Emmanuel Mounier (1905-1950) e sua filha Anne

Espaço para difusão da filosofia personalista de Emmanuel Mounier e para ponderações de vários temas importantes, tendo como referência essa perspectiva filosófica.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A revolução Personalista de Jean Lacroix.

A REVOLUÇÃO PERSONALISTA DE JEAN LACROIX

Carlos Gurméndez - El País. 22/07/1986

Algumas semanas atrás, em 27 de junho, morreu um dos grandes pensadores cristãos contemporâneos, Jean Lacroix, cujo nome está intimamente ligado ao núcleo da revista Esprit, uma publicação que exerceu grande influência sobre o pensamento humanista e religioso nas últimas décadas, incluindo o espanhol. A Filosofia de Jean Lacroix, ao mesmo tempo personalista e comunitária, é um dos enclaves de uma convulsão que para o cristianismo renovador atual, assumiu a penetração de uma filosofia social e uma ética marxista nas sociedades ocidentais.Desapareceu uma das grandes figuras do personalismo cristão. Era um homem poderoso, jovial, cheio de vigor e entusiasmo, aberto a todas as ideias, mesmo sendo elas opostas ao cristianismo essencial, como marxismo, a psicanálise, o estruturalismo. Possuia o dom de ouvir os pensamentos dos outros, dizendo que o mesmo era o Outro. Em uma de minhas viagens a Paris ele me apresentou Bergamin. Uma tarde, na redação da revista Esprit fiquei impressionado ao ouvir como Lacroix e Albert Beguin criticavam a política de Pio XII, eles tão fervorosamente católicos.

Cristianismo e o marxismo.

Muitos anos depois, voltei a encontrá-lo no instituto francês de Madrid, onde tivemos uma longa conversa sobre a relação entre cristianismo e marxismo, um de seus temas preferidos, deixando uma entrevista, publicada no El país (04 de novembro de 1977). Este grande pensador Francês nasceu em 23 de dezembro de 1900 em Lyon. Começou sua carreira universitária no ano de 1925, no Liceo de Chalon sur Saône. Leciona em Lons Saumier, Djon, e detem a cátedra de Filosofía no Instituto de Lyon em 15168. Com Emmanuel Mounier funda em1932 a revista Esprit, e desde 1945 até 1980 foi colunista filosófico do Le Monde. Entre suas obras importantes cabe destacar: Marxismo, existencialismo, Personalismo (1949); O sentido do ateísmo moderno (1956); O desejo e os desejos (1975), e Kant e o kantismo (1980).

Qual é a essência de seu pensamento e do personalismo, cristão? Parte de um conceito da pessoa como dádiva, entrega aos outros. Em oposição a Max Scheler, para quem a pessoa transcende a individualidade para uma afirmação hierárquica de valores espirituais do Eu, afirma Jean Lacroix que se é pessoa, pelo simples e natural fato de se abrir, de expor-se aos outros. A experiência real da pessoa pensa que é a do Outro, "meu ser é com", Mitsein o ser para os outros, e só nos fazemos pessoas convivendo com eles. Esta atitude é denominada "revolução personalista", pois cada ser é capaz de desprender-se de si mesmo, fazendo-se disponível aos outros. Para o personalismo cristão os atos de expropriação são a ascese da vida pessoal. Pois, como não é fácil renunciar a si mesmo, é necessário um exercício da vontade, uma práxis que libere o Eu de seus egoísmos, uma desencarnação da individualidade possessiva.

O personalismo continua a mais profunda tradição do cristianismo primitivo evangélico: luta contra o amor próprio, o egocentrismo, o narcisismo. Ao abandonar le moi haissable (eu odiava-o) se situa no ponto de vista do Outro, que não significa abdicação da realidade do Eu. Lacroix, em sua obra O sentido do realismo, explica que esta abertura total não implica deixar de ser, d'être moi (ser eu), pois existe uma forma de compreender tudo o que equivale a não amar a nada, não ser nada, dissolver-se no outro e não querer sua compreensão. Lacroix insiste em que a doação de si, em que radica a essência da pessoa, não significa suicídio nem generosidade gratuita. Este dom, de si mesmo constitui uma reafirmação da existência pessoal. "O homem se torna em Eu, através do Tu", sentencia de Martin Buber, o filósofo judeu germânico, que poderia servir de divisa ao personalismo cristão.

Segundo Lacroix, o Tu e o Nós precedem ao Eu, ou ao menos os acompanham. A revolução personalista é, a uma vez, comunitária, pois somente podemos nos realizar como pessoas no seio de uma comunicação real permanente e livre, ou seja, sem coerções opressivas exteriores, mas também sem egoísmos possessivos individualistas. Não é estranho que a filosofia de Jean Lacroix e de Enmanuel Mounier culmine em uma teoria do Amor.

Ser e amar.

Em oposição a Heidegger e Sartre, que pensam que a existência em comum, o Mitsein, se frustra pela luta infernal dos indivíduos que aspiram a controlar-se: reciprocamente. Lacroix afirma a realidade do Amor, devido a que o Eu só pode existir na medida em que existe para Outro. Ser é, pois, amar. Assim de radical e simples é esta filosofia do Amor. No entanto, o amor por si mesmo não cria identificação, e os amantes podem ignorar-se, arrebatados por sua paixão ofuscante. Também a simpatia descobre afinidades que se julga amor espontâneo. Pelo contrário, para o personalismo não é possível um amor sem conhecimento, ou seja, sem a consciência da presença de outra pessoa diferente. "O amor é cego", disse Lacroix, "porém é um cego perfeitamente lúcido".

O personalismo cristão, ao combater o individualismo e centrar sua filosofia em uma unidade comunitária, se aproxima do marxismo. Lacroix considera que os Manuscritos econômico-filosoficos de Marx é uma obra assombrosa em que se esboça uma teoria do Amor baseada na reciprocidade das consciências, e que significa a apertura entre todos os homens. Mas, como cristão, não crê que esta utopia possa se realizar na Terra. Porém disse: "O pensamento de Marx é muito rico e coerente para sofrer deformações cristianizastes. O ateísmo é uma das bases de toda sua filosofia. O cristianismo comunista é o fruto de uma confusão ou de uma mascarada". Porém, cristãos e comunistas podem ser bons e leais companheiros de viajem, ainda que Bergamin pontuasse: "Estou com os comunistas até a morte, porém, nem um passo mais".

Jean Lacroix manteve íntima relação com a revista espanhola Cruz y Raya, tanto afim com a Esprit, e com seu diretor, José Bergamín, de quem costumava recordar em suas conferencias uma citação que considerava ser a essência do personalismo: "A solidão do artista não é a de uma ilha, mas a de ria", e ao que acrescentou: "la mer toujours recommencé" (J. Paul Valery), ( o mar sempre recomeça). Para o recém falecido filósofo francês, José Bergamín e Joaquim Xirau são pensadores mui intimamente ligados ao personalismo cristão, influenciados ambos pela mística espanhola, sobre todo a de São João da Cruz.

Tradução de Lailson Castanha

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Fonte: El País. Quarta - feira 15/6/2011
Perfil: EN LA MUERTE DE UN FILÓSOFO CRISTIANO (Na morte de um filósofo cristão). http://www.elpais.com/articulo/cultura/FRANCIA/revolucion/personalista/Jean/Lacroix/elpepicul/19860722elpepicul_1/Tes
Imagem: Jean Lacroix.

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quinta-feira, 31 de março de 2011

O mistério entre nós.

O MISTÉRIO ENTRE NÓS

Aceitação sem objetivação.

Lendo sobre a odisséia do pensamento filosófico, logo em seus primeiros movimentos, deparamo-nos, através da leitura, com a razão filosófica definindo e sistematizando as coisas -, tanto as palpáveis, como as ainda inacessíveis. Pesquisando livros de história da filosofia – através de alguns pesquisadores, somos informados que a prática filosófica através de sua ação reflexiva e questionadora enfraqueceu, ou mesmo, invalidou tradições que não adotavam ou adotaram o pensamento reflexivo como parâmetro. Essa maneira de narrar à história esforça-se por indicar que a razão venceu a tradição, e, continua a nos sugerir que somente a razão valida qualquer pensamento, posicionamento ou crença.

Influenciados pela cultura racionalista que a atitude filosófica engendrou no Ocidente, tornamo-nos seres de definição. Somos definidores. Gostamos de sistematizar nossas idéias. Ficamos inquietos quando não temos uma posição definida sobre alguma coisa ou alguma idéia. Definimo-nos, definimos as coisas que nos cercam e também as coisas que não conhecemos. Definimos, por exemplo, Deus – que por sua constituição é inacessível ao ser mortal.

Envolvidos pela tradição racionalista/definidora não admitimos a possibilidade de não dominarmos a totalidade do real. Com essa idéia em mente, arrogamo-nos conhecedores da existência e capacitados a desvendar as coisas ainda não conhecidas. Cremos, entre outras coisas, entender a nossa situação existencial e a do nosso próximo. Acreditamos que tudo pode ser assimilado, inclusive as formas que se nos mostram inacessíveis. Neste movimento de racionalização, Deus passou a ser explicado e definido, como se fossemos capazes de entender claramente e de interpretar suas ações e desígnios. Passamos também a explicar o outro – como se o não-eu fosse um objeto em que pudéssemos estudar e investigar empiricamente, e com isso, explicá-lo.

Na ousada tentativa de definir o outro, terminamos por objetivá-lo. Interpretamos suas ações e movimentos com a mesma simplicidade que definimos os movimentos de uma máquina – definição concretizada por consequência de minuciosas observações empíricas.

