito à história, uma reflexão dirigida ao concreto e ao social, um pensamento mais objetivo e mais grave".(12) A produção histórica e sociológica de Edmund Husserl,(13) Johan Húzinga,(14) Denis de Reugemont,(15) Georges Bernanos,(16) não baseou a própria atenção sobre a reconstrução genealógica dos males que golpeavam a civilidade.
De fato, a constatação de que o sistema industrial e econômico tinha esgotado a própria possibilidade, não bastava mais. A análise destes autores se aprofundava no relacionamento entre o homem e a natureza. Para eles a indústria e a tecnologia que surgiram como instrumentos a serviço da humanidade, se tornaram ameaça perigosa para o gênero humano. "A técnica -- observa Denis de Reugemont -- torna-se um verdadeiro prejuízo quando o homem pára de considerá-la como um instrumento na sua mão".(17) Se a ideologia comunista tomou sempre mais espaço, foi também porque a situação dos anos '30 parecia confirmar as teses leninianas do fim do sistema capitalista, causado pelos seus mesmos mecanismos de desenvolvimento.
(18) Para os intelectuais dos anos '30, pelo menos aqueles de matriz Católica, a crise abrangia a sociedade não apenas sobre um plano estrutural mas, sobretudo, espiritual. As correntes de pensamento espiritualista (Lavelle, Le Senne), personalista (Mounier, Berdiaeff), neotomista (Maritain), que surgiram neste período, são o claro testemunho da profunda exigência de reencontrar a dignidade humana que estava se perdendo. Impulsionados para um renascimento religioso, animado da Encíclica de Pio XI "Quadragésimo ano" e testemunha da grande vitalidade da Ação Católica, sobretudo na França e na Itália, vários pensadores católicos dirigiram a própria reflexão para o plano político. Nesta linha se colocaram de modo particular, Jacques Maritain e Emmanuel Mounier, que propuseram uma "Nova Cristandade"(19) e o "Personalismo Comunitário".(20)
Nessa mesma época aparecem na França vários movimentos juvenis, como Jeune Droite, Ordre Nouveau, Esprit, junto com o surgimento de numerosas revistas com o compromisso da busca de instrumentos culturais, capazes de enfrentar a crise. Estes grupos, todos animados pela exigência de construir um mundo novo, percebiam a necessidade de romper com o mundo burguês. O compromisso deles começava, assim, com um ato de recusa não apenas no confronto do mundo político, todo envolvido na eterna luta direita-esquerda, com a qual se identificava a vida política, mas também contra o racionalismo, o individualismo e o materialismo, que se alastravam na civilidade Ocidental. Testemunho do sentido de sufoco percebido das jovens gerações no confronto de uma sociedade velha são estas palavras de Paul Nizan:
A brincadeira durou demais, a confiança também e assim a paciência e o respeito. Tudo foi levado embora no escândalo permanente da civilidade em que vivemos, na ruína geral em que os homens estão para mergulhar-se. Uma recusa, uma denúncia serão manifestados em todos os lugares apesar de todas as polícias, tão completos e tão radicais para serem escutados até dos mais surdos.
(21)
Estes movimentos, sobretudo graças a um ensinamento de Charles Péguy,
(22) que pode ser considerado a fonte ideológica do empenho destes jovens intelectuais, tomaram progressivamente consciência de que a revolução, na qual estavam colocando as próprias forças, podia ser eficaz somente se fosse espiritual, capaz assim não apenas de mudar exteriormente a estrutura social, mas também de transformá-la no interior. A busca de uma "Terceira via", capaz de superar os velhos e ineficientes antagonismos ideológicos, os "não-conformistas dos anos '30", como serão apelidados por Loubet de Bayle,(23) aceitarão sem medo os desafios da crise do próprio tempo. É com a firme vontade de derrubar o espírito morno de uma época em crise, que estes jovens e, entre eles, aqueles que entraram no movimento "Esprit", se apresentaram para enfrentar as lutas históricas que alastravam a época.

3. Ás origens de “Esprit”
3.1. Exigência de uma nova revista
O clima de crise e de profunda depressão espiritual que pairava sobre a França dos anos '30, empurrava as novas gerações na busca de instrumentos culturais capazes não apenas de denunciar, mas, sobretudo, de mudar uma situação que estava progressivamente deteriorando. Para muitos, uma revista podia ser o instrumento certo para alcançar os corações de muitas pessoas e tecer um diálogo construtivo e fecundo com elas. Apesar de que na França, naquele período, sem duvida não eram as revistas que faltavam, Mounier não parecia satisfeito com aquilo que o mercado propunha: "Durante as férias de natal de 1929 se cristaliza em mim uma convicção que um ciclo de criação francesa estava fechando, que tinham coisas pra pensar que não se podiam escrever em nenhum outro lugar e que a nós outros, pianistas de 25 anos, faltava um piano".
(24)
Eram, sobretudo, as ambigüidades com o materialismo do mundo burguês, que Mounier não aceitava naquelas revistas como "Europe", "Monde", "La Nouvelle revue Française". Do mesmo parecer eram também outros jovens que, como Mounier, ficavam insatisfeitos da atmosfera de crise que pairava sobre a Europa nos anos '30. Um deles, Georges Izard, que em seguida será um dos fundadores, junto com Mounier da Revista "Esprit", testemunhava assim a própria desilusão no confronto da cultura do tempo:
Em Paris, em 1930, André Delage, Louis Emile Galey e eu temos a crescente impressão de sufocamento. O intelectualismo, a literatura que passa para cima dos problemas, dominam as classes sociais elevadas graça à "Nouvelle Revue Française". Pelo resto nós nos sentimos sufocados entre o materialismo direita, com "Reaction" e a "Revue Française", e da esquerda com "Europe" e "Monde". Nós sentimos a necessidade imperativa de afirmar o primado do espiritual... Nós queremos uma Revolução Espiritual que, no lugar de nos oferecer uma consciência boa para evitar a realidade, pelo contrário, nos comprometa a fundo. . .
(25)
A crise dos anos '30 tinha gerado como lógica reação, diferentes movimentos de protesto. Tratava-se, porém, principalmente de movimentos políticos capazes de agrupar milhares de jovens sedentos de ação, que recebiam em troca só palavras incapazes de resolver o problema na raiz. Também Mounier e seus amigos sentiam-se impelidos para a ação. Consciente, porém, de que na base do desastre cultural tinha uma grave degradação dos valores espirituais e que, para restaurá-los não era suficiente a ação política, buscaram junto um tipo de ação que se colocasse ao nível da tomada de consciência deles.
A exigência de criar uma nova revista, cujo instrumento cultural é capaz de oferecer o alimento espiritual para uma geração confusa, respondia plenamente ao desejo de clareza que estava amadurecendo neles.

3.2. As etapas da primeira elaboração doutrinal"Esprit" não queria ser uma revista como as outras. O objetivo dos fundadores não era de garantir uma segurança econômica. Animados por uma pureza de objetivos, que se protelará ao longo dos anos, Mounier, Izard, Deleage e Galey se empenharam sobretudo na busca de conteúdos espirituais não só advindos da cultura cristã, mas também no confronto constante com outras culturas. Nos dois anos que anteciparam a publicação de "Esprit", os quatro amigos se dedicaram a uma atenta análise da situação contemporânea, sem nunca esquecer de informar a opinião pública dos resultados alcançados.

3.3. A primeira circularNa intenção de começar o mais cedo possível a elaboração das linhas fundamentais de "Esprit", Mounier e Izard se fixaram em um certo número de objetivos preliminares: constituição de um grupo de estudo doutrinal, definição das orientações ideológicos da revista e de suas bases filosóficas. O primeiro fruto desses grupos de estudo, foi a redação de uma circular que, além de ser o primeiro esboço programático do projeto "Esprit", serviu também como bilhete de visita. De fato, nas cartas que Mounier enviou pela campanha publicitária da revista Esprit, sempre colocava também esta primeira circular. Nela era apresentado o nascimento de uma nova revista, nascida como exigência expressiva de um grupo de homens "que se encontravam juntos para uma comum maneira de enfrentar os problemas e uma mesma vontade de franqueza absoluta perante a realidade".(26)
Além de avisar do caráter internacional que se entendia da revista, se manifestava também a amizade e a colaboração de Marcel Arland, Nicolas Berdiaeff, Maurice Baring, Jacques Chevalier, Jacques Copeau, Charles du Bos, Ramon Fernandez, Daniel Halevy, Gabriel Marcel, Jacques Maritain, Louis Massignon, François Mauriac, Eugenio d'Ors, Isabelle Riviere, René Schwob, Jules Supervielle, Pierre Van der Meer de Walcheren. A parte central da circular indicava que, a revista planejada, teria mantida-se livre de qualquer partido social, político e literário e que não tinha nenhuma intenção de ela mesma ditar doutrina.
A Circular concluía assim apontando o campo de ação sobre o qual a revista deveria concentrar os próprios esforços: "Buscar as estruturas de uma cidade à medida de homem, enriquecida na medida da justiça e das exigências presentes: é uma das nossas próximas tarefas".
A circular fez um grande sucesso, apesar de não ter contribuído muito para aumentar o dinheiro no cofre do projeto "Esprit" que, nesta fase, estava precisando muito. Nesta mesma época aconteceu no verão de 1931, a poucos dias da redação da primeira circular, o Congresso de Axe-sur-Vienne, que reuniu por três dias Françoise Arduin, Deleage, Duveau, Galey e Paul Vignaux. A este momento doutrinal, Mounier não estava presente. Encontrava-se, de fato, rodeando a França em busca de seus velhos amigos de estudo, na tentativa de envolvê-los na formação de grupos, que na periferia pudessem sustentar a estruturação da revista.
Os grupos doutrinais com encontros regulares começaram no mês de outubro de 1931. Mounier, Izard, Galey e Deleage encontravam-se às 8: 30 h de cada quarta-feira, dia em que Mounier podia se afastar do trabalho de professor para alcançar os seus amigos em Paris na casa de Izard. Depois da janta aos grupos de amigos se juntavam outras pessoas: Duveau, Etienne Borne, René Millienne, André Ulmann e Jean Lacroix.
Foi nessas noites, entre o fim de novembro e começo de dezembro, que se decidiu o título da revista.

3.4. O "Prospectus"O maior desejo entre os colaboradores de "Esprit", no final de 1931, era de apresentar o mais cedo possível para o público Francês, as linhas fundamentais da revista, que estavam sendo planejadas. Foi nesta época que Mounier ocupou boa parte do seu tempo para elaborar um primeiro projeto de Prospectus, que apareceu pela primeira vez no dia 06 de janeiro de 1932.(27) Neste texto Mounier apontava o desapontamento do grupo no confronto do mundo contemporâneo:
Nós contestamos: uma ciência muitas vezes separada da sabedoria, fechada em preocupações utilitaristas, uma filosofia deplorável, que não tem consciência do seu papel e dos problemas fundamentais que deve enfrentar [...]; das sociedades governadas e que funcionam como empresas comerciais; das economias que subordinam o homem à máquina e trata do trabalho humano sobre o lado do proveito; uma vida privada fechada em si mesma [...]; uma literatura dividida da nossa natureza por causa de complicações e artifícios [...]; a indiferença daqueles que são responsáveis pelo destino do mundo e o
menospreza. (28)
Depois desta crítica radical ao mundo contemporâneo, o "Prospectus" sinalizava as várias direções com as quais "Esprit" queria se comprometer. No plano social, a decisão unânime do grupo era de tomar as distâncias seja do capitalismo o qual "reduz uma massa crescente de pessoas, pela miséria ou pelo bem-estar a um estado de escravidão inconciliável com a dignidade do homem
”; (29) seja do marxismo "filho rebelde do capitalismo do qual recebeu a fé na matéria".
No âmbito da vida pública internacional, o "Prospectus" denunciava a insensibilidade dos estados no confronto dos problemas sociais. Incitava-se também, todos aqueles que se reconheciam nas idéias de "Esprit", para combater "num nacionalismo o orgulho e o egoísmo desencadeados no indivíduo para salvá-los oferecendo um horizonte maior".