Por mais que seja importante o uso de nossa razão, de nossos juízos visando o entendimento das coisas que fazem parte ou que se apresentam em nossa existência -, não podemos ignorar o fato de que nem tudo esta enquadrado na categoria das coisas claramente acessíveis a nossa percepção objetiva. Nem tudo pode ser totalmente avaliado, tocado ou desvendado pela nossa razão objetiva. Na medida em que percebemos que nem tudo pode ser alcançado pelo esforço intelectual, compreenderemos, por conseguinte, que não podemos ignorar, desprezar, nem subestimar o mistério.

Sobre o mistério, Emmanuel Mounier (1905-1950), filósofo francês, tece alguns comentários:

"O mistério é o problema em que me acho comprometido, em que estou em questão, eu em minha totalidade e em meu ser, tanto quanto a minha questão.

A sua essência é a de não de ao estar inteiramente perante mim. Todo o problema contém um mistério na medida em que é susceptível de um ecoar ontológico. Um mistério é um problema que tropeça nos seus próprios dados, que os invade, e ultrapassa por isso mesmo o simples problema. Longe de se dissolver nesse mergulho, atinge, pelo contrário, uma força de ricochete e impregna-se de uma luz interior que suscita até ao infinito novos problemas, alimentando uma atividade que decuplica a razão problemática." (1)

Seguindo o pensamento de Mounier, afirmamos que existem coisas que por sua peculiar condição, não se nos dão através do simples esforço racional. Existem coisas envolvidas de mistério, que por sua condição de “misteriosa” jamais poderão ser desvendadas, e, muito menos, definida de maneira objetiva. Dentre essas “coisas” – não palpáveis pelo mero esforço intelectual está Deus em sua inexaurível Glória e a pessoa humana em sua totalidade, que em sua vária constituição, também não pode ser alcançada simplesmente pelo esforço racional. Tanto Deus, como a pessoa humana estão envolvidas no mistério. Lembrado da definição do Mistério de Mounier, podemos nos apropriar dela para definirmos com qualidade o mistério:

Um mistério é um problema que tropeça nos seus próprios dados, que os invade, e ultrapassa por isso mesmo o simples problema. Longe de se dissolver nesse mergulho, atinge, pelo contrário, uma força de ricochete e impregna-se de uma luz interior que suscita até ao infinito novos problemas, alimentando uma atividade que decuplica a razão problemática. (Emmanuel Mounier).

Se valendo dos traços interpretativos de Mounier, podemos entender que tanto o mistério Deus, como a pessoa humana, ao modo da ação de um ricochete – toca-nos, se apresenta, porém, logo se afasta. Tendo essas características tão distintas -, logo, apesar de imanentes, são também transcendentes. Essa peculiar situação de estar e não estar, de ser conhecido e não ser totalmente percebido, impede qualquer homem ou mulher se arrogar conhecedor tanto de Deus em sua totalidade quanto da “pessoa humana” em sua multiplicidade. Se alguém ousa definir Deus ou a pessoa crendo ser óbvia sua definição, ainda não compreendeu nem Deus, nem a pessoa humana. Não entendeu ou não percebeu que essas formas estão envoltas em mistério, e, portanto, são indefiníveis.

Em uma das fontes literárias da antiguidade, que procuram explorar sobre o início da natureza humana – a literatura hebraica – o homem é apresentado com muita dignidade: “a imagem e semelhança de Deus”. O interessante dessa passagem bíblica é que ela cria, em quem entra em contato com sua mensagem, profundas e inquietantes indagações, a saber:

. O que é ser “a imagem e semelhança de Deus”?

. Como é a imagem de Deus?

. Em que sentido o homem é semelhança de Deus?

Ainda não foram encontradas respostas claras e objetivas para essas questões. Nas variadas tentativas de respostas, o que encontramos são divagações e conjecturas. Nenhuma idéia clara e muito menos indubitável foi dita para se firmar como resposta definitiva.

Se nos apropriarmos da ideia de ser Deus um ser inacessível ao olhar objetivante, talvez, pelo menos poderemos compreender um aspecto do espírito do texto, a saber: um ser a imagem e semelhança de Deus – como Deus não pode ser conhecido com o olhar objetivante. Erramos quando tratamos como óbvias as descrições direcionadas a Deus.

Erramos também, quando, como produto de esforços intelectuais ou pesquisas empíricas, acreditamos compreendemos efetivamente a pessoa humana. É importante ressaltarmos que, acreditar que se compreendeu, não é o mesmo que compreender efetivamente.

Como Protágoras tendemos a acreditar que "O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são". Levando a sério a ideia de que unicamente o homem é aquele que dá sentido as coisas, não só somos levados a significá-las, como também a objetivá-las. Em outras palavras podemos dizer que o homem é que dá sentido a todos as coisas, as significa a sua própria mercê. O homem dá significação às coisas intencionalmente, para usá-las como o convém. Assim, deus foi usado para legitimar ditaduras, os mais variados abusos, intolerância, desrespeito e desumanização. Assim boa parte dos seres humanos são usados, como objetos, como meio para que alguns alcancem conforto. Assim, por exemplo, percebemos seres humanos sendo tratados nas empresas apenas como “trabalhadores”, nas diversas mídias como “consumidores”, nas políticas nacionais e internacionais como mercado. Percebe-se que o ser humano é sempre tratado como um meio, sua pessoalidade, e como tal, suas características, necessidades, peculiaridades, anseios não são levadas em consideração. Nossa sociedade pragmatista escolheu tratar o ser humano não como um fim em si mesmo, mas como um meio para o alcance de fins.

O mesmo se dá com o "deus" da sociedade pragmatista. Ele está sendo usado e tratado quase que apenas, como uma possibilidade de pessoas alcançarem os seus desejos. Ou seja, um meio para o alcance de fins.



Nossa postura deve ser mudada. Apesar da importância da razão e da intelectualidade que tanto conforto ofereceu a atual sociedade, devemos diferenciar o nosso tratamento entre coisas e coisas. Se não existe nenhum problema moral em tratar a matéria com um meio para finalidades especificas, o mesmo não pode ser dito em relação a Deus e a pessoa humana. Com as coisas envolvidas de mistério, devemos considerar seu apelo a não objetivação.

Não podemos tratar Deus e nem a pessoa humana, caracterizando-os da mesma forma que fazemos com uma máquina quando a estudamos. Diferentemente da máquina que por sua característica objetiva, tem suas funções definidas, Deus ou mesmo o ser humano transcendem a nossa capacidade investigativa, pelo fato de não se caracterizarem como objetos, e por que, estando envolvidas de mistérios, não podemos e não devemos tentar possuí-los.

Pode-se acolher o mistério, porém não se pode possuí-lo. Pode-se até mesmo investigar o mistério, mas, jamais conseguiremos defini-lo positivamente.

As ciências que tratam o ser humano como um ser de respostas mecânicas aos estímulos externos ignoram o fato de que nem toda resposta exteriorizada – é de fato resposta verdadeira. Nem sempre, em todas as respostas, há a real intencionalidade daquele que responde. Muitos teóricos ignoram, por exemplo, que umas das armas que o ser humano usa para fugir da objetivação é a simulação e dissimulação. O ser humano pode simular acolhedor de uma influencia pare ser livrar das investigações daquele que o estuda, ou mesmo, da pressão da sociedade que tenta influenciá-lo. Conhecer as respostas a estímulos, não se trata de perceber as motivações últimas das pessoas. Mesmo sendo verdade que o outro influencia, é também verdade que nem sempre a influencia que recebemos do outro é recebida exatamente igual a ação que intentamos aderir. Nossa pessoalidade transforma qualquer adesão. Por exemplo, podemos ser influenciados a crer no Cristo, sem com isso percebermos o Cristo da mesma maneira daquele que nos influenciou. No Antigo Israel, Deus era apresentado de acordo com as circunstâncias. Por isso, às vezes, equivocadamente temos a impressão de que as Escrituras apresentam deuses diferentes, o Deus do Velho Testamento e o Deus do Novo Testamento. No caso, em cada ocasião, em cada momento, Deus apresenta apenas aspectos de seu ser, não a sua totalidade. Devemos perceber que se manifestar não significa desvelar-se. O mesmo se dá com o ser humano. Responder a um estímulo não significa se abrir para a pesquisa positiva e muito menos para a compreensão do outro que investiga.

Respeitar o mistério que envolve a pessoa é respeitá-la como pessoa. Quando estivermos dispostos a nos desfazermos de nossa tendência objetivista e buscar compreender Deus e a pessoa humana através do acolhimento e da aproximação humilde, teremos muito mais chances de compreender-los, em muitos aspectos – e com isso avançar no entendimento das questões que as envolvem.

Se não é através da razão objetiva que as conheceremos, talvez seja através do amor -, que se aproxima sem querer dominar -, que encontraremos abertura que nos permita perscrutar ou ao menos nos aproximar do grande mistério que os envolvem – não com o fim de objetivamente defini-los, mas, apenas com a intenção de melhor os compreender, para que dessa forma, possamos nos relacionar com eles de maneira mais adequada.

Lailson Castanha

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(1) MOUNIER, Emmanuel. Introdução aos existencialismos. Tradução de João Benard da Costa. São Paulo: Livraria Duas cidades, 1963, p.39.

Gravura: Pandora (1896) - Waterhouse, John William (1849-1917).

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domingo, 27 de março de 2011

Primeiro site brasileiro especializado em Filosofia Personalista.

Finalmente podemos comemorar abertura do site http://filosofiapersonalista.com.br/ - o primeiro site brasileiro especializado em Filosofia Personalista.

Fruto do esforço do Prof. Ms. Daniel da Costa, juntamente com outros filósofos que se esforçaram e se esforçam em divulgar e manter viva a herança do filósofo francês Emmanuel Mounier, com publicações de obras de cunho personalistas, defendendo teses, promovendo palestras, seminários e encontros como e, por exemplo, o relevante I ENCONTRO MOUNIER, TESTEMUNHA DE SEU TEMPO - na USP, ocorrido no dia 20 de maio de 2010.