(30) No final, se reconhecia também aos artistas, uma tarefa específica no interior do projeto elaborado: "Cabe ao artista aprimorar a visão concreta do homem, primeira etapa de uma libertação de si mesmo que o abrirá para todo o universo".(31)
Na última página, seguia um longo elenco de colaboradores, junto com algumas notas nas quais se precisava que a Direção da revista era assumida por Emmanuel Mounier, enquanto o chefe da redação era George Izard.

3.5. Rumo ao Congresso de FundaçãoEsprit estava se tornando sempre mais um projeto concreto. Entre os mesmos colaboradores percebia-se a sensação de que algo de importante estava pra nascer. Foi por isso mesmo que, momentos de tensões, vieram perturbar o clima de amizade. Sobretudo em dois pontos se concentraram as polêmicas: sobre a possibilidade de um trabalho comum entre crentes e não-crentes no interior do grupo de estudo doutrinal e sobre a oportunidade de lançar do mesmo projeto "Esprit" um movimento político, que transformasse em ação os esforços doutrinais. Estas divergências de opiniões, apesar de ter criado muitas dificuldades e problemas, na realidade ajudaram bastante para focalizar o rumo doutrinal que o grupo queria dar ao projeto.
Crentes e não-crentes: colaboração possível?Segundo Mounier o problema da colaboração entre crentes e não-crentes no interior de "Esprit" era "em suspenso há alguns tempos com Deleage".
(32) A redação do "Prospectus", na qual se falava algo sobre o assunto, alarmou logo Maritain: "Maritain -- apontava Mounier nos seus diários -- acredita que "alguns entre nós [...] " do "Prospectus" no lugar da "maior parte" o algo que significa "um grande número"pode ser um prejuízo, enquanto pode se pensar a um camuflamento".(33)
O problema se acentuou quando no interior do grupo do trabalho doutrinal, começaram a confluir os novos colaboradores que tinham respondido positivamente para os convites de Mounier. Entre um encontro e outro se delinearam devagarzinho três posições: uma de Deleage, aquela de Mounier e aquela de Maritain. Para Deleage ao interno de "Esprit" devia se criar uma plataforma comum sobre a qual fosse possível se entender com a maior parte das pessoas. Para concretizar isso, segundo Deleage, era preciso evitar de enfrentar os problemas que não fossem aceitos pela maioria das pessoas que aderiam à "Esprit". Certamente, tratava-se de uma modalidade de ação atenta a acolher as matizes comuns mais do que buscar choques e soluções novas.
Este jeito eclético de enfrentar o problema, não era do gosto de Mounier. Numa carta ao padre Plaquevent, com o qual entre fevereiro e março de 1932, teve uma importante fecunda troca de opiniões, Mounier esclareceu a própria posição:
Temos radicalmente rejeitado aquilo que chamam o método do menor denominador comum. Este método tem somente a aparência de abertura, enquanto limita e promove tudo através de fronteiras e determinações aonde ninguém reconhece o próprio campo.
(34)
Segundo a opinião de Mounier, isso não queria significar a recusa da colaboração dentro de "Esprit", mas ele percebia o risco que a posição de Deleage podia provocar gerando, sobretudo, confusão ideológica em favor de um ecletismo vazio de conteúdos. O trabalho intelectual que se almejava com "Esprit" visava assumir não apenas posições e rupturas com as ideologias materialistas da época, mas também e sobretudo, fazer-se portador de uma mensagem espiritual própria: isso exigia, do lado dos mesmos colaboradores, uma grande clareza de objetivos. Clareza que, para Mounier, devia passar necessariamente através da recusa do refúgio ideológico de proveniência, tentação muito fácil, principalmente para os católicos.
Nós queremos somente, como nossa regra de disciplina, não dar espaço a este preguiçoso utilizo da revelação, que é sempre colocada como uma ratio ex machina, aonde nos é pedido, pela mesma lei do trabalho, um esforço de reflexão e organização humana.
(35)
Isto não queria significar que os católicos pertencentes ao grupo "Esprit" não podiam expressar a própria fé apesar de que, segundo Mounier, esta mesma, para ser manifestada, não precisava de muitas declarações:
Nos encontramos suspensos entre o céu e terra, em cima da corda que não se dobra do cristão; e o equilíbrio pode ser mantido só no alto. Isto devemos sabê-lo, mas não dizê-lo em cada instante: deveremos advertir intensamente, entre nós, a exigência de guardar esta qualidade interior até as mais miúdas ressonâncias da palavra e do coração.
(36)
Se de um lado, então, Mounier não queria limitar a escolha dos colaboradores para o círculo estreito dos amigos católicos de Maritain, do outro entendia esclarecer desde o começo a própria posição no confronto daqueles que provinham de partidos políticos: "provisoriamente -- escrevia Mounier para Jacques Chevalier -- para não sermos caracterizados como homens comprometidos com partidos intelectuais ou políticos, precisará deixar cair a direita os homens como Massis, a esquerda aquele que, como Le Roy e Laberthonniere, nos alienariam imediatamente uma boa parte do público católico".
(37)
No respeito do próprio credo de origem, Mounier exigia que os colaboradores de "Esprit" fossem capazes de levar em frente com empenho e coragem um confronto fecundo.
Aos olhos de Maritain a posição de Mounier era muito perigosa. O risco, de fato, era de criar dentro da revista um campo neutro, enquanto "Esprit" não queria se tornar algo de neutral. "Somente a vossa força -- escrevia Maritain numa carta dirigida a Mounier em outubro de 1932 -, o dissemos mil vezes é a fé e é o Evangelho. É preciso que isso se enxergue, que isso seja conhecido, que isso possa ser lido".
(38)
Maritain exigia, então, que a direção de "Esprit" se expressasse claramente em nome do catolicismo professado pela maior parte dos seus colaboradores.
Apesar de todos os esforços diplomáticos, as posições de Déléage, Maritain e Mounier não chegaram mais a se conciliar. No final será aquela de Mounier a prevalecer. Por causa disso, os ambientes católicos se mobilizaram logo e não retardaram para intervir.