Esse site foi desenvolvido com a finalidade de ser um canal de aproximação, diálogo e informações para pensadores personalistas do Brasil e para aqueles que desejam participar do esforço de tornar a nossa civilização mais propicia à vivência da “pessoa humana”.

Lailson Castanha

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terça-feira, 22 de março de 2011

Crise de inversão dos valores.

CRISE DE INVERSÃO DOS VALORES.
Ana Cláudia Araujo

No desenrolar da história, a civilização humana testemunhou e tem testemunhado várias transformações, transformações essas que remodelaram a sua forma de ser, sua estrutura, e, por conseguinte, a maneira de ser de seus partícipes. Ao longo dos anos, a vivência social e os modelos estabelecidos tem sido transitórios. A civilização, em sua história, tem se caracterizado como reino do efêmero, vivendo historicamente processos de continuidade e descontinuidade.
.No último século um fenômeno social se intensificou sendo percebido com muita clareza. O fenômeno no qual nos referimos é o problema da inversão de valores; problema esse que se fortaleceu ainda mais no atual século, tornando a sua visibilidade, e o problema por ele suscitado, ainda mais nítido..
Que seria então essa inversão de valores? Quais os agravos que ela engendra?
Se socialmente para o bem da ordem social, estabeleceu-se parâmetros para a promoção e estabilização da mesma, com o advento da inversão de valores, estruturas formatadas para a efetivação da harmonia social se rompem, gerando um caos social. Uma dessas estruturas basilares abaladas com esse novo fenômeno, por exemplo, é a família.
.É cada vez mais raro encontrar em nosso meio cônjuges que verdadeiramente amem seus parceiros, filhos que respeitem seus pais, amizades embasadas em respeito, confiança e fraternidade, entre tantos outros exemplos. Se apegando a estes três exemplos citados, perceberemos nitidamente que a fonte de tal deformidade encontra-se na ausência de parâmetros. O ser humano ao destruir os parâmetros, estabelece um vazio moral, dando espaço para todo tipo de deformações sociais, fazendo que até mesmo o amor, outrora tão exaltado, passe a categoria de “corpo estranho”.
.O amor em nossa sociedade vem perdendo espaço para o individualismo egocêntrico. As relações pessoais atuais têm por base o lucro e a vantagem, assim sendo, se uma pessoa não tem o que oferecer de lucrativo, essa não é considerada interessante para uma relação. O fenômeno é percebido quase que em caráter geral. Facilmente percebe-se essa realidade na política onde tudo é movido pelo capital, na família onde a valorização maior e o destaque são dados ao mais próspero, na religião, a qual engolida pelas nomenclaturas denominacionais, coloca a instituição em primeiro plano, em detrimento ao necessitado.
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Percebe-se o vigor da crise de inversão de valores, principalmente no âmbito familiar e religioso, pelo simples fato de a família e a religião em uma sociedade, naturalmente serem as bases da resistência do amor. Se, no que seria a base do amor na ambiência social, a primazia do lucro passa a gerenciar suas motivações, logo a sociedade perde o mais importante foco de resistência contra a degradação dos valores, dando livre acesso para a reafirmação desse novo modelo social.
.Diante deste quadro, faz-se necessário uma tomada de atitude, orientada por uma também atitude reflexiva, com o fim de encontrar meios para reverter a situação direcionando a sociedade para uma vivência mais humana, onde as pessoas possam ser percebidas pelo que são levando-se em conta a totalidade de seu ser real.
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"É preciso de início testemunhar nossa ruptura com a desordem estabelecida. Já é alguma coisa tomar consciência da desordem. Mas a tomada de consciência que não leva a tomada de posição, a uma transformação de vida e não apenas de maneira de pensar, será apenas uma nova traição do espiritualismo, na linha de todas as traições passadas. É preciso pois, definir uma primeira série de desordarizações e de engajamentos, a que chamamos ação de testemunho e ruptura. Esta ação implica em primeiro lugar na denúncia e na condenação pública, por todos os meios ao nosso alcance, da desordem combatida".(Emmanuel Mounier) (1).
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Ana Cláudia de Araujo.
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(1) DOMENACH, Jean Marie – LACROIX, Jean – GUISSARD, Lucien – CHAIGNE, Hervé – COUSSO, R – TAP, Pierre – NGANGO, Georges – PELISSIER, Lucien. Presença de Mounier. São Paulo: Duas Cidades, 1969.
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Desordem Estabelecida e a Ordem Imposta.

DESORDEM ESTABELECIDA E A ORDEM IMPOSTA

O filósofo francês Emmanuel Mounier se apropriou de um termo,  posteriormente muito usado, que define as diversas desordenações promovidas por instituições que arregimentam, ou que fazem parte da sociedade humana. O referido termo empregado pelo filósofo é “desordem estabelecida”. Lutar contra a Desordem Estabelecida foi a grande meta de Mounier, como o é daqueles que foram inspirados pela filosofia que o francês de Grenoble ajudou a desenvolver na França, sendo seu principal idealizador: a Filosofia Personalista.

Se observássemos ponderativamente o sistema político e econômico que nos orienta, investigando o alcance de sua orientação, se o tal sistema leva a sociedade e cada ser humano a vivência de uma ambiência ordeira ou desordenada, a que conclusão será que chegaríamos? Nossa sociedade é uma sociedade em desordem, ou nela reina a mais absoluta ordem? Ou vive harmoniosamente entre a ordem e a desordem?

Questões desse gênero não devem ser concluídas, sem que antes se faça uma análise exaustiva e aprofundada. Essa análise, apesar de exigir um pouco de esforço, não é tarefa das mais complicadas. Basta olhar em torno de nós - cada família que se nos avizinha, instituições que conduzem nossa ambiência, ideias que influenciam nossa sociedade, e a própria sociedade – que chegaremos a uma conclusão bem fundamentada. Basta investigar se em nossa sociedade, com cada instrumento que a rege, cada órgão que a compõe, cada elemento que exerce sobre ela um papel determinante, é predominante a manifestação de uma cultura favorável ao exercício pleno das pessoas que a compõe, sabendo que não podemos considerar a pessoa sem levar em consideração sua vocação espiritual/existencial. Diante disso podemos levantar uma série de questões, que trabalhadas, tornará nosso juízo mais lúcido, a saber:
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. Vê-se em nossa sociedade, com as suas diversas instituições, pessoas exercendo seus dons, sua vocação? Em outras palavras, as instituições integrantes de nossa sociedade, favorecem o exercício vocacional das pessoas que a compõe?
. As pessoas que exercem atividades em nossa sociedade, da alta direção, àquela considerada menor das atividades, atuam como exercício de sua aptidão ou vocação existencial, ou são enquadradas para executar tarefas, sem ter nenhum vínculo afetivo/vocacional com o exercício a que são levadas a desempenhar?
. As tarefas consideradas mais simples são valorizadas como tarefas fundamentais para o bom andamento social, ou são desqualificadas, levando ao prejuízo aquele que a executa?
. As pessoas são tratadas como pessoas, ou são distinguidas pelo título que carregam ou pelos bens que ostentam?


A desordem estabelecida é a legalização da incoerência e da desorganização em qualquer instituição, sendo ela Estatal ou privada. É o sistema que institucionaliza práticas e meios que agridem a sociedade, ou cada pessoa, caotizando as vivências pessoais. Portanto, quando percebemos a miséria convivendo ao lado fartura extremada, estamos a observar aspectos da desordem estabelecida, isto é, um sistema político ou institucional que legitima a má distribuição de renda e o privilégio de poucos contrariamente aos interesses e necessidade da maioria.

Não é apenas no âmbito socioeconômico que a desordem estabelecida é percebida. O uso da força, que tem por finalidade abafar a necessidade de liberdade, que possibilita a vivência da pessoa humana, libertando-a da sujeição que caracteriza o sujeito, homem sem vontades e opinião, configura-se como instrumento legal da desordem estabelecida. João Bènard da Costa, em nome do grupo personalista português que se expressava através da Revista “O Tempo e o Modo” inspirado na Revista Esprit, falando sobre a história do movimento, e de sua luta contra a desordem estabelecida, escreveu:

"A história de O Tempo e o Modo pode contar-se de duas maneiras: uma, mais comezinha, dirá que, em 1958, António Alçada Baptista, um pouco mais velho do que o restante grupo fundador, encontrou um grupo de católicos que, nesses anos, concluíam os estudos universitários e participavam na Acção Católica em lugares de destaque na hierarquia dela. Todos tinham sido membros da JUC e todos tinham feito o jornal desta, o Encontro. Daí, que tenham ficado com o bicho do jornalismo e que tenham começado a sonhar com um órgão de expressão que vinculasse a ruptura que eles próprios assumiam, desde 1958, com aquilo que Emmanuel Mounier chamava “a desordem estabelecida” e que, no caso português, tomou a forma do regime salazarista. Desde 1958, faziam parte de uma incipiente oposição católica que, nalguns momentos mais agudos, se manifestava em documentos colectivos que não reuniam mais do que 45 nomes, 45 pessoas que ousavam dar o nome para lutar contra o regime e pagaram por isso.
(...) Éramos seis: António Alçada Baptista, Nuno de Bragança, Alberto Vaz da Silva, Pedro Tamen, Mário Murteira e eu. Tínhamos todos acabado a Universidade, como já disse, e tínhamos como modelo a revista Esprit, fundada em França em 1932 por Emmanuel Mounier. Como tínhamos por referência o personalismo cristão do mesmo Mounier. O primado da pessoa humana e da eminente dignidade desta, o diálogo, a luta contra a desordem estabelecida, a recusa de perspectivas confessionalistas, certos de que só no diálogo com não-crentes podíamos lançar as bases do que o próprio Mounier chamou “a esperança dos desesperados”.
“(...) O Tempo e o Modo” representou essa luta contra a desordem estabelecida, a instigação ao estabelecimento duma democracia ou à luta por ela, um diálogo novo. Sobretudo um estilo novo, uma maneira de escrever, de pensar e de dizer coisas que entravam em choque com muitos dos valores estabelecidos."(1)

No texto em destaque, João Bénard da Costa salienta que o grupo envolvido com a revista O Tempo e o Modo aderiu a luta contra a desordem estabelecida, que em Portugal se configurou como regime salazarista, um regime antidemocrático, que como tal, um regime que fazia da força sua principal característica, a fim de impor em Portugal, o estabelecimento de uma sociedade impessoal e submissa.