(39)
“Esprit”: Revista e/ou MovimentoJá nas circunstâncias acima acenadas, as diversidades de personalidades e de vocação dos maiores protagonistas do projeto "Esprit" se manifestavam claramente. O mesmo Mounier no começo de julho de 1932 anotava nos seus diários estas importantes observações:
Duas correntes se dividem já entre nós. De um lado os homens de ação, os advogados, levados a realizar e então impacientes de fórmulas imediatas e surpreendentes [...] pensam sobretudo ao movimento e ao partido. Os outros entre os quais estamos nós, Ulmann e eu mesmo, não estão desinteressados para a ação, mas pensamos e isso com muitos homens de ação... que é possível sufocar uma obra em querê-la precipitar.
(40)
Assim, enquanto Déléage pensava a "Esprit" sobretudo como um movimento, que em pouco tempo deveria se transformar em partido, pelo contrário, Mounier queria que "Esprit" se tornasse exclusivamente uma revista e pensava o movimento como uma realidade para ser colocada no segundo plano. Estas polêmicas aumentavam de teor enquanto o congresso de fundação de "Esprit" se aproximava. Numa carta de abril de 1932 Déléage escrevia para o seu amigo Izard:
Te peço para obter de Mounier que mude o seu título de Diretor de "Esprit" naquele de Delegado a Direção, espero as soluções do congresso. Enquanto a revista mesma desejaria que se chame, como subtítulo, órgão do Partido Internacional do Trabalho, se a criação do partido for decidida, pelo contrário, órgão do movimento espiritualista.
(41)
Déléage estava muito preocupado pelo grande trabalho que Mounier estava conduzindo com sucesso na fundação dos grupos "Amigos de Esprit". Déléage não queria absolutamente que tudo se coagulasse ao redor da pessoa de Mounier. Por isso, visando o congresso de fundação, em abril de 1932 começou a enviar um número impressionante de cartas para Izard onde delineava o seu pensamento. "Mounier busca de ganhar a Direção do Movimento como fez com a Revista. A minha carta era então clara: "A ele, a revista, a Galey a propaganda, a você Izard a Direção das sessões de estudo e a Direção do conjunto".
(42)
Os projetos de Dëleage eram bem claros: render progressivamente independente o movimento da revista, até fazer desta última o mesmo órgão do movimento e do partido que se entendia criar.
Sobre estes mesmos pontos, Mounier encontrava-se exatamente do lado oposto. Numa carta do dia 2 de abril de 1932 Mounier esclarecia para Izard que estava conduzindo uma delicada obra de mediação: "Não quero de jeito a separação do movimento e da revista. Para que ninguém de nós fique desinteressado das realização; o movimento, pra não terminar em agitação, deve ficar em contato e sobre o controle da pesquisa".
(43)
Na convicção que o espírito místico e o homem de ação podiam e, aliás, deviam colaborar juntos pela realização do projeto "Esprit", Mounier se esforçava em ajudar os próprios colaboradores por entender que o problema não era separar a revista do movimento, mas de distinguir as tarefas. Para fazer de modo
que ninguém se afaste do outro... consideramos juntos uma repartição aonde eu teria em mão uma equipe de trabalho, excluindo as questões de organização econômica e social concretas, das quais Izard ao mesmo tempo que a ação política, poderia assumir.
(44)
Diante de um crescimento dos movimentos juvenis declaradamente de esquerda, Mounier se esforçava para que "Esprit" também, como movimento, ficasse de fora. Tarefa específica de "Esprit" deveria ser a produção de uma base doutrinal que os diversos grupos pudessem atingir. Isso podia concretizar-se com a criação no interior da revista de
uma rubrica da nova esquerda, aonde cada um se expressaria, jovens socialistas, jovens radicais, jovens republicanos etc. Todos precisam de uma doutrina e é nossa tarefa fixar essas aspirações sobre o primado do espiritual.
(45)
Esta posição de Mounier fez estourar em Tolousa, onde Déléage tinha fundado um grupo Esprit, uma verdadeira bagunça, que teria se transformado em ruptura se não tivesse alcançado um acordo o mais rápido possível. Foi neste momento de grande tensão, que chegava para Mounier o apoio total de Maritain e de seus amigos. A pouquíssimos dias de distância do congresso de fundação em Font-Romeu, Maritain expressava a própria solidariedade para o seu amigo Mounier:
Eu sou de todo coração com você na vossa defesa de independência da revista. Sou persuadido que as rupturas mais graves valem mais que deixar que "Esprit" se torne o instrumento do movimento político. Seria o mundo virado de cabeça para baixo, é o espírito que se serve de órgãos, em boa filosofia! ... é preciso que você seja fim do começo de uma firmeza absoluta. Por aquilo que entendo falarei de ruptura se a idéia de Tolousa devesse triunfar, e não sou o sol; poderia dizê-lo quando se apresentasse à ocasião se achar que isso possa ser útil.
(46)
O congresso de Font-Romeu, que queria ser uma importante ocasião de confronto sobre a doutrina que se estava elaborando, parecia abrir-se num clima negativo.

3.6. O Congresso de Fundação da Revista "Esprit": Font-RomeuO Congresso de fundação da Revista Esprit aconteceu em Font-Romeu de 15 a 22 de agosto de 1932, numa propriedade dos Daniélou. O primeiro dia abriu-se tranquilamente com uma missa durante a qual a homilia do padre sobre o Espírito Santo provocou Mounier a cochichar com Izard: "Primeira Palestra".
Muito mais conflituosa foi a segunda jornada que se abriu com uma polêmica acirrada entre Mounier e Déléage, sobre o tão delicado tema do relacionamento entre revista e movimento. A proposta de Déléage que queria impor um diretor único quer seja a revista ou o movimento, não encontrou o parecer favorável de Mounier. No fim do dia, depois de uma longa série de discussões entre Déléage e Mounier, com Izard preocupado para mediar a situação que se estava tornando sempre mais tensa, conseguiu-se aceitar o compromisso proposto pelo mesmo Mounier: "Proponho então, um diretor que não tenha nada acima de si, assistido por um conselho de redação e com o direito de veto estendido até aos dois terços dos votos".