Porém, Mounier, quando aborda a vivência social ou institucional, não reprova apenas a desordem estabelecida, reprova também o que trata com ordem imposta, outro termo que em Mounier ganha uma forte e distinta significação. Comentando sobre o estabelecimento do fascismo, Mounier aborda sobre a Ordem Imposta expondo a seguinte asserção:

"Assim, de um lado como do outro, vemos a independência e a iniciativa da pessoa, ou negadas, ou constrangidas nas exigências de uma coletividade, ela própria ao serviço de um regime. Os facistas, não obstante, não saem de modo algum do plano individualista. Eles nasceram em democracias esgotadas, cujo proletariado, aliás, se encontrava muito pouco personalizado. Eles são a febre e o delírio resultante desse estado de coisas. Uma massa de homens desprotegidos, e sobretudo desamparados de si próprios, chegaram a esse ponto de desorientação em que só lhes restava um único desejo: A vontade, frenética à força de esgotamento, de se desembaraçarem da sua vontade, das suas responsabilidades, da sua consciência, depondo-a nas mãos de um Salvador que julgará em lugar deles, deliberará em lugar deles, agirá em lugar deles. Nem todos são, certamente, instrumentos passivos desse delírio, que, chicoteando o país, despertou energias, suscitou iniciativas, elevou o tom dos corações e a qualidade dos atos. Mas isso é apenas uma efervescência de vida. As opções derradeiras, as únicas que forjam o homem na liberadade, permanecem à mercê da coletividade. A pessoa é espoliada: já o era na desordem, é-o agora, por uma ordem imposta. Mudou-se de estilo, não de plano."(2)

Por ordem imposta, Emmanuel Mounier identifica todo, ou qualquer sistema social, em que são negadas as exigências da pessoa, sua autonomia e independência, em favor de demandas coletivas ou em prol da efetivação de um regime estabelecido por forças absolutistas, seja ele político, econômico ou religioso. Todo regime que se impõe, suprimindo a participação autônoma da pessoa, se caracteriza como uma ordem imposta. Se formos mais rigorosos na descrição do regime destacado por João Bénard da Costa -, o regime salazarista -, podemos, também, caracterizá-lo, se apropriando dos termos mounierianos, além de uma desordem estabelecida, como uma ordem imposta.

Portanto, qualquer pessoa que abafa suas dúvidas para não se chocar com um dogma, está a se submeter a uma ordem imposta. Qualquer homem ou mulher que prefere ignorar injustiças praticadas contra sua pessoa, ou contra outras pessoas, por qualquer instituição, seja ela estatal ou privada, quaisquer que sejam os motivos, está submetendo-se a instituição de uma Ordem Imposta.

Assim como a desordem estabelecida, a ordem imposta violenta a pessoa, pelo fato de ir contra a sua autonomia e sua vivência efetiva. Toda constituição Nacional, inter-nacional ou de qualquer instituição, que não abarca as reais necessidades da sociedade humana, e estabelece leis estranhas a consecução da comunicação da pessoa e de sua vivência integral, é produto de uma Ordem Imposta, como o foi os nazismo e os vários fascismos travestidos em diversos modelos, e arregimentando por diversos temperamentos na pele de sujeitos como: Benito Mussolini (29/07/1883 - 28/04/1945); Adolf Hitler (20/04/1889 - 30/04/1945); António de Oliveira Salazar (28/04/1889 - 27/07/1970); General Francisco Franco (04/12/1892 - 20/11/1975), estabelecida por ditaduras que aviltaram sociedades, como, por exemplo, as ditaduras sul americanas, norte coreana, leste europeias, ou ditaduras religiosas, a exemplo das que norteiam a maioria das nações do Oriente Médio, e demais ditaduras que se impôs, e ainda impõem sobre determinados povos, regimes que não se harmonizam com a liberdade de expressão, autonomia e que por conseguinte, entram em choque com a as necessidades de cada ser que aspira a vivência efetiva e integral de sua pessoalidade.

Em suma, estar debaixo de qualquer sistema que violente a vivência da pessoa integral, é estar, ou submetida ao caos da desordem estabelecida ou ao peso de uma ordem imposta.
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Lailson Castanha
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(1)http://www.antonioalcadabaptista.org/projectos/otempoeomodo.html
(2) Mounier, Emmanuel. Manifetos ao serviço do personalismo.Lisboa: Livraria Moraes editora. 1967.
Foto: Favela de Paraisópolis, separada pelo muro de um condomínio de luxo no bairro do Morumbi.
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domingo, 21 de novembro de 2010

Relevância da Filosofia Personalista em tempos hodiernos.

RELEVÂNCIA DA FILOSOFIA PERSONALISTA EM TEMPOS HODIERNOS

.Ao Prof. MS. Daniel da Costa, pelo seu empenho em encarnar os ideais personalistas e esforço em apresentá-los à sociedade..

Lendo Martin Buber fui levado a pensar na maneira inadequada em que nos relacionamos com a natureza que nos cerca e com as pessoas que nos rodeiam. Buber apresenta como ideal um modelo, a vivência de relacional apresentados nos termos EU-TU. Com prática dessa vivência nos encontramos no outro ao passo que o outro se percebe em nós. Em nosso atual modelo de vivência social essa forma de relacionamento destacado por Buber torna-se quase impossível de ser adotada, pois, usando os termos de Buber, assumimos o modelo Eu-isso, um modelo que nos afasta das coisas que nos evolvem - tornando-nos insensíveis a realidade do outro. Nossa sociedade burguesa vivenciadora do modelo Eu-isso está longe do alcance percepcional revelador de que as coisas, a natureza e as pessoas que nos rodeiam devem ser percebidas como um “um-conosco”, e não a maneira pragmática - um “para-nós”.
A partir dessa análise, recebendo estímulos de amigos personalistas com suas ideias manifestas, percebi, mais uma vez, a pertinência da filosofia personalista, mais uma vez fui levado a observar a filosofia personalista se configurando como imprescindível em tempos hodiernos.
Sabendo que somos tendenciosos, e, por conta disso, costumamos elevar nossas aspirações e tendências a categoria do indispensável, permiti que fossem desenvolvidas em minha mente algumas indagações, com o propósito de aferir a validade de minhas convicções sobre a pertinência da filosofia personalista. O caminho que me fez traçar essas perguntas reforçaram em mim a convicção de que um novo discurso deve ser lançado com a finalidade de incitar na sociedade um desejo de agir em prol da transformação de seu atual estado para um modelo mais harmonioso, que leva em consideração às reais necessidades do ser humano vivente em uma sociedade tão plural e complexa. Sabedor que minhas convicções não são definitivas, intento desde já abrir essas questões que se desenvolveram em minha mente para que mais pessoas possam ao menos seguir a trilha que me levou a crer na pertinência da Filosofia personalista, e a partir disso, pessoalmente se posicionar. Portanto não poso seguir essa assertiva sem apresentar as seguintes questões que permiti que agitassem a minha mente, a saber:
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. O que é a Filosofia Personalista?
. Seria o discurso da Filosofia Personalista realmente imprescindível?
. O que a Filosofia Personalista tem para contribuir em nossa sociedade? O que ela traz de diferente em relação às coisas que já foram ditas e construídas por uma grande diversidade de engenhosos sistemas de idéias?
.Creio que respostas honestas para perguntas honestas não devem ser respondidas instantaneamente, como uma peça substituída a compor a engrenagem. Creio que existem questões, de tão complexas, não podem ser respondidas de forma automática. Levo essa ideia como diretriz a todo o momento em que sou colocado diante de questões sérias.
Quando falamos sobre a filosofia personalista, devemos ter cuidado em não reduzi-la a um aspecto que a compõe. Por exemplo, não podemos apresentar a Filosofia Personalista como a filosofia comprometida com a pessoa ignorando sua preocupação e comprometimento em ser uma filosofia da ação, como também não podemos ignorar que o engajamento personalista, apesar de não ser um sistema, não dispensa totalmente a sistematização da ordenação do pensamento, da construção de uma efetiva Filosofia, pois agir e pensar sem ordem se configura em um desnorteio. Como já afirmara Mounier, “O Personalismo é uma filosofia, não é apenas uma atitude. (...) Não foge a sistematização. Portanto o pensamento necessita de ordem: conceitos, lógica, esquemas unificantes... (...) Porque define estruturas, o personalismo é uma filosofia, e não apenas uma atitude.” (1).