(47)
Na realidade, estas disposições tomadas pelo Congresso, devagarzinho irão se modificar. De fato, como justamente anotou Domenach, futuro diretor de "Esprit" nos anos 1956-1976, "o diretor de uma revista não pode depender de um conselho central; devagarzinho Mounier tomará o poder e "Esprit" se identificará como uma revista".(48)
Depois dessas polêmicas seguiram as palestras de Mounier sobre a direção espiritual do movimento, de Izard sobre a questão social de Galey e Duveau sobre a educação e de Déléage sobre a arte. No final, os colaboradores redigiram um documento que seria publicado no primeiro número de "Esprit" com o título: "Crônica do Movimento".
O Manifesto de Font-RomeuA diferença entre a primeira circular e o "Prospectus", é que o manifesto de Font-Romeu não tinha uma finalidade pública, mas interna, pois servia aos mesmos colaboradores para explicar os objetivos sobre os quais queriam trabalhar. O manifesto era constituído de três partes: depois das premissas, na segunda parte se esclarecia a crítica ao capitalismo e ao marxismo e, na última parte, era apresentado um plano programático.
O manifesto programático abria-se com a admissão que o projeto "Esprit" nasceu por causa da grande crise econômica que afetou o Ocidente no final dos anos 20: "Se a desordem não fosse tão profunda poderia ser que o mundo ainda continuaria a ignorá-la".
(49)
A primeira plataforma do acordo compreendia os princípios da liberdade, da dignidade humana e do amor. "O amor exige um desenvolvimento pessoal sem o qual seria um dom sempre mais pobre. Mas este desenvolvimento toma o seu valor somente quando é orientado. É a presença do amor no mundo que lhe oferece a sua direção e as suas hierarquias".
(50)
Na vida privada o primado do espiritual era particularmente advertido. Muitos eram os riscos que, para os colaboradores de "Esprit", a vida privada oferecia para os indivíduos: a família que arriscava continuamente transformar-se em primeiro refúgio do egoísmo social; a pessoa que corria o perigo do individualismo; a amizade que podia se confundir com uma camaradagem.
A parte central do manifesto visava uma dúplice crítica ao capitalismo e ao marxismo. O capitalismo tinha percorrido os últimos anos de sua história, na busca desenfreada dos meios capazes de amparar a queda dramática da crise econômica dos anos Trinta. Em força disso "se jogou na mística de uma produção indefinidamente aumentada... acreditou que a racionalização teria-lhe permitido de se superar sem se renegar... pensou que teria conseguido amarrar os operários através do bem estar".
(51) Todas estas expectativas produziram somente frustração provocando desemprego e miséria. Por isso, os colaboradores de "Esprit" se exprimiam com palavras duríssimas contra o capitalismo não apenas para o desastre material, mas, sobretudo, pela subversão dos valores que esta situação estava produzindo. "O capitalismo pretende se defender em nome da propriedade privada pervertendo-a e confiscando-a . Ela é uma condição da criação livre que o capitalismo fez da propriedade privada uma tentação de egoísmo e de lucro; ela deveria ser partilhada entre todos e o capitalismo concentrou selvagemente os atributos reais nas mãos de poucos privilegiados".(52)
O comunismo, também, não ficou de fora dessa dura crítica, pois não tinha feito outra coisa que transferir "a espoliação de uma classe proprietária para uma classe dirigente".(53)
O manifesto visava, sobretudo golpear um enorme implanto burocrático, que se tinha formado no país da revolução operária e que tinha criado "uma clientela crescente de funcionários improdutivos e irresponsáveis". Segundo os colaboradores de "Esprit" os trabalhadores da União Soviética deviam ainda realizar a revolução.
A visão dramática de um mundo que estava caindo em pedaços, levava os redatores do manifesto a elaborar um plano programático, cujas linhas fundamentais deviam constituir a base para uma nova sociedade do rosto humano.
Aos abusos de ordem privada e social dos quais a economia atual é a causa, se levará remédio somente reprovando todo o mal e todo o bem de que a economia é capaz e perseguindo a felicidade material dos homens visando o desenvolvimento espiritual deles.
(54)
Por isso, a gestão das empresas devia ser dos trabalhadores. Nenhuma classe burocrática autoritária devia atrapalhar esta gestão autônoma. Assim, seria dividida entre todos a dignidade de ser livre ao mesmo tempo que é responsável. De clara influência prudhoniana, que em seguida se fará sentir também sobre os artigos que aparecerão em "Esprit", o manifesto continuava declarando a exigência de derrubar os mecanismos da concorrência em favor da garantia necessária dos direitos privados.
Na sociedade sonhada pelo manifesto, sociedade não exploradora, mas a serviço da pessoa, a tarefa fundamental era apontada na descentralização: "Tudo aquilo que comporta o governo é distribuído aos diversos níveis geográficos aonde se reúnem as coisas e as pessoas".
(55)
Isso devia permitir levar ao conhecimento as necessidades das pessoas pra ajudá-las a fazer parte de um poder não distante da realidade deles. Por esta razão, o espaço vital no qual este projeto podia ser realizado, não era mais a nação, mas a região e o Estado. A região dava possibilidade aos homens de viver no mesmo clima social e de participar aos mesmos costumes, permitindo, então, facilidade no comércio. O Estado correspondia a uma unidade geográfica e uma verdadeira civilidade espiritual. O plano programático concluía na esperança de que uma confederação mundial surgisse para garantir a paz entre os estados, como também garantir uma troca de valores morais.
"Esprit" o movimentoA intenção de fazer de "Esprit" não somente um revista, mas também um movimento, já tinha se manifestado durante a busca dos fundos necessários para a publicação da revista. O objetivo era fazer de "Esprit" um centro de idéias capazes de se espalhar fora da cidade de Paris. Esta primeira tendência se manifestou na formação de grupos de estudo divididos por temas, no interior dos quais colaboravam estudiosos e especialistas da matéria. Entre novembro de 1932 e a primavera de 1934 se constituíram os seguintes grupos de estudos: econômico, artístico, social, o grupo sobre a corporação, sobre o Estado e o Federalismo, sobre os encontros internacionais, o grupo sobre o marxismo, o grupo jurídico e dos filósofos. Apesar do empenho dos participantes, nem sempre as coisas funcionavam do jeito que Mounier queria. A sensação de ser o único a perceber a necessidade de uma ligação estreita entre os colaboradores, Mounier a advertiu em diferentes circunstâncias entre 1933 e 1934, época que viu a dissolução do grupo dos fundadores por causa dos acontecimentos ligados à Troisiéme Force.