Afirmar que o personalismo é uma filosofia, não evidencia sua pertinência. A importância dessa filosofia, não se encerra no fato de ser mais uma filosofia a ser conhecida, a ser estudada e discutida na ambiência acadêmica. A relevância da filosofia ardorosamente defendida por Emmanuel Mounier é que ela é um esforço para compreender o ser humano em sua integralidade, entendendo por integralidade humana, todos os aspectos que permeiam e envolvem a existência humana, e não somente um esforço para compreender. Esse esforço é uma forma de conhecer para agir - para, com isso, efetivamente e com propriedade, se envolver na problemática abordada. Por ser uma filosofia que aborda com efetivo envolvimento as questões que permeiam a existência humana – o personalismo torna-se imprescindível.
.Não podemos nos contentar em meio à crise social, moral, política, econômica e religiosa que envolve o mundo, com filosofias etéreas, idealistas, especulativas ou reducionistas - como as que são tratadas nas universidades. Filosofias inchadas, que emprestam um ar de erudição para quem as domina, porém, não tendo nenhuma relação com o ser humano integral – ser envolvido em uma série de crises. A filosofia Personalista é importante porque leva em consideração os problemas do ser humano enquanto pessoa, e não como uma ideia abstrata a ser desenvolvida, como uma massa coletiva ou como um indivíduo que resolve-se de maneira isolada.
.Na época de seu principal articulador, Emmanuel Mounier, a Filosofia personalista através do círculo intelectual que a delineava (Esprit), enfatizou o problema da crise da civilização, tão escandalosamente destacadas a partir da eclosão da primeira Grande Guerra (1914-1918) e na florescência da Segunda Grande Guerra (1939-1945). Hoje, apesar dos diferentes aspectos, essa crise ainda se faz vigorosa. A matéria prima dessa crise é a mesma de outrora, a saber, a desumanização nas instituições e nas relações entre os homens. Engajada através de seus interlocutores, a Filosofia Personalista denuncia essa crise e busca, através do diálogo -, porque dialogar é uma de suas vocações, superar essa crise propondo a instauração de uma nova vivência social, a civilização personalista e comunitária, uma civilização, segundo Mounier, “cujas estruturas e espírito estão orientadas para a realização da pessoa que é cada um dos indivíduos que a compõem”.
.Enfrentar a realidade da pessoa humana aceitando seus desafios e neles se envolvendo, aceitar a integralidade do ser humano, se envolvendo na vocação do homem encarnado na existência, sem rejeitar suas demandas espirituais, faz do personalismo de matriz mounieriana uma filosofia diferente daquelas oralizadas por pedantes intelectuais, filósofos profissionais e friamente academicistas, compromissados apenas com o seu ego e com a manutenção de suas vaidades, enquanto que, descompromissados com a realidade do ser humano integral e suas reais demandas.
.Denunciar a “desordem estabelecida”, se envolver com pessoas engajadas para a realização de uma nova civilização aponta o contributo do Personalismo como uma filosofia distinta e a sua pertinência.
.Há muito que se fazer -, como enfaticamente aponta o Prof. Daniel da Costa, é necessidade premente os personalistas se envolverem em todas as camadas da sociedade, em todos os campos de atividade para deles e neles extrair respostas e apontamentos visando os melhores meios de tornar a tão sonhada sociedade personalista uma realidade.
Temos muito trabalho pela frente, não podemos nos desanimar, afinal, de que adianta a prática do filosofar se dela não surja frutos a serem colhidos para proveito da a existência humana? Como personalistas admitimos com Mounier que “não basta compreender, é preciso fazer. O nosso fim, o fim último, não é desenvolver em nós ou em torno de nós o máximo de consciência, o máximo de sinceridade, mas assumir o máximo de responsabilidade e transformar o máximo de realidade à luz das verdades que tivermos reconhecido." (2)
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Citações
.(1) MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
(2) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
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Referências
.BUBER, Martin. Eclipse de Deus: considerações sobre a relação entre a religião e a filosofia. Tradução Carlos Almeida Pereira. Campinas: Verus editora, 2007.
MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. 3. ed. Santos: Martins Fontes, 1974.
______. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
WARD, Keith. Deus: Um guia para os perplexos. Tradução Susana Schild; apresentação à edição brasileira Leonardo Boff. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.
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sábado, 30 de outubro de 2010

Temos de ser individualistas?

TEMOS DE SER INDIVIDUALISTAS?
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Antonio Glauton Varela Rocha*
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No meio personalista a expressão vida pessoal engloba uma séria de atitudes e escolhas bem específicas, geralmente as que fomentam uma vivência livre e responsável, um tipo de vivência não individualista e que tem em vista o aspecto comunitário: não pensar só em si, não explorar os outros, ser espontâneo, ter vontade livre, esse tipo de coisa.
.Costuma-se objetar essa perspectiva com a afirmação de que os atos irresponsáveis, individualistas e egoístas não seriam menos humanos do que os citados acima, pois também são feitos por homens. Se isto for verdade o personalismo fica em maus lençóis, pois não poderia eleger atos específicos como sendo mais pessoais do que outros.
.Mas na realidade estas objeções surgem de uma equivocada equiparação entre o que e ato humano em sentido lato e em sentido estrito. Claro que matar e afagar são atos igualmente humanos se os entendemos em sentido lato. Usando um exemplo bem tosco, neste sentido arrotar também é um ato humano, isso é óbvio. Uma pessoa pode aprender a arrotar as sete notas musicais, ou ainda melhor, arrotar uma sinfonia de Beethoven; ficaria muito interessante, daria até para passar em algum programa de auditório, mas ficaria a pergunta: o que isto acrescenta para o desenvolvimento deste indivíduo como pessoa? É possível sim ser egoísta, mas isto não representa um ato propriamente pessoal (num sentido estrito). Quando o personalismo fala de ato da pessoa, fala de outra coisa. O que as filosofias como o Personalismo ou as filosofias do diálogo entendem como atos pessoais (ou mais propriamente humanos) são atos que condizem com uma espécie de natureza ou condição humana; são atos que nos diferenciam da vida simplesmente animal. No caso do personalismo, o homem é compreendido como em contínua situação de relação (como um ser-com). A filosofia contemporânea apresenta muitas teses que demonstram que o poder do sujeito isolado é apenas aparente, tanto ao nível epistemológico, como no âmbito da linguagem ou das relações sociais. A hermenêutica gadameriana, a concepção heideggeriana sobre o homem como dasein, a noção de jogos de linguagem trazida por Wittgenstein, são ataques pesados às pretensões do subjetivismo e do solipsismo metodológico. Tudo isso é um bom embasamento para percebermos que o homem não é um ser isolado e que não apenas precisa dos outros, mas que é um ser "feito" para estar em relação.
.Os individualistas gostam de dizer que o pensamento comunitário não tem fundamento e que é preciso reconhecer o individualismo como a teoria mais coerente. De fato isto é muito fácil dizer quando se tem ao redor de si toda uma estrutura de relação, toda uma sociabilidade que o permite a vida física, o aprendizado dos costumes, da visão de mundo, da linguagem, e quando se tem o seu João para plantar feijão na roça, e depois o seu José para levar para o supermercado.
.Com o que foi dito acima, vemos que falar do homem como um ser de relação não é algo arbitrário. O homem pode até viver como se os outros não existissem, mas a sua condição sempre será a de um ser em relação. Ou seja, podemos dizer que o homem possui sim características específicas (como a da sociabilidade), distintivas, que alguns chamam de essência, natureza ou condição. Elas não esgotam o sentido da pessoa, mas se soubermos que elas existem e buscarmos entender quais são é possível dizer que alguns atos são mais humanos do que outros (no sentido estrito). Podemos dizer, por exemplo, que reconhecer o valor do outro é uma atitude mais humana do que ser egoísta. Estas diferenciações são possíveis e necessárias se queremos legitimar a crítica aos ordenamentos sócio-políticos que se voltam contra a pessoa.
.Mas por que é mais fácil ser egoísta do que ser solidário? Pode me pergunta um individualista convicto; assumo que esta questão não admite uma resposta simples, mas um dos motivos com certeza é este: FOMOS MUITO MAL EDUCADOS, ou melhor, fomos adestrados para sermos egoístas. Algumas tribos indígenas não têm a menor dificuldade para compartilhar o que se produz ou o que se consegue na natureza entre todos do grupo. Para eles é uma atitude muito estranha querer algo só para si ou acumular. Alguns estudiosos tratam disto, como o antropólogo Bartolomeo Meliá em suas pesquisas sobre a cultura guarani em seu país e no Brasil. Já para nós é estranho imaginar um ordenamento onde as pessoas não pensam só em si, pois a maioria age assim, aprendemos desde criança que a vida é assim (luta egoísta), vemos na televisão, nas ruas, em todos os lugares. Realmente é muito difícil sair da situação onde se está imerso para ver que a nossa realidade não é a única legítima, ou que talvez nem seja muito legítima, ou mesmo que exista outra realidade. Mas se é difícil, por outro lado não é impossível. Alguns homens conseguiram ver além dos limites do consensualmente aceitável e definido, e então conseguiram perceber o diferente... foi assim que se descobriu que a terra é redonda.
.Penso que é possível sim pensar em outra realidade, em outro modo de viver, penso também que se trata de uma mudança urgentemente necessária. Mas isto exigirá muito de cada um de nós. Agora é preciso saber se estamos dispostos a tal mudança.
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*Mestrando em Filosofia pela UFC (Universidade Federal do Ceará).
Personalista em formação e Pesquisador da Filosofia de Emmanuel Mounier (atual pesquisa versa sobre o estudo da antropologia de Emmanuel Mounier como base de uma proposta de sociabilidade compatível com a dignidade humana e da crítica à “desordem estabelecida”).
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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Jean LACROIX – Uma Biografia.

JEAN LACROIX – Uma Biografia.

Nascido em uma família burguesa católica, Jean Lacroix fez seus estudos secundários no Collège Dominicain d'Oulins, em seguida, no Collège Jésuite de la rue Sainte-Hélène. Matriculou-se na Faculdade Católica de Lyon, e obteve bacharelado em letras e licenciatura em direito. Volta-se então para a filosofia e apresenta uma tese em Grenoble, sob a direção de Jacques Chevalier: entra no "grupo de estudo", fundado por Chevalier com a ajuda de Jean Guitton. Matriculou-se na Sorbonne, onde Brunschvig o apresentou ao idealismo, e obtém agregação em filosofia em 1927. Passa a conhecer Laberchonnière e freqüenta com Guitton, o grupo de Davidées de Mlle Silve, onde conheceu Emmanuel Mounier 1928.

Nomeado professor do Liceu de Dijon, se envolve nos preparativos para o lançamento da Esprit engajando-se com Mounier. Fundou em Dijon um dos grupos mais antigos e mais animados da Esprit, no qual ele encontra várias pessoas, incluindo jovens e professores, cristãos e socialistas. Nessa ocasião, Lacroix em 1937 a 1968, em Lyon ele ensinou nas aulas preparatórias de letras superiores e escola primária superior do Lycée du Parc.

Pode-se dizer de sua educação - muito eficaz para a competição bem sucedida na escola superior normal, principalmente para estudantes que não são filósofos - que era clássico pelo seu método e moderno em sua abertura à todas as correntes do pensamento contemporâneo do existencialismo ao estruturalismo, do marxismo à psicanálise.

Desde de seu regresso à região de Lyon, Lacroix se juntou à intimidade intelectual e espiritual de P. Albert Valensin, professor de teologia na Faculdade Católica, discípulo e amigo íntimo de Maurice Blondel. Torna-se membro da Sociedade Lyonesa de Filosofia, liderado pelos ex sionistas (1) Victor Carlhian e por Auguste Valensin. Conheceu Vialatoux. Também foi o organizador do grupo Esprit de Lyon, que seria o foco principal do movimento na província.

Lacroix foi um membro do comitê de direção da revisão e até a morte de Mounier em 1950 permanecendo ao tempo da direção de Albert Béguin até 1957 ano da morte do colaborador suíço. Seus inúmeros artigos na revista dizem respeito principalmente sobre pensamento político, os socialistas e o sindicalismo, o papel do direito, da democracia, dos comunistas e da responsabilidade cristã. Ele colabora, em 1938-1939 com a Voltigeur, folha política bimestral, lançada pela equipe da Esprit, em Munique. Na tarefa confiada a Lacroix na famosa edição especial sobre o marxismo Esprit (maio-junho 1948), de destacar a linha da revista, fez em um artigo intitulado "Marx e Proudhon," com clareza e o espírito de síntese que o distinguiu nos seus escritos.

De 1940 a 1942 deu a École Nationale des cadres d'Uriage uma série de conferências sobre a pátria, sobre Peguy, Marx, Marx, e sobre vários temas da pedagogia, psicologia e ética. Esta educação contribui para a orientação de abordagem educativa e saúde espiritual da l'équipe d'Uriage vers la Résistance (equipe Uriage para resistência), e no sentido de uma revolução social e humanista.

Em 1945, Hubert Beuve-Méry confiou-lhe coluna mensal de filosofia no jornal Le Monde. Lacroix irá cumprir esta tarefa regularmente até 1980. Seus artigos foram reunidos em uma série intitulada "Panorama da Filosofia Contemporânea (1968, 1990).
Jean Lacroix foi um participante ativo no e crônica social das Semanas Sociais da França, não só em artigos e palestras que ele deu a estas duas instituições de origem Lyonesas (oito cursos de Semanas Sociais, entre 1936 e 1964), mas através de uma cooperação eficaz no desenvolvimento de projetos e de definições de políticas (foi membro da Comissão Geral das Semanas Sociais de 1945). Em 1936, desempenhou um papel de mediação social entre os católicos (Duthoit, as equipes da revista política e crônica social) e seus amigos no movimento da Esprit que preferem engajamentos não confecionais.

Em 1947, suas palestras na Semana Social em Paris, "o homem marxista" provoca uma sensação de agitação. Ele dá o exemplo da atitude de "simpatia metodológica” que caracteriza a sua abordagem às correntes contemporâneas de pensamento da qual ele também manteve um diálogo aberto constante, por mais difícil que em muitas vezes se fizesse com os amigos intelectuais comunistas.

Tendo defendido, a partir de 1937-1938, a opção de união NMS, aderindo à CFTC, também participa, especialmente depois de 1945, do desenvolvimento da Paroisse universitaire " (membros católicos do ensino público), relator, em várias ocasiões par "jornal acadêmico" é também um dos colaboradores e amigos do P. Dabosville, capelão nacional de 1946 à 1963.

Lacroix também dá palestras na Sociedade Europeia da Cultura, dirigido por Umberto Campagnolo. É freqüentemente convidado a outros países: de grandes audiências, na Bélgica, Suíça, Canadá, ou em países do Magrebe e da América Latina, com a intenção de exprimir sobre as grandes questões que a sociedade e o homem moderno enfrentam.

Amigo dos jesuítas Varillon e Fraisse, e Hubert Beuve-Méry, ele mantém uma correspondência regular com as personalidades mais diversas, dos seus colegas filósofos a desconhecidos que reuniram em torno de sua assinatura no Le Monde. Em Lyon, como Lépin-le-Lac (Savoie), congratula-se com muitos visitantes com simpatia, brincando com seu humor e desajeitada solidez. Lacroix criou um personagem cujos alunos fizeram um mito sem fim e agradável. O paradoxo, da ironia a repetição de fórmulas são fortemente reforçados, servindo para expressar um pensamento também alimentado de leituras, referências eruditas à experiência e à cultura da vida cotidiana.

Lacroix é um filósofo personalista, ou seja, que para ele o centro de tudo é a pessoa, humana espiritual e encarnada. Essa pessoa pode encontrar sentido em sua própria liberdade interior pela relação com o outro. Ela pode ser ela mesma no envolvimento social dentro da família como na humanidade. E Deus é o único outro que poderiam justificar a realidade do sujeito individual, "eu" e dar-lhe uma a abertura a outros para formar um "nós". Esta dialética que Lacroix exprime alternadamente em uma metafísica moralista, atenta a todas às dimensões da experiência humana, permitindo, de acordo com ele, exceder ao mesmo tempo o marxismo e o existencialismo e de responder ao ímpeto integral do homem.
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B. Comte e X. de Montclos

Obras de Jean Lacroix em língua portuguesa:
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Kant e o kantismo. tradução de Maria Manuela Cardoso. Porto: Rés, 1979, 2001 (2ª), 128 pp.
A sociologia de Augusto Comte /A ordem politica e social Augusto Comte. - Jean Lacroix- Gian Destefanis. Curitiba:Editora Vila do Príncipe, 2003.
Os homens diante do fracasso. - Jean lacroix. Org. São Paulo: Editora Loyola, 1970.
Marxismo Existencialismo Personalismo. Tradução de Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Paz e e Terra, 1967
Timidez e Adolescência. São Paulo: Livrobras- comércio de livro.
O personalismo como anti-ideologia. Tradução de Olga Magalhães. Porto: Rés, 1977 .
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Tradução e adaptação: Lailson Castanha
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Fontes:
http://www.girafe-info.net/jean_lacroix/bio2.htm
(1) Sionistas: foi um movimento cristão, tanto cultural como politicamente, fundada em 1899 por Marc Sangnier (1873-1950) e de auto-dissolvido em 1910, quando os papas condenado por lesar tradição. O movimento, que desejava conciliar o catolicismo com a República e com a classe operária, teria contado até meio milhão de membros.
http://lucky.blog.lemonde.fr/2009/04/10/pour-mauriac-ne-pas-confondre-%C2%AB%C2%A0silloniste%C2%A0%C2%BB-et-%C2%AB%C2%A0sioniste%C2%A0%C2%BB/
Gravura: Jean Lacroix (em destaque)
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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Introdução aos existencialismos.

INTRODUÇÃO AOS EXISTENCIALISMOS - EMMANUEL MOUNIER

Nesta interessante obra, o filósofo francês Emmanuel Mounier faz uma reflexão panorâmica sobre a filosofia existencialista em sua diversidade de temas e abordagens, desde o seu nascedouro na antiguidade grega até a contemporaneidade.
Emmanuel Mounier faz-nos perceber que não existe uma exclusiva “filosofia existencialista”, pois a preocupação com o problema do homem envolvido na existência, e, existencialmente tentando entender a realidade, mesmo que de maneira rudimentar, fora abordada muito antes dos filósofos tidos como pais do existencialismo e da vertente contemporânea que assumiu o epíteto “filosofia existencialista”, e, de maneira vária, continua sendo abordada, por crentes e céticos, por diversos pensadores e diversas escolas. Por isso sua obra é intitulada “Introdução aos existencialismos”, ou seja, de maneira panorâmica Mounier nos apresenta os diversos existencialismos e suas vertentes.
Trata-se de uma abordagem inclusiva sobre os vários existencialismos, desde a sua raiz, antes mesmo de assumir a nomenclatura “existencialista” - em Sócrates, com sua preocupação de incitar o homem a se auto conhecer, se opondo as preocupações de ordem cosmogônicas, como também a intensa busca pelo princípio físico (arqué) que caracterizou a filosofia dos primeiros filósofos que o antecederam, até a filosofia existencialista contemporânea, precedida pela angústia Kierkigaardeana, que se levantou contra o absolutismo sistemático traçado pela filosofia de Hegel, onde tudo se encaminhava de maneira sistêmica e ordenada.
Além de descer até a raiz existencialista, o autor personalista aborda os existencialismos modernos e contemporâneos, por ele figurado como tronco e galhos da filosofia existencial. O personalismo nessa obra é apresentado como um dos galhos, como uma das últimas e atuais manifestações da filosofia da existência.