(56) Este desfecho levou Mounier a repensar a organização de "Esprit" para recomeçar com novos objetivos.
A mais importante das nossas decisões levou a constituição de grupos redacionais, que asseguram as nossas crônicas uma riqueza de informação e uma unidade de juízo, que não tínhamos ainda alcançado. Uma rubrica literária regular é confiada a Denis de Rougemont, rodeado dos nossos cronistas habituais. Henri Davenson abrirá um processo permanente contra a cultura e dirigirá as pesquisas culturais com uma equipe de especialistas... Um comitê de redação política produzirá por cada número da revista uma crônica política regular.
(57)
Este novo esboço que o grupo redacional elaborou junto com a estruturação dos grupos doutrinais, permitiu um trabalho de fecunda colaboração que desabrochou sobretudo nos "números especiais" destinados a marcar páginas importantes no panorama cultural francês dos anos Trinta.
Sobre o problema do relacionamento entre "Esprit" e Troisiéme Force, Mounier sempre manifestou a própria desconfiança. Convencido como era de que o compromisso de todos aqueles que trabalhavam no projeto "Esprit", devia ser, antes de mais nada, uma busca constante dos meios doutrinais, capazes de levar o primado do espiritual numa época apodrecida das consequências do capitalismo e das falsas doutrinas liberais, Mounier duvidava fortemente da eficácia de uma ação política. "A amizade do movimento -- escrevia Mounier em março de 1933 -- inclinava para uma mentalidade propriamente política, ou seja, muitas vezes buscando o oportunismo e a superficialidade. Se não darmos para eles uma alma, se perderão".
(58)
Na busca de uma revolução espiritual, não era aconselhável se encaminhar batendo velhas trilhas como aquelas que ofereciam atividades políticas cheias de armadilhas e mesquinhez, que podia atrapalhar logo no começo a obra empreendida. De fato, não era difícil cair na tentação de buscar na Troisiéme Force, como em qualquer outro movimento político, o próprio sucesso pessoal. Todas as vezes que Mounier participava de uma reunião deste movimento percebia esta tentação: "A ação é uma terrível devoradora de homens. Aqueles que buscam a vida pública, chegam sempre mais numerosos na Troisiéme Force".
(59)
Muitos acontecimentos, devido sobretudo às ameaças de Maritain e do grupo dele, que não via com um bom olhar a ligação de Esprit com Troisiéme Force, levou Mounier a acelerar os tempos para um esclarecimento no confronto da Troisiéme Force. No número 10 de julho de 1933, Mounier publicava em "Esprit" um "Avertissement", redigido junto à Georges Izard, no qual se declarava a separação entre a revista e o movimento Troisiéme Force. Alma e corpo, espírito e ação, eram os dois rostos de duas obras surgidas dos mesmos princípios espirituais, que agora sentiam a necessidade de uma distinção mais clara das respectivas tarefas.
Desde as origens -- concluía o "Avertissement" -- tínhamos decidido que a revista e o movimento de ação teriam ficado alguns tempos ligados para apoiar-se um ao outro na partida e que Georges Izard, organizador da Troisiéme Force, abandonaria o seu título de redator chefe de "Esprit" no dia em que o seu movimento tivesse uma existência oficial e uma vida suficientemente forte para ser autônoma. Ele faz isto com esta declaração comum.
(60)
Com esta explícita declaração, "Esprit" afirmava a total tomada de distância não apenas da Troisiéme Force, mas também de qualquer movimento político. "Esprit" continuará a desenvolver a própria reflexão na busca dos princípios doutrinais, capazes de levar em frente aquela revolução espiritual tão desejada pelos seus colaboradores. A Troisiéme Force, depois de ter-se ligado à "o fronte comum anti-fascista" de Gaston Bergery, com o qual se unirá no "Frente Social", sobreviverá até 1936.
Os "Amigos de Esprit"Paralelamente ao trabalho da revista, foi levado em frente a criação dos grupos "Esprit", que em pouco tempo conheceram uma rápida difusão não apenas na França -- Bordeaux, Chartres, Digione, Tolousa, Lilla, Tours, Paris, Montpellier -- mas também no exterior -- Bélgica, Canadá, Egito, Espanha, Inglaterra, Holanda, Itália, Suíça, Argentina. O objetivo destes grupos era continuar a desenvolver a reflexão que "Esprit" estava conduzindo. Fazer circular o pensamento "Esprit", não na superfície, mas através de um sentir que envolvesse por dentro as novas gerações: este era o grande objetivo da fundação destes grupos. A constituição dos "Amigos de Esprit" parecia ser para Mounier e os seus colaboradores o justo caminho para ser percorrido. "E depois -- escrevia Mounier ao seu amigo Izard numa carta de 18 de outubro de 1934 -- não acredito mais nos partidos e na política que desenvolvem mas a organizamos minoritários flexíveis".