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Lailson Castanha

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MOUNIER, Emmanuel. Introdução aos existencialismos. Lisboa: Moraes editora. 1963.

Gravura: árvore existencialista elaborada por Emmanuel Mounier, impressa no livro Introdução aos existencialismos.

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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Juan Manuel Burgos Velasco e a continuidade da nova filosofia personalista.

JUAN MANUEL BURGOS VELASCO E A CONTINUIDADE DA FILOSOFIA PERSONALISTA 

Juan Manuel Burgos Velasco (11 de setembro de 1961 , Valladolid, Espanha). Filósofo personalista espanhol.

Recebeu seu doutoramento em astrofísica pela Universidade de Barcelona, na cidade de Barcelona no ano de 1988 e em Filosofia na Università Pontificia della Santa Croce, na cidade de Roma, em 1992.
Professor de psicologia na Universidade San Pablo CEU de Madrid, e no Instituto João Paulo II Madrid, membro do Instituto Internacional Jacques Maritain, em 2007, professor convidado na Universidade Galileo, Guatemala. No mesmo ano, tornou-se professor honorário no Instituto de Ciências da Família da Guatemala pela sua contribuição às ciências da família através de seus estudos de antropologia.


Dedicando-se ativamente para a investigação e difusão da filosofia personalista, Juan Manuel Burgos foi professor convidado nas universidades de Roma, México, Argentina, Uruguai, Paraguai, Guatemala e Colômbia. Ele é fundador e atual presidente da Associação Espanhola de personalismo, AEP, uma instituição dedicada a desenvolver e promover o personalismo, através de publicações, seminários e congressos internacionais sobre os pensadores personalistas, como Karol Woityla e Julian Marias.

Como filósofo, uma das grandes preocupações de Burgos, é apresentar a Filosofia Personalista como grande novidade, e como grande potência filosófica, apresentando nomes como Maritain, Mounier, Karol Woityla, Max Scheler, Nedoncelle e Gabriel Marcel como arquitetos ou construtores da filosofia personalista. O filósofo espanhol, faz questão de apresentar a filosofia personalista como efetivamente uma filosofia e uma filosofia viva, que não se limita a sua vertente francesa, como também, não findou com a morte de Emmanuel Mounier seu principal nome. Segundo Burgos, a filosofia personalista é muito mais extensa do que a matriz francesa manifestada nas páginas da Esprit, ouve uma continuidade na filosofia personalista, tanto em solo norte americano, quase que independente da vertente francesa, por exemplo, na obra de Edgard Sheffield Brightman, como também em território europeu, como na Polônia com K. Wojtyla; na Itália com autores como Stefanini, Pareyson, Carlini, Buttiglione; R. Guardini, F. Ebner , nos domínios da lingua alemã com Hans Urs von Balthasar e de língua espanhola, com J. Marias, A; Lopez Quintas, Carlos Diaz e outros .
Apresentando o personalismo como uma nova filosofia, Burgos procurou destacar os temas que envolvem o ideário personalista, que, por tratar a questão da pessoa, por conseguinte, abordou e aborda assuntos que direta ou indiretamente corrobora a ideia do universo da pessoa, como tema central da filosofia, como: valorização da pessoa diante das coisas, importância da afetividade para a construção de uma sociedade saudável, a necessidade da comunicação, que abrange a comunicação familiar e interpessoais para a formação da pessoa, homem e mulher, como duas distintas maneiras de ser pessoas, filosofia como tentativa de buscar a transformação da sociedade, em detrimento a filosofia como mero exercício acadêmico, valorização das necessidades fundamentais do ser humano, lembrando de sua formação integral como um ser de dimensões transcendentes e imanentes.

Em sua pesquisa, Burgos ressalta que, na busca pela valorização do aspecto transcendente do ser humano, a filosofia personalista inspirou-se na tradição judaico/cristã e nas questões imanentes, nas tradições de filosofias da existência. As inspirações da filosofia personalista também indicam a profundidade dessa filosofia, em outras palavras, o personalismo efetivamente é uma filosofia, como bem afirmou Mounier, em seu bojo, percebe-se elementos que caracterizam uma filosofia profundamente construída. No influxo cristão sobre o personalismo, por exemplo, não há como negar uma metafísica personalista. Sendo uma filosofia bem fundamentada, será que o personalismo está fadado a morte por conta da vivência da pessoa, como deu a entender Ricoeur em um de seus artigos? Burgos crê, que Ricouer não percebeu a abrangência do personalismo, por isso profetizou a sua morte após a afirmação da pessoa. Segundo ele, os outros personalistas ajudam a mostrar um personalismo mais abrangente do que aquele percebido por Ricoeur. Dialogando com eles já se percebe uma metafísica personalista, uma fenomenologia e até mesmo uma teologia.


Além de dirigir duas coleções de filosofia em Word Publishing, editora espanhola que publica livros, revistas e CD-Rom visando a formação humana e espiritual da pessoa e da família, Juan Manuel Burgos publicou numerosos livros e artigos, especialmente sobre personalismo, antropologia filosófica, bioética e sociologia da família.

Dentre os seus livros, podemos destacar: La inteligencia ética. A proposta de Jacques Maritain, 1995; El personalismo. Madrid:2.ed. Palabra, 2003; Antropología: una guía para la existencia. Madrid: 2. ed. Palabra, 2005; Diagnóstico sobre la familia. Madrid: Palabra, 2004 e Para comprender a Jacques Maritain. Madrid: Mounier, 2006.
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Lailson Castanha
FERNÁNDEZ, José Luiz Canãs . Universidade Complutense madrid: Renacimiento del personalismo? Anales del Seminario de história de la filosofia, 2001.
Gravura: Juan Manuel Burgos

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O despertar personalista.

O DESPERTAR PERSONALISTA

A Filosofia Personalista, em sua matriz francesa, se desenvolveu vigorosamente através do esforço de Emmanuel Mounier e demais filósofos, posteriormente chamados de personalistas, em buscar respostas para a questão da crise da pessoa humana na atual civilização – considerada por Mounier como civilização da desordem estabelecida – onde as coisas, os negócios, e o coletivismo são mais valorizados do que a pessoa em sua integralidade. Como alguns filósofos, eu também fui despertado por essa questão.
O despertamento personalista não encerrar-se no ato de despertar, no ato de perceber. A ação deve ser o ato consequente do despertar. Após acordarmos da distração que dante nos envolvia, não podemos permanecer parados, olhando a continuidade de práticas equivocadas. O despertar filosófico, tem que nos levar ao engajamento, ao compromisso em prol de mudanças em favor de uma ambiência histórico social que propicie a vivência integral da pessoa humana. Não podemos encerrar nosso despertar nas desafiadoras leituras de textos personalistas. Temos que aceitar o desafio provocada na prática da leitura e partir para a ação que ela nos incita.
Sabemos que a decisão não é fácil, ela naturalmente nos levará à confrontos - primeiro consigo mesmo, posteriormente, com ideias, coisas e pessoas. Ademais, nenhuma ação deve ser tomada sem orientação.
Apesar da dificuldade de se tomar decisão, decidir em prol da ação, sempre será a opção mais correta, pois agir é imprimir uma marca pessoal na história, é fazer parte dela, é dar liberdade criativa à peculiar vocação de pessoa humana, ou seja, vocação de comunicação, de interação, em uma palavra, de participação. Negar a ação, é negar-se a si mesmo, é negar a nossa condição de pessoa, vivendo uma aviltante existência demissiva, em que negamos o nosso fermento para construção do histórico e progressivo pão de cada dia, se bastando na alimentação de fatias ainda não ideais do progresso histórico, fermentada pelo notável esforço e ação de muitos.
Não estamos sós, ainda existem pessoas que vivenciam a sua condição natural de artífice, sem esquecer que toda a ação, é fecunda, toda ação, provoca uma reação. Mesmo no aparente isolamento de nossos esforços, lembramos com Mounier que “a história recompensa aqueles que se obstinam e que um rochedo bem situado corrige o curso de um rio”.(1)
Lailson Castanha
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(1) MOIX, Candide. O pensamento de Emmanuel Mounier. São Paulo, Paz e Terra: 1968.
Apud. MOUNIER, Emmanuel. Les Certitudes dificiles, 286p.
Gravura: Obras personalistas editadas em língua portuguesa
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segunda-feira, 26 de julho de 2010

Afrontamento personalista aos existencialismos pessimistas.