(61)
Os "Amigos de Esprit" foram constituídos para assegurar uma dúplice colaboração espiritual e material entre a revista, os seus redatores, os seus assinantes, os seus leitores e os seus simpatizantes. Para ser admitido a estes grupos, bastava ser apresentado por dois membros do grupo e claramente aceitos. O trabalho interno dos grupos era estruturado a dois níveis: um espiritual e o outro material. O primeiro, que trabalhava a formação cultural, era levado em frente através da discussão e reflexão de temas escolhidos para os componentes do mesmo grupo. Esse trabalho de estudo era conduzido em estrita colaboração com os grupos doutrinais de "Esprit". Nas reuniões dos "Amigos de Esprit" liam-se os artigos da revista, de modo especial àqueles que falavam do tema escolhido para o grupo, discutia-se e, o resultado da reflexão, era digitado e enviado à redação de Paris. Nascia assim, aquela fecunda colaboração entre "centro" e "periferia" que permitiu aos homens de "Esprit" elaborar uma doutrina não abstrata, mas atenta aos problemas do tempo. Em novembro de 1935 saiu o primeiro número do Jornal Interior dos "Amigos de Esprit", uma folha digitada, pensada e querida pelo mesmo Mounier, que servia para manter em contato diversos grupos sobre as atividades e os programas futuros. O primeiro encontro dos grupos "Amigos de Esprit" aconteceu no dia 29 de outubro de 1935. Muitos dos participantes destes grupos, buscavam uma ação de tipo político. Por isso, entrando no grupo "Amigos de Esprit" o questionamento era sempre o mesmo: "Afinal de contas, o que é que vocês fazem de concreto? ". Foi Mounier mesmo a oferecer as respostas, dizendo que um grupo "Esprit" era sobretudo uma amizade construída por pessoas diferentes que, porém, se encontravam ligadas por um certo clima espiritual. Mounier lembrava também que o grupo tinha por missão, como a revista, de preparar o renascimento interior do Ocidente. O esforço que Mounier pedia aos "Amigos de Esprit", era aquilo de penetrar os novos ambientes para permitir a circulação das idéias de "Esprit". Neste primeiro encontro dos grupos "Amigos de Esprit", Mounier salientou que:
Não precisava muito para constatar que a nossa ação ultrapassava sobre o plano espiritual e cultural o objetivo de qualquer grupo político... os "Amigos de Esprit" devem entender a obra considerável de testemunho, de formação doutrinal e espiritual, de influência pessoal e de educação que ele s devem conduzir fora das ações de massa e de força.
(62)
Mounier era convencido que a grande tarefa dos colaboradores de "Esprit" e dos amigos da revista, consistia em preparar uma filosofia, um espírito, uma doutrina e quadros no interior de todas as elites, entre elas também as elites operárias e camponesas.

3.7. A estrutura da revistaDo Congresso de Font-Romeu até a saída do primeiro número de "Esprit", passaram mais de 40 dias. Em outubro de 1932, Mounier podia finalmente admirar o primeiro número da revista: "Os números da revista, enviados a rue des Saint-Peres, -- escrevia Mounier nos seus diários em 09 de outubro de 1932 -- são bloqueados por causa da semana curta. Os assinantes a receberão antes do Diretor... A senhorita De Larnage (na casa da qual Mounier morava), recebeu Esprit; finalmente estão nas minhas mãos".(63)
Como se apresentava a revista Esprit para o leitor francês? Era um volume que variava das cem às duzentos páginas. Na capa, desenhada por Maximilien Vox, além da escrita Esprit, tinha a lista das rubricas sobre as quais era estruturada a revista. No interior da revista confluíam os artigos dos colaboradores das seguintes rubricas: "Oeuvres", "Confrontations", "Chroniques", "Les événements et les hommes".
Sob o título "Oeuvres" apresentava artigos de uma certa amplitude, das dez às vinte páginas, nos quais eram enfrentados diferentes temas de política, de cultura, assuntos da atualidade. Os artigos das "Oeuvres" enfrentavam todos os mesmos temas em modos diferentes, e eram verdadeiros estudos específicos pelos quais era respeitada a liberdade da pesquisa. Isso significava, que os autores das "Oeuvres" não apresentavam necessariamente a linha ideológica de Esprit. Nestes casos, porém, era sinalizado com uma nota de poucas linhas antes do artigo.
Diferente por impostação era a rubrica "Chroniques", que acolhia os artigos que expressavam claramente a linha doutrinal da revista. Nela confluíam, sobretudo, os artigos daqueles que participavam dos grupos de estudo, organizados da redação de "Esprit", para articular melhor o trabalho doutrinal e pra render mais fecunda, através do confronto dos diferentes grupos de estudo, a análise da situação contemporânea. Eram artigos que tinham, então, um corte personalista e eram utilizados como material de estudo e de pesquisa, para os componentes dos vários grupos "Amigos de Esprit".
Enquanto as duas rubricas supracitadas, propunham para o leitor um tipo de reflexão teórica, "Les évenements et les hommes" se esforçava de criar uma ligação com a vida corriqueira. Mounier não era muito interessado que nesta rubrica aparecessem artigos bem escritos. Desejava, porém, o comentário sobre aquilo que acontecia. Esta rubrica era também dividida em várias rubricas menores: cinema, pintura, poesia, cidade, vida privada, resenhas, etc. as quais, apesar de, dificilmente, serem apresentadas contemporaneamente no mesmo número, constituíam o esforço constante de Esprit para penetrar a cultura contemporânea.
A última rubrica, sem dúvida não por importância, era "Confrontation". No interno dela eram colocadas duas séries de obras: na primeira tinham aqueles que, como impostação espiritual, eram perto de Esprit; na segunda tinham as "longínquas", que, porém "nos reconhecemos para eles alguma ligação espiritual e abrimos uma conversa".
(64)
O esforço de pesquisa doutrinal, ativado nos grupos de estudos entre colaboradores crentes e não-crentes, era proposto nestas páginas para o leitor. Nem sempre estas quatro rubricas principais de Esprit apareceram juntas no mesmo número. De fato, em várias circunstâncias a redação preparava os assim chamados "números especiais" cujo assunto absorvia todas as páginas disponíveis. Serão sobretudo esses números especiais, pela espessura teórica e doutrinal, a fazerem a história de Esprit.

Copyright © 2009 Paolo Cugini

Paolo Cugini.«Emmanuel Mounier e a experiência da revista "Esprit". A origem da filosofia personalista». Dialegesthai. Rivista telematica di filosofia [in linea], anno 11 (2009) [inserito il 20 dicembre 2009], disponibile su World Wide Web: , [72 KB], ISSN 1128-5478.

*Paolo Cugini
Doutor em Filosofia (Bologna- Italia), pároco de
Tapiramutá-BA e professor de filosofia da religião
na FAFS (Faculdade Arquidiocesana de FeiraSantana-BA). E-mai: pacugini@yahoo.com.br

______
Notas1. O primeiro numero da revista "Esprit" foi publicado em primeiro de outubro 1932. O melhor estudo que ainda hoje se encontra sobre a historia e o conteúdo da revista, sobretudo no período da direção de Mounier (1932-1950) è: Michel Winock, Histoire politique de la revue Esprit, Seuil, Paris, 1975 (nova edição atualizada e aumentada, com o seguinte titulo: "Esprit". Des intelellectuels dans la cité, 1930-1950, Seuil, Paris, 1996).
2. Emmanuel Mounier (Grenoble 1905 -- Paris 1950). Poucas obras de Mounier são traduzidas em português e isso dificulta o conhecimento do seu pensamento no Brasil. Os textos mais importantes de Mounier foram publicados em quatro volumes nos anos sessenta (1961-1963) pela editora Seuil de Paris. Aqui em seguida indicamos as obras principais de Mounier e o respectivo ano de publicação: Révolution personnaliste e communnautaire (1935); De la propriété capitaliste à la propriété humaine (1936); Manifeste au service du personnalisme (1936); Personnalisme et christianisme (1939); L'affrontement chrétien (1945); Traité du caractère (1946); Qu'est-ce que le Personnalisme? (1947); Le Personnalisme (1949); Feu la Chrétienté (1950).
3. Cf. E Mounier, O personalismo, Centauro Editora, 2004.
4. Cf. G. Campanini, Incontro com Emmanuel Mounier, Eupress-FTL, Lugano-Varese, 2005; M. Toso -- A. Danese, Emmanuel Mounier. Persona e umanesimo relazionale, LAS, Roma, 2005; J.-F. Petit, Penser avec Mounier: une éthique pour la vie, Chronique Sociale, Lyon, 2000.
5. Cf. Il tramonto dell'Occidente, Longanesi, Milano, 1957, tr. esp. Decadencia de Ocidente, 2 vol., Ed. Espasa alpe, 1999.
6. Cf. La ribellione delle masse (1930), Nuove Ed. Italiane, Roma, 1945, tr. esp. La Rebelión de las masas, Ed. Espasa alpe, 2005.
7. Cf. Il tradimento dei chierici (1927), Gentile, Milano, 1946, tr. Por. A traição dos intelectuais, Ed. Paixoto Neto, 2007.
8. G. Campanini, La filosofia della crisi, in "Giornale di metafisica", luglio-ottobre 1964, p. 483.
9. R. Rémond, Il XX secolo, vol. III, BUR, Milano, 1982, pp. 77-78.
10. G. Campanini, Personalismo e democrazia, Dehoniane, Bologna, 1987, p. 61.
11. J.L. Loubet del Bayle, I non conformisti degli anni trenta, Cinque Lune, Roma, 1972, p. 173.
12. J.L. Loubet Del Bayle, ob. cit., p. 26.
13. LA crisi delle scienze europee e la fenomenologia trascendentale (1954), Il Saggiatore, Milano, 2002.
14. La crisi della civiltà, Torino, 1937.
15. L'aventure occidentale de l'homme, Paris, 1957.
16. Rivoluzione e libertà, Torino, 1963.
17. L'aventure ocidentale de l'homme, cit. pp. 203-206.
18. Cf. Lenin, L'imperialismo(1916), Roma, 1973.
19. Humanisme integral, Aubier, Paris, 1936.
20. Révolution personnaliste et communautaire, Montaigne, Paris, 1935.
21. Nouvelle Revue Française, dezembro 1932, p. 810.
22. Charles Péguy (1873- 1914), poeta e filosofo francês critico da modernidade. Nas obras da maturidade refletiu, sobretudo sobre o mistério da Encarnação. Ao pensamento deste filosofo, Mounier dedicou a sua primeira obra: O pensamento de C. Péguy (1929).
23. Cf. Obra cidada.
24. Carta a Jéromine Martinaggi, 1/4/1941, Ouvres Complets (de agora em diante: O.C.) IV, Ed. Seuil, Paris, 1963, pp. 476-477.
25. G. Izard, "Emmanuel Mounier", in L'Express, 24/3/1960.
26. A "Prémier circulaire sur la revue projetée", apareceu pela primeira vez no dia 8/7/1931. O texto integral se encontra no nº 57 do Bulletin dês Amis d'Emmanuel Mounier (de agora em diante: BAM), Paris, pp. 9-10.
27. O texto integral se encontra em O.C. IVº, pp. 489-491.
28. O.C. IVº, pp. 489-490.
29. Ibidem.
30. Ibidem.
31. Ibidem.
32. Entretiens V, 3/1/1932: O.C. IVº p. 487.
33. Carta do 3/2/1932, em BAM 57 p. 18.
34. Carta do 2/3/1932, BAM 49 p.22.
35. Ivi, p. 23.
36. Carta a George Izard do 19/2/1932, O.C. IVº, p. 489.
37. Carta do 29/4/1931, em J. Petit, J. Maritain --E. Mounier: corrispondenza 1932-1939, Morcelliana, Brescia, 1976, p. 102.
38. Carta de Maritain a Mounier, 25/5/1933, BAM 34-35, p. 51.
39. Sobre este assunto cf. M. Winock, Histoire politique de la revue Esprit, cit., pp. 159-161.
40. Entretiens, 2/7/1932 BAM 57 p. 28.
41. Carta de Déléage para Izard, 28/5/1932, em: Winock, ob. Cit. P. 62.
42. Carta de Déléage para Izard, 7/4/1932, ivi, p.60.
43. BAM 57 p. 21.
44. Ibidem.
45. Entretiens, 10/7/1932, BAM 57, p.29.
46. Carta de Maritain a Mounier, 3/8/1932, BAM 34-35 p. 20.
47. Entretiens V, 16/8/1932, O.C. IVº pp. 499-500.
48. J.M. Domenach, E. Mounier, Seuil, Paris, 1972, p. 56.
49. BAM 57 p. 31.
50. Ivi p. 32.
51. Ivi p. 34.
52. Ivi p. 35.
53. Ivi p. 34.
54. Ivi p. 35.
55. Ibidem.
56. Cf M. Winock, cit. pp. 132-137.
57. "Esprit", nº 49 (fevereiro 1936), "Anné decisive".
58. Entretiens VI, p. 512.
59. Entretiens VII, 31/3/1933, O.C. IVº p.524.
60. O texto se encontra em BAM 36, p. 7.
61. BAM 41, p. 9.
62. BAM 36, p. 16.
63. Entretiens VI, 9/10/1932, O.C. IVº, pp. 504-505.
64. "Esprit", Outubro 1932, pp. 3-4.

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