AFRONTAMENTO PERSONALISTA AOS EXISTENCIALISMOS PESSIMISTAS

A filosofia existencialista acentuando os problemas existenciais, problemas que envolvem o ser humano, que impregna a existência humana, em sua vertente pessimista desconfia da possibilidade da existência de um prévio sentido para a vida que nos anima. Segundo essa linha de pensamento, não há nenhum sentido, não existe sentido metafísico, nem ao menos nenhuma base ontológica por trás da mortal existência. Estamos sós, ou seja, só existe a existência do existente físico, a existência concreta, e como tal, existência vazia de significação. Diante dessa fastiosa situação, como seres concretos e únicos devemos criar, ao menos, condições que possibilitem uma vivência menos dolorosa , uma ordem que propicie uma existência onde cada um possa exercer sua liberdade em conformidade com a liberdade do outro, uma liberdade com responsabilidade.
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Pensando de maneira muito próxima ao que posteriormente viera a ser tratado como existencialismo, já afirmara Karl Marx: “Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência”(1).Apesar de não ser contado entre os pensadores existencialistas, podemos interpretar sua destacada assertiva como um pensamento existencialista, entendemos que a sua afirmação em destaque elucida e sintetiza bem o pensamento do existencialismo. Cremos que não seriamos levianos se aproximássemos a citada ideia de Marx com a celebre afirmação de Jean-Paul Sartre: a existência precede a essência.
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Diante das duas afirmações em destaque, podemos compreender a filosofia existencialista. Na ambiência existencialista crê-se que fora da concretude existencial não existe nada de fundamental, não existe nenhuma lei basilar que oriente o ser humano em sua jornada existencial, a modo de Protágoras, o existencialismo também crê que “o homem é a medida de todas as coisas”.
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Apesar de entender a principal questão que incita a filosofia existencialista, não podemos deixar de perceber alguns dilemas que ela constrói, levando-se em consideração sua não aceitação a qualquer possibilidade ontológica..
Contra os metafísicos é direcionada pelos existencialistas pessimistas toda espécie de expressões que os definem como fracos, tímidos e supersticiosos - pelo fato deles não desprezarem possibilidades metafísicas. Também, as questões por eles problematizadas são colocadas como delirantes, infundadas, que, por não serem concretas, não podem ser tratadas como questões sérias..
Realmente o apegar-se excessivamente a ideias que estão fora ou que não dizem respeito a nossa existência concreta, beira a uma renúncia existencial, se aproxima, como diria Mounier, de um delírio, fruto da não aceitação da massiva e pesada existência. Mas, por outro lado, a não aceitação de possibilidades ontológicas, não indica uma espécie de malgrado com questões que não dominamos, que, por sua natureza metafísica não são clarividentes, como o são as questões de ordem existenciais? Não seria apropriado também, apresentarmos como delirante, demissiva e infundada, toda atitude que prefere desconsiderar problemas que não domina, desfazer-se de temas que não estão desvelados e de possibilidades que se levantam, pelo simples fato de por hora, não serem dominadas pelo saber humano? Rejeitar, refutar, tentar esconder o que não domina, não se configura como um malogro, não seria essa, uma atitude de má fé?
Lailson Castanha
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(1) MARX, Karl. Economia, política e filosofia. ~Tradução de Sylvia Patrícia. Guanabara: Melso sociedade anônima, 1963.
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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Pessoa, Existência e Educação.

A filosofia personalista visando exaltar a integralidade da pessoa humana – encontra no tema “educação” um dos caminhos para abordar de maneira adequada a importância da construção de uma sociedade personalista e comunitária como um meio de possibilitar a vivência da pessoa na comunidade humana.
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No livro “Pessoa, existência e Educação”, o filósofo Adão José Peixoto apresenta com qualidade linhas gerais do personalismo de veia mounieriana, traços da carreira existencial de Emmanuel Mounier, o mais influente defensor da filosofia personalista. Aborda também as estruturas que constroem o universo pessoal, as relações personalistas – leitura personalista do cristianismo, aproximações e distanciamentos do personalismo com marxismos e existencialismos.

Depois de apresentar traços que formatam o personalismo, o Prof. Adão aborda a questão da educação. Transformando o tema num problema, poderíamos afirmar que, quando fala de educação – a obra de Adão José Peixoto – entra nas seguintes questões:

Qual é a finalidade da educação?
Como seria uma possível educação personalista?
Quais os movimentos que constroem uma possível pedagogia personalista?

Se o livro não traz respostas definitivas, pelo menos desperta o leitor para pertinência da filosofia personalista, bem como, sua importância para a construção de uma pedagogia que leve em consideração a dimensão pessoal do educando, a necessidade de uma educação que leve em conta o universo da pessoa, que trate o ser humano como um ser singular, que estimule os envolvidos à prática da comunicação e a participação efetiva nos projetos comunitários.

É um livro singelo, mas não deixa de cumprir o seu papel de provocar e despertar o leitor a questões, se não totalmente adormecidas, ainda sonolentas.

Adão José Peixoto é Mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica em Campinas (PUC Campinas), Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Professor na Faculdade de Educação da universidade federal de Goiás (UFG) e coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em fenomenologia da faculdade de educação da UFG. É autor e organizador de várias obras, como: Filosofia, educação e cidadania, Editora Alínea, 2001; Interações entre fenomenologia & educação, Editora Alínea, 2003; Formação de professores: política, concepções e perspectivas , Editora Alternativa, 2001; Concepções sobre fenomenologia, Editora da UFG, e A LDB do Estado de Goiás: análise e perspectivas, Editora Alternativa, 2001, além do já citado Pessoa, existência e educação, Editora Alínea, 2009.
Foi um dos palestrantes do I Encontro - Mounier, testemunha de seu tempo realizado na USP.
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PEIXOTO, Adão José. Pessoa, existência e educação. Goiânia: Ed da UCG, Alínea, 2009.
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sábado, 22 de maio de 2010

Reafirmando o personalismo como uma filosofia do engajamento em prol da pessoa.

REAFIRMANDO O PERSONALISMO COMO FILOSOFIA DO ENGAJAMENTO EM PROL DA PESSOA

O livro bíblico de Gênesis, logo em seu início, narra a tragédia do homem, a tragédia causada pelo pecado original, pecado esse que desencadeou na falência do homem e a sua consequente morte. A fatalidade dessa trama não se encerra na morte do homem enquanto um ser físico, se estende a todos os lugares perpassados por sua presença e a todos os projetos em que ele se envolve – mesmo sendo esses, bons projetos. Por conta disso, não basta agir de boa fé, faz-se necessário sempre, avaliar e reavaliar os projetos.
O apóstolo Paulo de Tarso dá-nos uma lição importante. Sabendo da inconstância de nossas motivações, e consequentemente da facilidade de nos desviarmos de nossos ideais, por conta da fraqueza que a queda nos imprimiu, afirma num sério tom admonitório: "Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos." (2Co 13.05).

O personalismo é uma filosofia que tem como sua principal diretriz, a ação engajada em prol da pessoa. Igualmente a qualquer filosofia, não deixa de ser um projeto formatado por homens. A ambiência em que as ideias personalistas são defendidas também é constituída por seres humanos – homens e mulheres ainda em construção, definindo e redefinindo o projeto de suas vidas. Nessa ainda construção, muitas ideias são reavaliadas, muitos projetos podem ser abandonados, - trocados por outros, ideais podem extraviar-se, ou quem sabe, já se perderam a tempos. Nesse ambiente de incertezas que assola a danada existência do homem, e que, consequentemente, envolve a ambiência personalista, a reflexão do apóstolo Paulo apresenta-se com grande pertinência. Embora o alcance dessa reflexão apostólica deva ser muito mais extenso, encaminho-a em particular, para os homens e mulheres, que de uma forma ou de outra, se envolveram no belíssimo projeto personalista, tão bem encarnado na pessoa de Emmanuel Mounier, de lutar contra a engenharia antipessoal promovida e legalizada pela desordem estabelecida que rege a nossa civilização, visando a instauração de uma comunidade personalista e comunitária onde as pessoas e não as coisas, onde a pessoa e não o título que representa seja a primazia.
A questão levantada aqui, como levantou o apóstolo Paulo aos crentes de Corintos, é se os companheiros personalistas ainda então compromissados com os ideais que os fizeram comungar. Se estão engajados nos projetos dantes defendidos com tanto amor pelos construtores da filosofia personalista e comunitária em prol da derrubada da desordem estabelecida.
Engajamento é uma palavra por demais forte para ser apresentada sem o viço e energia que ela incorpora. Essa palavra forte, é uma das palavras basilares do personalismo de raiz mounieriana; sendo assim, tão certo como o termo forte "engajamento" não pode ser enfraquecido, a filosofia construída a partir do conceito que esse termo representa, de forma alguma pode ser enfraquecida, ganhando contornos diferentes das linhas fundamentais já traçadas. Como personalistas, não podemos nos apegar apenas a discussões filosóficas ou nos nomes que direcionaram os temas, e com isso, nos esquecer do compromisso de se envolver e agir. Essa acentuada fixação, faz-nos a modo dos idólatras, apegados a imagens símbolos e formas, e nesse apego, preso na inércia contemplativa.
Personalismo sempre será a filosofia do engajamento em prol da pessoa e de uma comunidade que garanta a liberdade da autêntica vivência da pessoa humana.
Filósofo personalista sempre será um ser humano compromissado efetivamente nas propostas estabelecidas através do diálogo, em prol da construção de uma comunidade personalista e comunitária. Negar a efetiva vivência desse compromisso, é negar a filosofia personalista, é negar o envolvimento em prol da pessoa humana..

“Porque não basta compreender, é preciso fazer. O nosso fim, o fim último, não é desenvolver em nós ou em torno de nós o máximo de consciência, o máximo de sinceridade, mas assumir o máximo de responsabilidade e transformar o máximo de realidade à luz das verdades que tivermos reconhecido." (1) 

Lailson Castanha
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(1) MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1967.
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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Reflexão personalista no Café filosófico São Bento

Pessoa e existência: a dramática existencial no personalismo de Emmanuel Mounier” – 31 de Maio de 2010 – Prof. Dr. Daniel da Costa

O Café Filosófico São Bento acontece às últimas Segundas -Feiras de cada mês no Café Girondino, na esquina da Rua Boa Vista com a Rua São Bento no Centro de São Paulo

O Café Filosófico São Bento acontece no Café Girondino das 17:00h às 19:00h.
Confirmar presença via e-mail: maritain@maritain.org.br

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Fonte: http://culturageralsaibamais.wordpress.com/cafe-filosofico/

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Intentamos propagar o personalismo, bem como suas principais ideias e seus principais pensadores, com a finalidade de incitar o visitante desse espaço a ponderar de forma efetiva sobre os assuntos aqui destacados e se aprofundar na pesquisa sobre essa inspiração filosófica, tão bem encarnada nas obras e nos atos do filósofo francês, Emmanuel Mounier.

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